COP17 mira terras degradadas, mas esbarra em falta de financiamento

Negociações avançam sobre pastagens, campos e savanas, enquanto restauração enfrenta déficit anual de US$ 278 bilhões e impasse sobre secas

Falta de financiamento é um dos principais obstáculos para ampliar a restauração de terras degradadas. Crédito: Divulgação/UNCCD.

As negociações da COP17 da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), em Ulan Bator, na Mongólia, avançaram em medidas para proteger, manejar e restaurar áreas de pastagem, campos e savanas. O movimento, no entanto, esbarra na falta de recursos. A estimativa é de um déficit anual de US$ 278 bilhões para financiar a restauração de terras.

Na primeira metade da conferência, os negociadores abriram caminho para uma possível decisão formal que estimule investimentos, ações conjuntas e marcos legais para essas áreas, historicamente negligenciadas e subfinanciadas. A presidência da COP17 também lançou a Rangelands Flagship Initiative, com mais de 40 projetos e valor estimado em US$ 1,2 bilhão.

O avanço nas negociações ocorre em paralelo a discussões sobre saúde do solo e adoção de práticas agrícolas positivas para a natureza. O objetivo é conter a degradação e ampliar a recuperação de áreas afetadas. Para o WWF, o desafio agora é transformar os compromissos em recursos e implementação.

“Já passou da hora de priorizarmos esses ecossistemas, considerando seu papel fundamental no alcance das metas relacionadas à terra, à natureza, ao clima e ao desenvolvimento. Mas o reconhecimento é apenas o primeiro passo. A implementação depende da liberação de recursos financeiros”, afirmou João Campari, líder global de Alimentação e Agricultura do WWF.

A dimensão do déficit financeiro coloca o setor privado no centro da discussão. Atualmente, empresas respondem por apenas 6% do financiamento destinado à restauração, segundo o WWF. A organização defende a ampliação dos investimentos privados e o uso de mecanismos financeiros inovadores, como swaps de dívida por natureza, para mobilizar novos recursos.

Impasse sobre secas

Enquanto há avanço nas discussões sobre pastagens, as negociações sobre secas seguem travadas. O tema foi herdado da COP16, quando os países não conseguiram chegar a uma decisão formal. O principal impasse está entre os governos que defendem um protocolo juridicamente vinculante e aqueles que preferem um marco voluntário ou flexível.

“As secas estão se tornando mais frequentes e mais severas em razão das mudanças climáticas e da degradação das terras. Não podemos permitir que a implementação seja adiada até que as Partes realizem novas negociações na COP18”, afirmou Christine Colvin, chefe de Políticas de Água Doce do WWF.

Para o Brasil, a discussão também envolve a integração entre as agendas de combate à desertificação, biodiversidade e clima. “Degradação das terras, perda de biodiversidade e mudanças climáticas se manifestam nos mesmos territórios e afetam as mesmas populações”, destacou Tatiana Oliveira, líder da estratégia internacional do WWF-Brasil.

Segundo ela, as três Convenções do Rio precisam atuar de forma coordenada, com financiamento adequado e soluções conectadas à realidade dos territórios. As discussões formais sobre essa cooperação ainda não começaram na COP17.

A última semana da conferência será decisiva para definir se os avanços obtidos até agora resultarão em decisões, recursos e mecanismos capazes de acelerar a restauração de terras e a preparação para eventos de seca. O volume de financiamento mobilizado e a capacidade de superar os impasses nas negociações serão determinantes para transformar os compromissos em ações concretas.