Clima fora do radar eleitoral

Levantamento do Observatório do Clima aponta baixa prioridade para clima e meio ambiente nos planos de governo da maioria dos candidatos

A crise climática ainda ocupa espaço secundário nos planos de governo da maioria dos candidatos à Presidência que aparecem nas pesquisas de intenção de voto. É o que mostra uma análise do Observatório do Clima (OC), divulgada nesta quinta-feira (10/9), que comparou as propostas de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. (Confira o quadro completo abaixo)

Entre os seis, o programa de Lula é o que mais incorpora a agenda socioambiental. A avaliação considerou 28 itens distribuídos em oito áreas, como mudanças climáticas, energia, desmatamento, agricultura, mineração, infraestrutura, governança ambiental e proteção dos oceanos. O plano do presidente reúne 16 compromissos considerados positivos e detalhados.

O contraste é maior entre os demais candidatos. O programa de Flávio Bolsonaro, segundo o levantamento, traz apenas um compromisso positivo e sete propostas classificadas como claramente antiambientais. Augusto Cury reconhece a existência das mudanças climáticas, mas não apresenta uma política estruturada para enfrentá-las. Renan Santos sequer trata diretamente da agenda climática.

Caiado inclui medidas de adaptação e prevenção de desastres, especialmente diante dos impactos de eventos extremos sobre a produção agrícola, mas não apresenta metas de redução de emissões. Zema também reconhece os efeitos de eventos extremos, porém, de acordo com o OC, não detalha como pretende implementar ações de monitoramento e resposta a desastres.

A avaliação foi feita a partir dos programas registrados na Justiça Eleitoral, mas também levou em conta a atuação política anterior dos candidatos. Para o Observatório do Clima, a análise é importante porque programas eleitorais podem apresentar compromissos que não necessariamente correspondem à trajetória dos postulantes.

Meta climática 

A distância entre os programas aparece com mais clareza quando o foco é a política climática. Apenas o plano de Lula menciona explicitamente o cumprimento da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira e o Acordo de Paris. O documento também detalha medidas de adaptação climática, com ações e prazos, além de prever reforço da fiscalização ambiental e estímulo à agricultura sustentável.

Nos demais programas, faltam elementos centrais da política climática brasileira. O plano de Flávio Bolsonaro não reconhece a existência da crise climática. O candidato já havia classificado como uma “armadilha” a associação entre as enchentes no Rio Grande do Sul e as mudanças climáticas, em 2024, e voltou a defender essa posição durante sabatina no Jornal Nacional.

O programa de Augusto Cury reconhece o aquecimento do planeta, mas não menciona a NDC brasileira, metas de redução de emissões, neutralidade climática, justiça climática ou racismo ambiental. O documento de Renan Santos não apresenta políticas específicas para enfrentar a crise nem faz referência à agenda climática, à NDC, ao Acordo de Paris, à Política Nacional sobre Mudança do Clima ou ao Plano Clima.

No caso de Caiado, o programa avança na adaptação a eventos extremos e na prevenção de desastres, mas deixa de fora metas de redução de emissões e referências à NDC, ao Acordo de Paris e à justiça climática.

Já Zema prevê ações de monitoramento e resposta a desastres, mas, segundo o levantamento, não deixa claros os mecanismos para colocá-las em prática. O histórico em Minas Gerais também entra na avaliação. Conforme o OC, as verbas destinadas à prevenção de impactos das chuvas no estado caíram 96% entre 2023 e 2025.

Um problema que já chegou à economia

A baixa prioridade dada ao clima chama atenção em um país exposto a secas, enchentes, incêndios e ondas de calor e que está entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo.

Para o Observatório do Clima, a agenda ganhou ainda mais urgência desde a última eleição, diante de eventos extremos. A recorrência desses episódios amplia não apenas os riscos ambientais, mas também os impactos sobre agricultura, infraestrutura, energia, seguros e contas públicas.

“Desde a última eleição, a agenda de clima ficou mais evidente no país, principalmente depois das cheias no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia. Eventos como estes, que afetaram a vida de milhares de brasileiros, infelizmente tendem a se repetir”, alerta Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

A leitura dos planos revela uma diferença clara. Enquanto alguns candidatos tratam a questão climática de forma pontual, outros sequer a incorporam às propostas de governo. Para a entidade, esse cenário expõe o descompasso entre a dimensão dos riscos já enfrentados pelo país e as respostas apresentadas pelos candidatos que disputam a Presidência.