Ativo minerário citado por Nikolas envolve barragem de alto risco

Mensagens mostram pedido de ajuda para destravar lavra na barragem Água Fria, construída pelo mesmo método de Mariana e Brumadinho

Barragem de Fundão, operada pela mineradora Samarco, dois anos após a tragédia do rompimento da estrutura de contenção de rejeitos. Foto: José Cruz/Agência Brasil

A tentativa de destravar um ativo minerário que chegou ao radar do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) envolve uma questão que vai muito além do valor econômico da operação. A área está associada à barragem Água Fria, em Ouro Preto (MG), apontada pelo Ministério Público Federal (MPF) como uma das sete estruturas com maior risco de rompimento no país. 

Mensagens e áudios divulgados na semana passada mostram Nikolas pedindo ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro ajuda para destravar um “ativo minerário” relacionado ao advogado Thiago Rodrigues de Faria, que havia trabalhado como assessor do deputado. O contato ocorreu em março de 2025. Segundo as informações divulgadas, Nikolas apresentou Faria a Vorcaro e pediu auxílio para avançar na negociação. O banqueiro respondeu que cuidaria da questão. Não há confirmação pública de que o pedido tenha sido efetivamente atendido.

O episódio ganhou outra dimensão porque documentos da investigação da Polícia Federal relacionam o escritório de Faria à Gmais Ambiental, empresa investigada na Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025 para apurar um esquema de extração ilegal de minério de ferro em Minas Gerais. 

Um contrato assinado em janeiro daquele ano previa remuneração vinculada à intermediação de uma negociação envolvendo direitos minerários da Topázio Imperial. O negócio era estimado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões.

A negociação tinha como condição a regularização e a liberação da área para a atividade mineral. É nesse ponto que a questão econômica se encontra com o risco ambiental. A lavra está relacionada à região de Ouro Preto onde se encontra a barragem Água Fria, estrutura construída pelo método de alteamento a montante — o mesmo tipo de tecnologia associado às barragens de Fundão, em Mariana, e B1, da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho.

Histórico

O método ganhou notoriedade justamente pelos dois maiores desastres recentes da mineração brasileira. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, lançou dezenas de milhões de metros cúbicos de rejeitos na bacia do Rio Doce. A lama destruiu comunidades, matou 19 pessoas e percorreu centenas de quilômetros até o litoral do Espírito Santo, provocando danos ambientais que permanecem objeto de reparação.

Quatro anos depois, em 25 de janeiro de 2019, a ruptura da Barragem I da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, produziu uma tragédia ainda mais letal. Cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram liberados, atingindo o ribeirão Ferro-Carvão e chegando ao rio Paraopeba. O desastre matou 272 pessoas, incluindo trabalhadores da Vale e moradores da região.

O caso de Brumadinho tornou evidente o potencial de uma falha estrutural em barragens de rejeitos. A combinação de grande volume de material armazenado, velocidade de propagação da lama e ocupação humana a jusante pode transformar um problema de segurança de uma estrutura em uma catástrofe de grandes proporções. Os impactos não terminam com a passagem da lama. Estudos ainda são realizados para avaliar riscos à saúde humana e ao meio ambiente decorrentes da permanência de rejeitos no solo e nas águas do Paraopeba.

É por isso que a situação de Água Fria exige uma análise que não se limite ao potencial financeiro de uma lavra. A retomada ou expansão de atividades em uma área associada a uma barragem classificada entre as de maior risco do país envolve licenciamento, segurança de barragens, fiscalização e avaliação dos impactos sobre comunidades e recursos hídricos.

Minas Gerais concentra a maior quantidade de barragens de rejeitos de mineração do país. Segundo levantamento citado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG), o estado possuía 319 das 911 estruturas existentes no Brasil, e 62 delas estavam instaladas acima do principal sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

O caso do ativo minerário ligado à Água Fria reforça que a expansão da mineração, impulsionada pela demanda por minerais estratégicos, precisa avançar sob critérios rigorosos de segurança e transparência. Quanto maior o potencial econômico da exploração, maior deve ser o controle sobre as condições técnicas, ambientais e regulatórias da atividade.

Riscos 

A questão central não é apenas quem poderia ganhar com a liberação de uma lavra estimada em dezenas de milhões de dólares. É quais critérios técnicos e ambientais devem prevalecer quando a atividade econômica está associada a uma estrutura que autoridades classificam entre as de maior risco de rompimento do país.

Mariana e Brumadinho mostraram que o custo de uma falha não pode ser medido apenas pelo valor da produção mineral. Ele pode envolver vidas humanas, rios, comunidades inteiras e impactos ambientais que permanecem por décadas.