O Brasil joga fora sol e vento e abre a porta ao gás

Data centers e baterias poderiam transformar energia limpa desperdiçada em investimento

Foto: Divulgação/ INEL.

Por Wladimir Janousek – Secretário de Indústria e Comércio do Instituto Nacional de Energia Limpa (INEL)

O mesmo país que manda usinas solares e eólicas reduzir a produção acaba de aprovar incentivos para uma indústria que consome eletricidade sem parar. A contradição parece absurda. É real — e o Redata poderia ter ajudado a enfrentá-la.

Quando sobra energia que o sistema não consegue consumir ou transportar, o operador manda algumas usinas gerar menos. É o chamado curtailment, necessário às vezes para proteger a rede. Quando vira rotina, porém, expõe um planejamento falho: temos sol e vento, mas faltam transmissão, demanda bem localizada e meios de guardar a sobra para outro horário.

Depois de 2023, os cortes se tornaram um problema estrutural. Em 2025, atingiram cerca de 20% do potencial eólico e solar e permaneceram nesse patamar nos primeiros oito meses de 2026. A Volt Robotics estimou a perda de 2025 em R$ 6,5 bilhões, com base em dados do ONS. Em algumas usinas solares do Nordeste, os cortes superaram 40%.

A conta já chegou ao investimento. Segundo a Aneel, 509 outorgas de usinas solares e eólicas, somando cerca de 22 GW, foram revogadas em 2025 a pedido dos próprios empreendedores. Nem tudo se explica pelos cortes. Mas um caso mostra seu efeito direto: a Atlas Renewable Energy, controlada pela BlackRock, colocou em espera US$ 1 bilhão em novos projetos, que somam 1,5 GW, por causa do curtailment persistente.

Se produzir energia não significa poder vendê-la, o capital procura outro destino.

É nesse cenário que entra o Redata, regime de incentivos aos data centers. Eles são grandes instalações de computadores que sustentam bancos, nuvem de dados e inteligência artificial. Funcionam 24 horas e consomem muita eletricidade. Essa nova demanda poderia absorver excedentes renováveis se fosse conectada nos lugares certos e combinada com baterias, capazes de guardar energia do meio do dia para uso mais tarde. Isso não eliminaria os cortes, mas uniria energia limpa, demanda e armazenamento.

O projeto passou meses parado e retornou à pauta depois que Lula, Davi Alcolumbre e Hugo Motta acertaram no Palácio da Alvorada uma lista de prioridades do Congresso. O registro público mostra um acordo de calendário, não de conteúdo. Ainda assim, quando o Planalto abriu a janela política, era o momento de o Ministério de Minas e Energia abrir também uma saída para esse desperdício.

O MME não era espectador. A pasta coassinou a medida provisória que criou o Redata, apresentando a energia renovável como vantagem comparativa do Brasil, e deve zelar pelo equilíbrio entre oferta e demanda. Se conhecia o problema e defendia o programa, por que não liderou, na fase decisiva, a defesa de contrapartidas claras — renováveis adicionais e rastreáveis, localização adequada, baterias e flexibilidade?

Essa ausência de liderança precisa ser explicada.

O que apareceu no Senado foi o movimento oposto. A Câmara exigia energia de fontes “limpas ou renováveis”. No dia da votação, o texto passou a falar em fontes “renováveis ou de baixa emissão, na forma do regulamento”. O gás não foi citado, e as emendas que tentavam incluí-lo expressamente foram rejeitadas. Mas a expressão aberta deixou ao futuro regulamento a decisão sobre seu eventual enquadramento.

É o que chamo de um “jabuti inglês”, aquele bem apresentado de terno e gravata, adicionado como ajuste de redação, embora capaz de alterar a política na prática. O gás pode emitir menos que carvão ou óleo. Continua fóssil. Abrir espaço para ele enquanto o Brasil impede sol e vento de chegar à rede é desperdiçar nossa melhor vantagem competitiva.

Depois da COP30 e de tantos discursos sobre transição energética, esperava-se mais. Na regulamentação, dentro dos limites da lei, o governo deve impedir que “baixa emissão” vire salvo-conduto para o gás fóssil convencional. E precisa criar, pelos instrumentos adequados, uma política real para armazenamento, rastreabilidade e consumo flexível.

O Brasil não precisa escolher entre economia digital e energia limpa. Pode usar uma para impulsionar a outra. Não nos faltam sol, vento, tecnologia ou demanda. Falta vontade política para fazê-los trabalhar juntos.