A perspectiva de um novo episódio de El Niño no segundo semestre levou o governo federal a adotar uma estratégia preventiva para preservar os reservatórios das hidrelétricas e reforçar a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN). A principal medida é a redução da geração hidrelétrica, permitindo o armazenamento de um volume maior de água para enfrentar possíveis impactos do fenômeno climático sobre o regime de chuvas.
A decisão foi tomada pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que estima em 70% a probabilidade de ocorrência do El Niño nos próximos meses. O fenômeno costuma alterar significativamente o padrão de precipitações no Brasil, com efeitos distintos entre as regiões: enquanto o Sul tende a registrar excesso de chuvas, áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar estiagens mais severas, reduzindo a vazão dos rios que abastecem importantes usinas hidrelétricas.
A estratégia sinaliza uma mudança de postura do governo, que passa a priorizar a preservação dos estoques hídricos em vez da maximização da geração hidrelétrica no curto prazo. A medida busca ampliar a capacidade de resposta do sistema elétrico caso as condições climáticas se deteriorem ao longo da estação seca.
Além da gestão mais conservadora dos reservatórios, o CMSE aprovou um conjunto de ações voltadas ao monitoramento contínuo do cenário climático e operacional. Entre elas estão o acompanhamento intensivo das condições hidrometeorológicas, a criação de uma sala específica para monitorar o abastecimento de combustíveis destinados aos sistemas isolados de geração da Região Norte e a participação em grupos interinstitucionais coordenados pela Casa Civil e pela Defesa Civil para acompanhar a evolução do El Niño.
O plano também prevê que empresas de geração, transmissão e distribuição reforcem o monitoramento de seus ativos e adotem medidas preventivas para reduzir riscos ao fornecimento de energia.
Eventos extremos
A preocupação do setor elétrico ocorre em um momento de aumento dos alertas para eventos climáticos extremos. A formação de um ciclone extratropical entre esta quinta e sexta-feira colocou estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste em estado de atenção, com previsão de chuvas intensas, rajadas de vento superiores a 100 km/h em algumas localidades e possibilidade de queda de granizo.
Embora esse episódio específico esteja associado à passagem de uma frente fria, especialistas alertam que o El Niño tende a aumentar a frequência e a intensidade de eventos extremos, exigindo maior coordenação entre os setores de energia, infraestrutura e defesa civil.
Belo Monte reduz vazão no Xingu
Paralelamente às medidas para reforçar a segurança energética, uma decisão envolvendo a hidrelétrica de Belo Monte reacendeu o debate sobre os impactos socioambientais da operação das grandes usinas.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou a Norte Energia a reduzir ao mínimo possível a liberação de água para o trecho de aproximadamente 100 quilômetros da Volta Grande do Xingu, no Pará. A região, que já sofre há anos com alterações no fluxo natural do rio em razão da barragem, poderá registrar uma vazão ainda menor.
A autorização ocorre em meio ao desafio de equilibrar segurança energética, disponibilidade de água e preservação ambiental. Com eventos climáticos extremos mais frequentes, o setor elétrico precisa conciliar a operação das hidrelétricas com a proteção dos ecossistemas e das comunidades afetadas.