Rede elétrica pode travar indústria verde

Estudo aponta que limitações na transmissão podem restringir novos projetos de aço de baixa emissão, terras raras e data centers até 2039

Capacidade da rede de transmissão passa a determinar o porte dos empreendimentos que cada região consegue comportar. Foto: Agência Brasil.

A expansão de setores associados à transição energética no Brasil dependerá não apenas da oferta de energia renovável, mas também da capacidade da rede elétrica de levar essa energia aos locais onde novos empreendimentos serão instalados. Um estudo do Instituto E+ Transição Energética aponta que limitações na transmissão podem restringir a escala de projetos de aço de baixa emissão, processamento de terras raras e data centers até 2039.

A análise simulou a instalação desses empreendimentos entre 2029 e 2039 e identificou diferenças importantes entre polos industriais. Segundo o estudo, fatores como disponibilidade de matéria-prima, logística, conectividade digital e acesso a fontes renováveis não são suficientes para garantir a expansão dos projetos. A infraestrutura de transmissão passa a ser um dos elementos que definem o porte dos empreendimentos que cada região consegue receber.

O efeito é particularmente relevante para atividades eletrointensivas associadas à descarbonização da indústria. Um parque capaz de produzir até 7 milhões de toneladas de aço de baixa emissão por ano, com produção integrada de hidrogênio, demandaria cerca de 4,4 GW de eletricidade, além de aproximadamente 3,8 GW de geração renovável dedicada. Projetos dessa escala exigiriam conexões em redes de 345 kV ou superiores.

A infraestrutura disponível também altera as possibilidades de processamento de minerais estratégicos. Em Araxá (MG), conectada à rede de 345 kV, o estudo considera possível sustentar operações de grande porte ao longo do período analisado. Já Catalão (GO), Minaçu (GO) e Paracatu (MG), atendidas por redes de 138 kV, comportariam apenas uma planta-piloto de beneficiamento nas condições simuladas.

O mesmo fator aparece na expansão de data centers. Campinas (SP) e Fortaleza (CE) apresentam condições para receber grandes instalações quando conectadas a redes de alta tensão. Em Campinas, a estrutura mais robusta está na rede de 500 kV; em Fortaleza, na de 230 kV. Conexões em níveis inferiores apresentam mais restrições e são consideradas mais adequadas a empreendimentos de médio porte.

No caso do aço de baixa emissão, a expansão da infraestrutura ganha uma dimensão adicional. O estudo considera que a adoção comercial do aço produzido com hidrogênio deve avançar a partir da década de 2030, enquanto obras de transmissão podem levar de cinco a dez anos para serem concluídas. O intervalo coloca o planejamento da rede como uma etapa anterior à própria expansão de parte da indústria de baixo carbono.

No Complexo do Pecém (CE), por exemplo, a concentração de diferentes projetos eletrointensivos pode gerar disputa pela capacidade de conexão antes da conclusão dos reforços previstos para a rede. O cenário evidencia um dos desafios da transição energética, já que a expansão simultânea de novas atividades industriais pode pressionar uma infraestrutura que precisa ser ampliada com antecedência. 

Infraestrutura 

Para o Instituto E+, a capacidade da rede deveria ser incorporada ao planejamento industrial e às políticas de financiamento. O estudo propõe, entre outras medidas, mapas nacionais de capacidade elétrica, avaliação dos impactos sobre a rede na concessão de crédito e incentivos públicos e planos integrados para polos industriais e regiões de mineração.

O ponto central é que a disponibilidade de fontes renováveis, por si só, não determina a capacidade de uma região de receber novos projetos. A infraestrutura de transmissão passa a ser um componente da estratégia de descarbonização industrial, ao definir onde e em que escala atividades intensivas em eletricidade poderão crescer nas próximas décadas.