Dados: a infraestrutura do impacto

Dados consistentes são essenciais para escalar o investimento de impacto socioambiental no Brasil

No investimento de impacto socioambiental, dados são a infraestrutura invisível que orienta decisões e escala resultados. Foto: Repodução.

*Por Ricardo Ramos, diretor executivo da Aliança pelo Impacto

Existe um risco silencioso em mercados emergentes: o de crescer sem conseguir se enxergar. No caso do ecossistema de investimento de impacto no Brasil, esse risco se traduz na ausência, ou na desatualização, de dados capazes de refletir, com precisão, o que de fato está acontecendo na alocação de capital com critérios socioambientais.

Sem essa base, qualquer análise sobre avanços, gargalos ou oportunidades tende a ser incompleta. Mais do que isso: decisões estratégicas, tanto no setor público quanto no privado, passam a ser tomadas com menor grau de confiança.

A atualização constante de dados, portanto, não é apenas um exercício técnico ou acadêmico. É uma peça estruturante do próprio mercado. Um bom exemplo dessa dinâmica está na evolução dos levantamentos realizados nos últimos anos. Em 2021, o mapeamento da ANDE identificava cerca de R$18,6 bilhões em ativos sob gestão alocados com critérios estritos de impacto, com intencionalidade clara, mensuração e expectativa de retorno. Já naquele momento, o salto em relação ao ano anterior, quando o volume era de R$4,4 bilhões, indicava um crescimento acelerado e ainda pouco visível fora do círculo mais próximo do ecossistema.

Sem uma leitura contínua desses dados, esse avanço teria passado despercebido. E isso importa porque é justamente esse tipo de evidência que começa a influenciar a tomada de decisão de atores mais tradicionais do sistema financeiro.

Mais recentemente, o estudo “Visões sobre Oferta de Capital para Impacto”, realizado em 2024 no âmbito da Enimpacto, amplia significativamente essa lente. Ao incluir bancos públicos, privados e diferentes perfis de gestores, o levantamento identifica um volume de R$1,588 trilhão em capital que já incorpora, de alguma forma, critérios socioambientais em sua alocação.

É fundamental reconhecer que estamos falando de metodologias distintas. Comparar diretamente esses números seria um erro analítico. Mas analisá-los em conjunto revela algo mais relevante: o investimento de impacto deixou de ser um nicho isolado e passou a ocupar uma posição crescente dentro da lógica do sistema financeiro como um todo. O debate não é mais apenas sobre o tamanho do mercado, mas sobre a sua profundidade e qualidade.

Dados do relatório GIIN State of the Market 2025, produzido pela Global Impact, também ajudam a desmontar uma das principais resistências históricas ao avanço do setor: a percepção de que o impacto implica, necessariamente, concessão de retorno financeiro. Evidências globais mostram que, em diversas classes de ativos, investimentos de impacto têm apresentado retornos competitivos, em alguns casos, superiores aos tradicionais.

Esse tipo de informação tem um efeito direto sobre o comportamento do mercado. Ele reduz o risco percebido e amplia o espaço para que grandes alocadores, como fundos de pensão, bancos e gestores institucionais, passem a considerar o impacto como parte legítima de suas estratégias.

O estudo “Visões sobre Oferta de Capital para Impacto”, realizado em 2024 no âmbito da Estratégia Nacional de Economia de Impacto pela Aliança pelo Impacto,  mostra que diferentes atores operam com níveis distintos de intencionalidade, governança e escala. Bancos públicos mobilizam grandes volumes e ampliam o acesso ao crédito, mas ainda enfrentam desafios na mensuração de impacto. Gestoras especializadas, por outro lado, apresentam maior rigor metodológico, mas operam com volumes menores e acesso mais restrito.

Essa leitura comparativa é essencial. Ela permite identificar não apenas onde o capital está, mas como ele está sendo alocado e, principalmente, onde estão os vazios que precisam ser preenchidos. 

O mesmo vale para a análise setorial. Ao cruzar dados de diferentes estudos, é possível perceber, por exemplo, desalinhamentos entre intenção e alocação efetiva de recursos. Setores como água e saneamento seguem sendo amplamente reconhecidos como prioritários, mas ainda recebem menos capital do que a demanda sugere. Relatório da Aspen Network of Development Entrepreneurs de 2021, que identificou um descasamento relevante entre intenção e alocação efetiva: enquanto 42% dos investidores entrevistados apontavam Água, Saneamento e Higiene (WASH) como setor prioritário, apenas 15% possuíam ativos efetivamente investidos nessa área. 

Se quisermos avançar para uma economia em que risco, retorno e impacto sejam considerados de forma integrada, precisamos garantir que os dados acompanhem essa evolução. Isso significa investir não apenas em novos levantamentos, mas na sua continuidade, comparabilidade e transparência.

O próximo ciclo de estudos terá um papel decisivo, pois mais do que atualizar números, poderá revelar o real grau de maturidade alcançado pelo setor, indicando se o capital está, de fato, chegando onde mais importa, se vem sendo alocado com maior intencionalidade e se há uma aproximação consistente entre o volume expressivo do sistema financeiro e as práticas mais estruturadas de investimento de impacto; no fim, a questão central deixa de ser apenas quanto capital está disponível e passa a ser qual é a qualidade da transformação que ele está promovendo, uma resposta que só pode ser sustentada por dados consistentes, comparáveis e continuamente atualizados.