A Presidência da COP30 apresentou, nesta terça-feira (3/11), dois Mapas do Caminho para orientar os países no enfrentamento da crise climática. Um deles estabelece diretrizes para a transição para longe dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos. O outro reúne estratégias para deter e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. As iniciativas buscam transformar compromissos climáticos em medidas concretas, com participação dos governos, empresas e instituições financeiras.
O mapa voltado à transição energética propõe uma metodologia para que cada país identifique sua dependência de petróleo, gás e carvão, avalie as condições para reduzir o uso dessas fontes e estabeleça prioridades de implementação. O documento não determina metas quantitativas obrigatórias de redução para cada nação, mas apresenta um roteiro de ações comuns e medidas adaptadas às diferentes realidades nacionais.
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A iniciativa foi desenvolvida voluntariamente pela presidência brasileira da conferência, após a dificuldade de incorporar o tema às negociações formais da COP30, realizada em Belém, em 2025. A proposta dá continuidade ao compromisso firmado no primeiro Balanço Global do Acordo de Paris, em Dubai, em 2023, quando os países reconheceram a necessidade de promover uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis.
A metodologia organiza a transformação em três frentes: demanda de energia, oferta de energia e economia. Em cada uma delas, considera dois fatores: o grau de exposição de cada país às mudanças necessárias e sua capacidade de implementar as medidas.
A partir desse diagnóstico, os países podem ser classificados em quatro perfis para cada pilar, totalizando 12 possíveis arquétipos. O documento apresenta dois conjuntos de medidas, as chamadas alavancas fundamentais, aplicáveis a todas as nações, e as alavancas específicas, definidas conforme as características e condições de cada país.
A proposta considera o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas e respectivas capacidades. Assim, não pretende estabelecer um ranking entre as nações, mas identificar diferentes caminhos para avançar na transição energética.
O Observatório do Clima avalia que o documento representa um avanço ao oferecer uma estrutura para organizar a transição, mas ressalta que sua efetividade depende da adesão dos governos à autoavaliação e da divulgação pública dos resultados. A organização também defende análises independentes da sociedade civil para acompanhar os diagnósticos e contribuir com o próximo Balanço Global do Acordo de Paris, previsto para 2028.
Prazos e implementação
O Brasil já havia manifestado, em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), apresentada em 2024, interesse em discutir um calendário para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Agora, o mapa proposto pela presidência da COP30 estabelece prazos para medidas coletivas, alinhados a três marcos internacionais: o segundo Balanço Global, em 2028; a nova rodada de NDCs, em 2030; e o terceiro Balanço Global, em 2033.
O Observatório do Clima defende que o Brasil seja o primeiro país a aplicar a metodologia, com a publicação de um mapa nacional, a divulgação de seu diagnóstico e a implementação das medidas gerais e específicas à sua realidade.
“Com este mapa, a Presidência da COP30 encerra seu mandato devolvendo a bola aos países. Acabaram as desculpas: cada país pode e deve fazer seu diagnóstico para se situar nesse mapa e começar a lição de casa já”, afirma Stela Herschmann, líder em Política Internacional do Observatório do Clima.
Segundo a especialista, a transição para longe dos combustíveis fósseis é urgente e complexa, mas existem diferentes caminhos para viabilizá-la.
Compromissos verificáveis
O WWF-Brasil recebeu positivamente os dois mapas apresentados pela presidência da conferência, mas destaca que os resultados dependerão da implementação das medidas e da manutenção de instrumentos de controle ambiental.
Na avaliação de Mauricio Voivodic, diretor-executivo da organização, um dos méritos do mapa sobre florestas é reconhecer que o combate ao desmatamento também depende de decisões econômicas relacionadas ao uso da terra. O documento aponta instrumentos como políticas de crédito, rastreabilidade, fiscalização e acordos setoriais para reduzir a conversão da vegetação nativa.
Entre os exemplos citados está a Moratória da Soja, que teria evitado aproximadamente 18 mil km² de desmatamento na Amazônia durante sua primeira década. Para Voivodic, a experiência demonstra a importância de compromissos verificáveis capazes de influenciar as decisões de produtores, empresas, instituições financeiras e governos.
O dirigente avalia que o Brasil pode ampliar a produção agropecuária em áreas já abertas, sem avançar sobre a vegetação nativa. Para isso, defende que as cadeias de soja, carne e outros produtos sejam livres de desmatamento e conversão de ecossistemas naturais, inclusive nos elos indiretos de produção.
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A organização também aponta a necessidade de ampliar a rastreabilidade até a origem dos produtos, garantir transparência e monitoramento independente e estender os critérios socioambientais a todo o território nacional, incluindo o Cerrado. O WWF considera importante oferecer apoio técnico e financeiro aos pequenos produtores, mas ressalta que os incentivos devem ser acompanhados de regras claras e mecanismos de controle.
Na frente energética, o especialista em Transição Energética do WWF-Brasil, Ricardo Fujii, avalia que o país reúne condições favoráveis para liderar a mudança. Ele destaca a participação predominante de fontes renováveis na matriz energética brasileira, a diversidade de recursos disponíveis — como hidrelétrica, eólica, solar, biomassa e biocombustíveis — e a existência de cadeias industriais já instaladas.
Para Fujii, ampliar essas fontes representa também uma oportunidade econômica, com potencial de geração de empregos, renda e desenvolvimento regional. “O Brasil tem condições favoráveis para liderar a transição. Temos uma matriz predominantemente renovável, diversidade de fontes (hidrelétrica, eólica, solar, biomassa e biocombustíveis) e cadeias industriais já instaladas. Ampliar o uso dessas fontes é uma escolha competitiva, que gera emprego, renda e desenvolvimento em diferentes regiões do país”, afirma.
Na avaliação do especialista, o país pode demonstrar que a transição energética proposta no mapa global também pode funcionar como estratégia de desenvolvimento econômico.