Vitória de Lula dá novo fôlego à agenda socioambiental brasileira

WWF-Brasil vê oportunidade de fortalecer política ambiental, mas alerta para desafios no Congresso e defende avanços na proteção de biomas e territórios

Presidente Lula tem oportunidade de fortalecer a agenda socioambiental e ampliar a cooperação internacional para a proteção das florestas. Foto: Miguel Schincariol/AFP.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) abre caminho para fortalecer a agenda socioambiental brasileira e consolidar a confiança internacional na política ambiental do país, avalia o WWF-Brasil. A organização destaca oportunidades para avançar no combate ao desmatamento e na proteção da biodiversidade, mas alerta para os desafios impostos por um Congresso com forte presença de setores favoráveis à flexibilização das leis ambientais e dos direitos territoriais.

Em posicionamento divulgado após o resultado eleitoral, a organização defendeu a continuidade das políticas públicas de proteção da natureza e a articulação entre desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade. Para o WWF-Brasil, a preservação dos biomas brasileiros é estratégica não apenas para o equilíbrio climático, mas também para a segurança hídrica e alimentar e a geração de renda.

“O Brasil tem a oportunidade de mostrar ao mundo que conservação e desenvolvimento caminham juntos”, afirma a entidade, que defende a proteção ambiental e dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais como prioridades permanentes do Estado.

A cooperação internacional é um dos pilares para sustentar essa agenda. Nesta segunda-feira (26/10), o governo da Holanda anunciou a intenção de investir US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo idealizado pelo Brasil e lançado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, em 2025.

O aporte será distribuído ao longo de dez anos. Segundo o governo neerlandês, o investimento reforça o compromisso do país com as metas climáticas internacionais e a conservação da biodiversidade. A iniciativa também amplia o respaldo internacional ao mecanismo concebido para mobilizar recursos destinados à conservação das florestas tropicais.

Apesar das perspectivas de retomada, o WWF-Brasil alerta que a composição do Congresso a partir de 2027 poderá dificultar a aprovação de medidas de proteção ambiental. A influência de parlamentares alinhados à flexibilização da legislação e à redução de salvaguardas territoriais deve exigir maior mobilização da sociedade civil, diálogo político e defesa dos instrumentos legais existentes.

“Serão ainda mais necessários o engajamento da sociedade civil, a articulação política consistente e a defesa firme dos direitos socioambientais e da legislação ambiental”, avalia a organização.

Desmatamento e clima

Entre as prioridades apontadas pelo WWF-Brasil estão o fortalecimento das instituições ambientais, o combate ao desmatamento, a recuperação de áreas degradadas e a valorização dos conhecimentos de povos indígenas e comunidades tradicionais. A entidade também defende o incentivo a atividades econômicas de baixo impacto, a ampliação da bioeconomia e a criação de empregos verdes como caminhos para conciliar conservação e desenvolvimento.

A organização cita o estudo Nova Economia da Amazônia, conduzido pelo WRI Brasil e pela New Climate Economy, com a participação de mais de 75 pesquisadores. Segundo o levantamento, um modelo econômico sem desmatamento poderia reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 82% até 2050, ampliar o estoque de carbono em 19% e evitar a perda de 57 milhões de hectares de florestas. Nesse cenário, o Produto Interno Bruto (PIB) da Amazônia Legal seria R$ 40 bilhões superior ao projetado no modelo atual.

O Brasil também tem compromissos climáticos e de conservação a cumprir. Entre as metas para 2030 estão eliminar o desmatamento, conservar e manejar efetivamente 80% da Amazônia e 30% dos demais biomas e recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa. No âmbito do Acordo de Paris, o país assumiu o compromisso de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, em comparação com os níveis de 2005.

Para o WWF-Brasil, o cumprimento desses objetivos depende da continuidade das políticas públicas, de recursos financeiros adequados e da integração entre planejamento e execução. A entidade afirma que seguirá atuando na produção de conhecimento científico, na mobilização social e no diálogo com governos, parlamentares, setor privado e comunidades para contribuir com soluções socioambientais.

A consolidação da confiança ambiental e da liderança brasileira no cenário internacional dependerá de resultados concretos dentro do país, especialmente na redução do desmatamento, na proteção dos territórios e na implementação das metas climáticas.