Aquecimento global deve romper limite de 1,5°C

Relatório da ONU prevê pico de 1,8°C mesmo no cenário mais otimista e alerta para agravamento de eventos extremos e perdas de ecossistemas

Temperatura média do planeta chegaria a um pico de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

O mundo deve ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento global nos próximos anos, segundo novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O diagnóstico aumenta a preocupação entre especialistas, que alertam para o agravamento de eventos extremos, perdas de ecossistemas e impactos sobre populações vulneráveis. 

Mesmo no cenário mais otimista analisado pela Organização das Nações Unidas (ONU), a temperatura média do planeta chegaria a um pico de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais antes de começar a recuar.

O limite de 1,5°C foi estabelecido no Acordo de Paris, em 2015, como referência para conter os efeitos mais graves da mudança do clima. Agora, diante da demora na redução das emissões de gases de efeito estufa, o Pnuma avalia que a estratégia mais viável é limitar a intensidade e a duração do chamado overshoot, período em que a temperatura permanece acima desse patamar.

A trajetória defendida pelo relatório combina cortes rápidos nas emissões, alcance das emissões líquidas zero e retirada de dióxido de carbono da atmosfera. A expectativa é que, depois de atingir um pico, a temperatura possa voltar a cair para 1,5°C ou menos. O retorno, no entanto, é considerado incerto e não eliminaria os danos provocados durante o período de ultrapassagem.

A cada fração adicional de grau e a cada ano de permanência acima de 1,5°C, aumentam os riscos de eventos extremos mais intensos, perdas de ecossistemas e impactos sobre a saúde, a produção de alimentos, o abastecimento de água, as cidades e as economias. O Pnuma também alerta para a possibilidade de perdas irreversíveis em sistemas naturais vulneráveis.

“O calor escaldante deste verão, os incêndios florestais e as enchentes fatais são um alerta do que está por vir. Precisamos fazer com que a ultrapassagem de 1,5°C seja a menor e mais curta possível. Isso exige uma ambição ainda maior”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Pressão por adaptação

Para Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, o relatório mostra que a comunidade internacional não conseguiu evitar a interferência perigosa da atividade humana no sistema climático.

“O relatório do Pnuma mostra que a humanidade falhou em cumprir o objetivo central da Convenção do Clima da ONU de evitar a interferência perigosa da humanidade no sistema climático. Entramos numa era de consequências”, afirmou.

Angelo defende que os países ampliem os recursos destinados à adaptação e às perdas e danos, além de acelerarem a redução de poluentes climáticos de vida curta, como o metano. Para ele, a principal frente de ação continua sendo a eliminação dos combustíveis fósseis. “Abandonar o objetivo de devolver os termômetros a 1,5°C não é uma opção”, disse.

A diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Maria Netto, também considera que a possibilidade de ultrapassagem temporária não deve servir de justificativa para abandonar a meta climática. “Cada fração de grau importa. Cada ano que conseguimos reduzir o período dessa ultrapassagem importa. E cada investimento que fazemos hoje em mitigação, adaptação e resiliência importa”, declarou.

Segundo Maria, quanto maior for o pico de temperatura, mais difícil, incerto e caro será fazer o aquecimento voltar a cair. Ela defende que mitigação e adaptação avancem simultaneamente e ressalta que a remoção de carbono será necessária, mas não pode substituir cortes profundos nas emissões.

“Acima de tudo, estamos falando de pessoas. As comunidades mais pobres e vulneráveis enfrentarão as consequências mais graves, o que significa que equidade, financiamento e cooperação internacional precisam estar no centro da nossa resposta”, ressaltou.

Custo da demora 

Para Tatiana Oliveira, líder da Estratégia Internacional do WWF-Brasil, ultrapassar 1,5°C não significa que o Acordo de Paris perdeu seu sentido, mas que o custo da demora na ação climática aumentou.

“Cada décimo de grau que conseguirmos evitar representa vidas, territórios e ecossistemas que deixam de estar em risco. O que está em jogo agora não é apenas a temperatura que o planeta atingirá, mas a velocidade da crise climática e nossa capacidade de resposta como sociedade”, observou.

No Brasil, a especialista em política climática do Greenpeace Brasil, Anna Cárcamo, defende a continuidade dos esforços para zerar o desmatamento e a ampliação dos recursos destinados à adaptação dos municípios. “O relatório do Pnuma confirma o que a ciência já alertava: o tempo de esperar acabou, precisamos agir agora para reduzir os impactos das mudanças do clima”, enfatizou.

Em nível internacional, Cárcamo cobra uma resposta mais ambiciosa na COP31, com planos para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, o fim do desmatamento global e financiamento para os países em desenvolvimento. “Só assim poderemos reduzir o período de ultrapassagem e voltar o mais rápido possível para a margem segura de aquecimento do planeta de até 1,5°C”, disse.

O vice-diretor de Programas do Greenpeace Internacional, Jasper Inventor, reforça que a ultrapassagem do limite não deve ser usada como argumento para abandonar a meta do Acordo de Paris. “Esta é uma notícia que nenhum de nós queria ouvir, mas ultrapassar o limite da temperatura média global não é motivo para desistir e abrir mão da meta de 1,5°C. É um momento desolador, e precisamos refletir sobre isso, mas cada fração de grau ainda importa, e o relatório do Pnuma deve servir agora como um chamado decisivo à ação”, avaliou.