Diesel mais caro nos EUA pode pressionar energia no Brasil

Possível restrição às exportações americanas pode elevar custos de combustíveis e encarecer a geração térmica, em meio à transição para fontes renováveis

Usina térmica a carvão em operação. Foto: Steve Buissinne/Pixabay.

A possibilidade de os Estados Unidos restringirem a exportação de diesel acendeu um alerta no setor elétrico brasileiro. Anunciada pelo governo americano na terça-feira (22/9), a medida ainda está em avaliação, mas já levanta preocupações sobre os efeitos de um eventual aperto na oferta internacional de combustíveis e de uma alta dos preços sobre a geração de energia no Brasil.

O impacto, caso ocorra, não seria necessariamente direto. O mecanismo passa pela dependência brasileira de combustíveis fósseis e pela exposição das termelétricas às oscilações do mercado internacional. Segundo o Instituto Nacional de Energia Limpa (Inel), cerca de um quarto do diesel consumido no país é importado.

Um dos canais de transmissão está nas usinas termelétricas que utilizam diesel. Em períodos de menor disponibilidade das hidrelétricas, especialmente durante secas, essas unidades podem ser acionadas para complementar a geração do sistema. Nesse cenário, uma eventual alta do combustível eleva o custo de operação das usinas.

“Quando o preço do diesel sobe, o custo de geração dessas termelétricas também aumenta. Esse é um dos possíveis canais de impacto sobre o setor elétrico”, afirma o presidente do Inel, Heber Galarce.

A repercussão sobre a conta de luz, porém, não é automática. O custo adicional de geração pode chegar às tarifas de acordo com as condições de operação do sistema e as regras do setor. Da mesma forma, uma alta do diesel não altera diretamente a bandeira tarifária, cuja definição cabe à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Efeito pode chegar ao gás

Há ainda um segundo caminho, menos direto. Uma eventual redução da oferta de diesel no mercado internacional poderia estimular a substituição do combustível por outras fontes onde houver viabilidade técnica e econômica. Entre elas está o gás natural liquefeito (GNL).

Uma demanda maior pelo combustível poderia pressionar os preços internacionais do gás e, por consequência, aumentar o custo de operação de termelétricas brasileiras movidas a gás natural.

O episódio expõe, assim, uma vulnerabilidade que vai além da dependência brasileira de um combustível específico. Choques no mercado global de energia podem se espalhar por diferentes cadeias e alcançar a geração elétrica mesmo quando o país possui uma matriz majoritariamente renovável.

Para Galarce, a redução da exposição a combustíveis fósseis passa pela ampliação de fontes renováveis e pela capacidade de armazenar energia. “Além de poluírem mais, precisamos ter uma outra opção. O Inel trabalha bastante para o crescimento das fontes renováveis de energia e a utilização de baterias para fazer o armazenamento adequado”, afirma.

O que está em jogo nos EUA

A discussão ganhou força depois de o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmar na terça-feira que o governo avalia a possibilidade de restringir parcial ou totalmente as exportações de diesel. Segundo ele, nenhuma decisão havia sido tomada e a medida dependeria, entre outros fatores, da capacidade de refino americana.

O movimento ocorre em meio à disparada dos preços dos combustíveis nos Estados Unidos, em um cenário de tensão no Oriente Médio. Nesta semana, o preço médio nacional do diesel chegou a US$ 6,53 por galão, segundo a AAA, quase US$ 3 acima do registrado um ano antes. Na Califórnia, o valor ultrapassou US$ 8,40 por galão.

Ainda não está definido se Washington adotará alguma restrição nem qual seria seu alcance. Para o Brasil, o episódio reforça a importância de reduzir a exposição do sistema elétrico à volatilidade dos combustíveis fósseis e ampliar a participação de fontes renováveis, com soluções de armazenamento capazes de dar mais flexibilidade e segurança à geração.