O fim da Moratória da Soja pode reverter parte dos avanços obtidos no controle do desmatamento na Amazônia. Um estudo publicado na revista Science estima que a suspensão do acordo poderia provocar a destruição adicional de 1,4 milhão de hectares de floresta nos próximos dez anos, com emissões de 745 milhões de toneladas de CO₂ equivalente — volume próximo ao emitido anualmente pelo Canadá.
A pesquisa, intitulada The Rise and Fall of the Amazon Soy Moratorium, analisa quase 20 anos do pacto firmado em 2006 entre empresas, organizações ambientais e governo para impedir a compra de soja produzida em áreas desmatadas após julho de 2008.
Os pesquisadores apontam que a Moratória reduziu em cerca de 35% o desmatamento em áreas de risco para expansão da soja, evitando aproximadamente 1,8 milhão de hectares de perda florestal na primeira década do acordo. Ao mesmo tempo, a produção continuou crescendo: a área cultivada com soja na Amazônia mais que triplicou desde a implementação do mecanismo.
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O estudo também questiona o argumento de que o acordo teria limitado o avanço econômico do setor. Segundo a análise, há cerca de 1,7 milhão de hectares de áreas já abertas e aptas ao cultivo de soja na região, espaço suficiente para ampliar a produção sem converter novas áreas de floresta.
“A Moratória da Soja mostrou que é possível ampliar a produção agrícola mantendo critérios de conservação. O desafio agora é garantir que instrumentos capazes de reduzir o desmatamento continuem fazendo parte da estratégia brasileira de desenvolvimento”, afirmou Tiago Reis, especialista em Conservação do WWF-Brasil.
Para os pesquisadores, o risco do fim do acordo vai além da abertura direta de novas áreas para soja. A medida pode aumentar a pressão sobre florestas públicas e propriedades privadas com potencial agrícola, ampliando a especulação fundiária em regiões ainda preservadas.
O debate ocorre em um momento em que cadeias globais de commodities passam a exigir maior rastreabilidade ambiental. Para o setor, manter mecanismos de controle do desmatamento pode ser também uma estratégia de competitividade diante de mercados mais exigentes.
“Produzir mais e conservar a Amazônia são objetivos que podem caminhar juntos, desde que haja transparência, responsabilidade compartilhada e mecanismos capazes de orientar a expansão produtiva para áreas já abertas”, disse Reis.