ONU reconhece restauração do Cerrado como referência mundial

Araticum reúne mais de 180 organizações, já mapeou 27 mil hectares em restauração e prevê alcançar 2 milhões de hectares até 2030

Iniciativa atua na recuperação do Cerrado com participação de comunidades locais, pesquisadores e produtores rurais. Foto: PNUMA/Todd Brown.

A iniciativa Araticum — Restauração do Cerrado Brasileiro foi reconhecida nesta quarta-feira (26/8) pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das Iniciativas de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship). O título foi anunciado durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, e coloca a recuperação do segundo maior bioma brasileiro no centro da agenda ambiental internacional.

O reconhecimento ocorre em um momento de forte pressão sobre o Cerrado, que tem mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, segundo dados apresentados pela própria iniciativa. A expansão da agropecuária, a fragmentação dos habitats e os efeitos das mudanças climáticas agravam os impactos sobre um bioma estratégico para a biodiversidade e para a segurança hídrica do país.

A Araticum reúne mais de 180 organizações, incluindo povos indígenas e quilombolas, comunidades locais, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil, empresas e instituições públicas. A atuação se estende por nove estados e combina diferentes métodos de recuperação da vegetação, como regeneração natural, semeadura direta, restauração ecológica e sistemas agroflorestais com espécies nativas.

Até o momento, a articulação mapeou mais de 27 mil hectares em processo de restauração. O número representa uma fração da meta de 2 milhões de hectares que a Araticum pretende alcançar até 2030, evidenciando a dimensão do desafio para ampliar a restauração do Cerrado em escala.

A escala pretendida é relevante também porque dialoga com o compromisso brasileiro de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa. Para alcançar esse volume, a restauração precisa deixar de ser apenas uma série de projetos pontuais e ganhar escala como política pública, atividade econômica e estratégia de adaptação climática.

Nesse sentido, a iniciativa aposta na criação de uma cadeia produtiva da restauração. Mais de 150 espécies de plantas nativas já tiveram sementes coletadas e utilizadas nas ações, envolvendo desde coletores e viveiros até técnicos, pesquisadores e serviços de monitoramento. A proposta é fazer com que a recuperação do bioma também gere renda e empregos nas regiões onde ocorre.

O modelo também combina restauração ecológica com instrumentos econômicos e de planejamento, como pagamento por serviços ambientais, agricultura sustentável, sistemas agroflorestais e políticas de ordenamento territorial.

Para o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que conduz a iniciativa em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a restauração pode contribuir simultaneamente para segurança alimentar, geração de empregos e aumento da resiliência diante da crise climática. “Investir na saúde das terras é uma das nossas defesas mais fortes contra essas ameaças”, afirmou a diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen.

Segundo reconhecimento para o Brasil

Com a escolha da Araticum, o Brasil passa a ser o único país a ter duas iniciativas reconhecidas pela ONU como World Restoration Flagship. O programa faz parte da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas e já reconheceu 30 iniciativas desde 2022.

Ao todo, os projetos selecionados pela ONU somam quase 20 milhões de hectares em processo de restauração e têm compromissos de recuperação de aproximadamente 75 milhões de hectares até 2030, além de envolverem a geração de mais de 800 mil empregos.

A nova chancela internacional também reforça uma mudança na forma de tratar a restauração. No caso do Cerrado, recuperar a vegetação não significa apenas recompor áreas degradadas, mas preservar serviços ecossistêmicos fundamentais, como a regulação da água, a conservação da biodiversidade e a capacidade dos territórios de enfrentar períodos de seca e eventos climáticos extremos.

O reconhecimento ocorre ainda em um ano de intensa articulação internacional em torno das agendas ambientais, com as conferências da ONU sobre desertificação, biodiversidade e clima. A restauração aparece como um ponto de convergência entre esses temas, já que recuperar ecossistemas pode, ao mesmo tempo, reduzir os efeitos da degradação do solo, proteger a biodiversidade e ampliar a resiliência às mudanças climáticas.

Para o WWF-Brasil, que participa da articulação desde sua criação, em 2020, o principal desafio agora é transformar a visibilidade internacional em investimentos e políticas permanentes. “A restauração da terra não é uma agenda isolada, ela contribui simultaneamente para recuperar a biodiversidade, aumentar a resiliência diante das mudanças climáticas e fortalecer os territórios diante da degradação e da seca”, destaca Tatiana Oliveira, líder da estratégia internacional do WWF-Brasil. 

A premiação representa mais do que um selo ambiental. O reconhecimento coloca o Cerrado como vitrine de uma estratégia que o Brasil precisará provar ser capaz de executar em escala, transformando a restauração em política de Estado, criando uma cadeia econômica sustentável em torno da recuperação dos ecossistemas e ampliando o envolvimento das comunidades que vivem nesses territórios.