Reduzir as emissões de metano pode ser uma das medidas mais rápidas para conter o avanço do aquecimento global, e o Brasil tem um dos maiores desafios pela frente. As emissões do gás no país chegaram a 21 milhões de toneladas em 2024, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. Cerca de três quartos desse volume vieram da agropecuária.
O diagnóstico acompanha o lançamento, nesta terça-feira (18/8), de um caderno do SEEG que reúne 37 soluções para cortar as emissões de metano em quatro frentes: agropecuária, resíduos, mudança de uso da terra, florestas e energia.
O metano (CH₄) tem impacto climático muito superior ao do dióxido de carbono (CO₂) no curto prazo. Em um horizonte de 100 anos, seu potencial de aquecimento é estimado em 28 vezes o do CO₂. Por isso, a redução das emissões do gás é considerada uma estratégia de resposta relativamente rápida ao aquecimento global.
O problema é que o Brasil ainda não conseguiu inverter a trajetória de crescimento das emissões. Há cinco anos, durante a COP26, em Glasgow, o país aderiu ao Compromisso Global de Metano, que prevê a redução das emissões globais do gás. Desde então, porém, os volumes brasileiros continuam avançando.
“Embora o metano seja responsável por quase um terço do aquecimento global até o momento, ele continua sendo significativamente negligenciado nas ações climáticas e na tomada de decisões políticas”, afirma a ONU em documento citado pelo SEEG.
Para David Tsai, coordenador do SEEG, o desafio brasileiro é menos de falta de conhecimento e mais de transformar as alternativas existentes em políticas e ações de escala. “Temos à disposição um amplo conjunto de soluções para fazer isso, mas o Brasil precisa transformar esse conhecimento em ação coordenada e com escala”, diz.
Pecuária concentra o problema
A agropecuária responde por 15,7 milhões de toneladas de metano, ou 75,8% das emissões brasileiras em 2024. Mais de 90% desse volume está associado à criação de gado.
O caderno apresenta 15 soluções para o setor, elaboradas pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). As propostas vão de planejamento territorial e assistência técnica a mudanças no manejo dos sistemas produtivos e dos resíduos da produção animal.
A aposta é que a redução do metano possa caminhar junto com ganhos de eficiência na produção de alimentos. “Mitigar metano na agropecuária é uma grande oportunidade para o setor, por incluir produtividade e eficiência na produção de alimentos”, destaca Gabriel Quintana, coordenador da área de Ciência do Clima do Imaflora.
Resíduos são segunda maior fonte
O setor de resíduos aparece em seguida, com 3,3 milhões de toneladas de metano, equivalentes a 16% das emissões nacionais. Aterros sanitários e lixões respondem por 68% desse volume.
As 12 soluções propostas pelo Iclei América do Sul incluem redução da geração de resíduos, combate ao desperdício, encerramento de lixões, ampliação da coleta seletiva e aproveitamento energético.
A avaliação do ICLEI é que o país avançou na legislação, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar as regras em resultados. “Do ponto de vista prático, as cidades brasileiras podem se inspirar nas medidas que sinalizamos no caderno do SEEG, como a valorização dos resíduos orgânicos com foco em reduzir as emissões de metano”, diz Iris Coluna, assessora de Medição, Reporte e Verificação do ICLEI América do Sul.
Fogo entra na agenda climática
Mudança de Uso da Terra e Florestas representa 5,5% das emissões brasileiras de metano, com 1,14 milhão de toneladas em 2024. Nesse setor, o fogo é o único processo considerado na contabilização oficial das emissões de metano.
Por isso, as cinco soluções elaboradas pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) estão concentradas em prevenção, monitoramento e combate a incêndios em áreas de vegetação nativa. “É preciso fortalecer a governança do fogo”, reforça Bárbara Zimbres, pesquisadora do Ipam. Segundo ela, o aumento da duração e da intensidade das secas provocado pelas mudanças climáticas amplia a necessidade de políticas preventivas.
Vazamentos na cadeia de combustíveis
A energia tem participação menor no total, com 530 mil toneladas de metano, ou 2,6% das emissões brasileiras. Mais da metade vem da cocção residencial, enquanto a produção de combustíveis responde por 27%.
Das cinco soluções propostas pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), quatro tratam de vazamentos e desperdícios na cadeia de petróleo, gás e carvão. O diagnóstico aponta que as políticas precisam considerar a origem de cada emissão e diferenciar problemas de acesso à energia de emissões associadas à atividade industrial. “Cada emissão de metano requer uma resposta específica”, afirma Ingrid Graces, pesquisadora do setor de Energia do Iema.
O caderno do SEEG também permite consultar as emissões de metano por bioma, estado, região e município, oferecendo um retrato mais detalhado de onde estão concentradas as fontes do gás no país.