Leilão de baterias bate recorde de projetos

Primeiro certame de armazenamento de energia do país recebe 6.091 inscrições, quase 300 GW em potência e supera todos os leilões já realizados no setor elétrico

Governo pretende contratar entre 5 GW e 6 GW de capacidade de armazenamento em leilão marcado para dezembro. Foto: Divulgação/Aneel.

O primeiro leilão de sistemas de armazenamento de energia por baterias do Brasil despertou forte interesse do mercado. A etapa de cadastramento recebeu 6.091 projetos, o maior número de inscrições já registrado em leilões do setor elétrico promovidos pelo governo federal, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Os empreendimentos cadastrados somam 296.807 megawatts (MW) de potência instalada, volume muito superior ao que o governo pretende contratar. O Ministério de Minas e Energia (MME) estima adquirir entre 5 gigawatts (GW) e 6 GW nas duas etapas do certame, marcadas para os dias 2 e 4 de dezembro. Os projetos vencedores começarão a fornecer capacidade ao sistema a partir de 2028, com contratos de 15 anos.

Para a EPE, o elevado número de inscrições demonstra o interesse dos investidores pela tecnologia de armazenamento e reforça seu papel estratégico para aumentar a flexibilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN), ampliar a integração das fontes renováveis e garantir potência para atender à expansão da demanda.

A estatal atribui a elevada participação, entre outros fatores, ao caráter modular dos projetos e ao fato de o cadastramento não exigir licença ambiental ou certificações prévias. Ainda assim, a inscrição não garante participação no leilão. Os empreendimentos passarão agora por análise e habilitação técnica, etapa que definirá quais projetos estarão aptos a disputar os contratos.

Segundo o cronograma da EPE, a capacidade de escoamento disponível será divulgada em 28 de setembro, enquanto a habilitação técnica deve ser concluída em 17 de novembro.

Mercado vê maturidade do setor

Na avaliação da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), o número recorde de projetos confirma que o mercado brasileiro de armazenamento atingiu um novo estágio de maturidade e que existe capacidade técnica, industrial e financeira para sustentar a expansão da tecnologia.

“O recorde de projetos cadastrados demonstra, de forma inequívoca, a maturidade alcançada pelo mercado brasileiro de armazenamento de energia e o forte apetite dos investidores por esse segmento. Mais do que um marco, esse resultado reforça a urgência e a importância da realização do primeiro leilão de armazenamento ainda neste ano, garantindo previsibilidade regulatória, segurança para os investimentos e um passo decisivo para a modernização da matriz elétrica brasileira”, afirmou o diretor-executivo da Absae, Fabio Monteiro Lima.

A entidade, entretanto, defende mudanças nas regras de custeio da reserva de capacidade destinada às baterias. Segundo a associação, a previsão de que os custos sejam arcados exclusivamente pelos geradores cria insegurança jurídica e pode comprometer os investimentos. O tema está em discussão no Projeto de Lei nº 3.716/2026 e também foi apontado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) como um dos principais fatores de risco para o certame.

Nordeste concentra maioria dos projetos

O leilão será realizado em duas etapas. A primeira será exclusiva para sistemas de armazenamento com conteúdo nacional, conforme critérios definidos pelo BNDES. A segunda será aberta a projetos com equipamentos importados.

No leilão voltado ao conteúdo nacional foram cadastrados 5.296 projetos, que somam 261.408 MW. Já a etapa aberta a todas as tecnologias recebeu 5.734 inscrições, equivalentes a 281.003 MW. Como parte dos empreendimentos foi inscrita nas duas modalidades, o total consolidado ficou em 6.091 projetos e cerca de 297 GW de potência.

Regionalmente, o Nordeste concentrou 71,1% dos cadastros, refletindo sua liderança na geração de energia eólica e solar. O Sudeste respondeu por 18,8% das inscrições, seguido pelo Sul (5,1%), Centro-Oeste (3,4%) e Norte (1,6%).