A cadeia de energias renováveis no Brasil vive uma fase de forte pressão, marcada por demissões, insegurança regulatória e impasses técnicos ainda sem solução, segundo o vice-presidente da Vestas para Assuntos Institucionais e Governamentais na América Latina, Leonardo Euler.
Em diagnóstico crítico do setor, ele aponta que problemas como o curtailment — fenômeno de corte da geração renovável por limitações do sistema elétrico — seguem sem encaminhamento há anos e já começam a comprometer investimentos, empregos e a confiança na expansão da matriz limpa.
Em fala durante um almoço com representantes do setor, na semana passada, Euler destacou que a indústria eólica enfrenta um cenário de retração econômica combinado a incertezas regulatórias. “Nós estamos há quase três anos discutindo curtailment e não temos respostas práticas para isso”, enfatizou.
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Apesar de ser tema recorrente no debate do setor elétrico, o executivo avalia que a falta de solução estruturada tem impacto direto no planejamento de novos projetos e na decisão de investimento.
Os efeitos, segundo ele, já são visíveis na cadeia produtiva. Fornecedores do setor que chegaram a empregar milhares de trabalhadores hoje enfrentam forte redução de quadros. “Mais de 80% dessa força de trabalho já foi demitida”, afirmou.
Euler também criticou o ambiente regulatório do setor elétrico, ao destacar o que considera uma confusão entre risco e incerteza. “Preço e incerteza são coisas diferentes. Risco se precifica, incerteza não”, disse, ao defender maior previsibilidade como condição essencial para destravar investimentos.
O executivo ainda contestou a associação entre fontes renováveis e problemas de segurança operativa no sistema elétrico brasileiro. “É uma narrativa totalmente falaciosa”, afirmou. Ele lembrou que, em períodos de crise hídrica, a geração eólica teve papel relevante no equilíbrio do sistema.
“O Brasil tem uma matriz elétrica ainda verde”, disse, ao reconhecer as vantagens naturais do país. No entanto, alertou que essas condições, isoladamente, não garantem competitividade. “Essas não são condições suficientes para o Brasil protagonizar a transição energética”, completou.
Armazenamento e rede
Para Euler, a superação dos gargalos passa por soluções como armazenamento de energia, reforço da rede de transmissão e regras que valorizem atributos das fontes renováveis.
Ele também criticou a dependência de térmicas como resposta predominante aos desafios do sistema. “As térmicas têm seu papel, mas não pode ser essa a única forma de endereçar os problemas, comprometendo o perfil verde da matriz e o custo da tarifa”, afirmou.
Ao final, o executivo defendeu uma condução mais planejada da transição energética no país. “O Brasil reúne todas as condições para protagonizar essa transição, mas é preciso reflexão, bom senso e humildade para reconhecer que essas condições ainda não estão plenamente consolidadas.”