A queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado amplia o desafio de manter a redução da perda de vegetação nativa até 2030, meta que aparece de formas distintas nos programas de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Enquanto Lula propõe zerar a destruição da vegetação nativa até o fim da década, Flávio estabelece como objetivo eliminar o desmatamento ilegal até 2029.
Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em 2026, o desmatamento chegou aos menores níveis da série histórica iniciada em 1988. Na Amazônia, foram 3.335 km², queda de 41,8% em relação ao ano anterior. No Cerrado, a área desmatada foi de 5.516 km², redução de 23,8%.
Os resultados estão associados à retomada de medidas de combate aos crimes ambientais, como os embargos de áreas desmatadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o monitoramento por satélite e o financiamento de ações de conservação. Apesar do recuo, a manutenção da tendência depende da continuidade das políticas de fiscalização e controle.
Clima e prioridades econômicas
Os programas dos candidatos atribuem pesos diferentes à agenda climática. O documento de Lula menciona mudanças climáticas 38 vezes, enquanto o de Flávio faz referência direta ao tema pontualmente, ao tratar de eventos extremos. A contagem não mede a qualidade das propostas, mas ajuda a dimensionar o espaço dado ao assunto em cada plano.
O petista articula a agenda ambiental a políticas de prevenção de desastres, segurança hídrica e proteção territorial. Já Flávio enfatiza o potencial econômico da conservação, com propostas voltadas à bioeconomia e ao aproveitamento da biodiversidade.
A diferença também aparece na prevenção de eventos extremos. Lula prevê contenção de encostas, drenagem urbana sustentável, recuperação de bacias hidrográficas e proteção de mananciais, além de ações de combate à desertificação na Caatinga.
Flávio prioriza obras de infraestrutura hídrica, como barragens, reservatórios para controle de cheias, canais e sistemas de drenagem. O programa também prevê fortalecer o monitoramento e os alertas da Defesa Civil.
Conservação e exploração sustentável
Lula propõe fortalecer a fiscalização, ampliar áreas protegidas, combater incêndios florestais e reforçar a legislação ambiental. O programa também inclui turismo sustentável e pagamento por serviços ambientais como instrumentos de conservação.
Flávio estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e prevê reforçar o monitoramento e o combate a crimes ambientais. Ao mesmo tempo, aposta em atividades econômicas ligadas à floresta preservada, como biotecnologia, fármacos, cosméticos e novos materiais. O Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o pagamento por serviços ambientais também integram as propostas.
O candidato do PL defende ainda rever possíveis sobreposições de atribuições entre Ibama, Funai e ICMBio, sem especificar as mudanças pretendidas. Lula, por sua vez, propõe fortalecer os instrumentos de controle ambiental e articular as políticas nacionais aos compromissos internacionais de combate ao desmatamento.
Na política territorial, o programa petista prevê ampliar áreas destinadas à conservação, demarcar terras indígenas e quilombolas e avançar na regularização fundiária. Flávio enfatiza a autonomia produtiva de povos tradicionais e propõe compensações econômicas por restrições ao uso de seus territórios.
Desafio de manter a redução
As trajetórias são distintas nas políticas ambientais dos governos Lula e Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio. A Amazônia perdeu 24.648 km² de floresta nos quatro anos do atual governo, 46% menos do que os 45.586 km² registrados entre 2019 e 2022. Na gestão anterior, o desmatamento aumentou 60% em relação ao mandato precedente.
Nos governos petistas, foram criadas 231 unidades de conservação, demarcadas 21 terras indígenas e destinados R$ 19,7 bilhões à fiscalização ambiental. A atual gestão também retomou ações de controle do desmatamento e fortaleceu mecanismos de financiamento, como o Fundo Amazônia, além de desenvolver iniciativas como o Fundo Tropical para Sempre (TFFF).
Apesar da redução do desmatamento e da retomada de instrumentos de fiscalização, o governo Lula enfrenta críticas de ambientalistas pela autorização de pesquisas exploratórias de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas e pela demora na conclusão de demarcações indígenas.
Já na gestão Bolsonaro, não houve demarcação de terras indígenas, fundos ambientais deixaram de financiar novos projetos e programas de combate ao desmatamento foram descontinuados. Em 2020, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar a atenção voltada à pandemia para avançar na flexibilização de normas ambientais.
O histórico do governo Bolsonaro compõe o contexto político de Flávio, apesar de não determinar necessariamente as medidas que ele adotaria em um eventual mandato.