Candidato a deputado distrital pelo PSB nas eleições de 2026, Raphael Sebba concedeu entrevista ao Em alta na política e detalhou as prioridades da candidatura. Sociólogo, mestre em planejamento urbano pela Universidade de Brasília (UnB) e ex-consultor do governo federal na elaboração do Plano Clima de Adaptação, o candidato afirma que quer colocar a defesa do Cerrado, a justiça climática e o direito à cidade no centro do debate político do Distrito Federal.
A decisão pela candidatura
Ao explicar por que decidiu concorrer, Sebba disse que sua trajetória é marcada pela militância antes da disputa eleitoral. “Eu atuo há muito tempo na política aqui do Distrito Federal, eu tenho muito orgulho de dizer que eu não sou um político eleitoral, eu sou um ativista, uma pessoa que se preocupa com o Distrito Federal que tá presente o ano inteiro”, afirmou.
O candidato afirma que a justiça climática e a adaptação do DF às mudanças do clima não têm espaço adequado no debate público. “Meu mandato quer dar centralidade para elas. Eu quero destacar de forma muito consistente a justiça climática, a defesa do Cerrado, a adaptação do DF para mudança do clima. A gente tá vivendo agora uma onda de calor, todo mundo tá sentindo na pele, não tem política nenhuma em relação a isso”, declarou.
Ondas de calor, alagamentos e desigualdade ambiental
Questionado sobre o maior desafio da pauta climática no DF, Sebba apontou a intensificação de secas e chuvas extremas na região. “A gente está vendo um fenômeno recente de intensificação desse processo: secas mais severas, ondas de calor mais severas e, por outro lado, na época de chuva, também chuvas mais concentradas e com consequências mais graves para a população”, disse.
Para o candidato, a ausência de medidas de adaptação tem efeitos diretos sobre transporte, saúde e educação. “A gente tá falando do ônibus lotado ao meio-dia, que é brutal porque não tem ar-condicionado. É uma violência: o trabalhador já chega no trabalho cansado, exausto”, exemplificou. Ele também associou o calor extremo ao desempenho educacional do DF. “É impossível uma criança aprender bem nessa onda de calor que a gente tá vivendo hoje, numa sala que não tem ar-condicionado, que não tem boa arquitetura, que não tem ventilação, numa região que não tem arborização. Talvez por isso, entre outros fatores, a gente tá em último lugar no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)”, afirmou.
Entre as propostas concretas, o candidato defende a retomada de um programa de assistência técnica arquitetônica pública, para adaptar residências ao calor, além de investimentos no combate a alagamentos e no combate a incêndios no Cerrado. “Só em agosto foram mais de mil incêndios na vegetação, dados oficiais do GDF, com estimativa de que 95% foram causados por ação humana. A gente nunca viu uma operação de combate à grilagem no Distrito Federal mirando quem bota fogo no Cerrado”, criticou.
Sobre o financiamento dessas políticas, Sebba defendeu a recuperação de recursos públicos desviados: “É preciso se responsabilizar, botar na cadeia quem roubou o banco do Distrito Federal. Mas, para essa turma, mais do que a cadeia, é preciso doer o bolso: é preciso recuperar tudo que foi desviado do Distrito Federal e congelar bens de todo mundo que é responsável”, disse, citando o governador Ibaneis Rocha como alvo dessa responsabilização.
A chapa do PSB e a disputa pelo governo do DF
Sobre a escolha de Sophia Carvalho como vice na chapa de Ricardo Cappelli (PSB) ao governo do DF, Sebba disse ter recebido a notícia com entusiasmo. “Eu fiquei muito feliz com a escolha da Sophia. Eu sou antes de tudo um ativista do Cerrado, da justiça climática, de uma perspectiva de desenvolvimento que bota as pessoas no centro do debate, e eu tenho certeza que a Sophia representa muito bem tudo isso”, afirmou.
Já sobre o desempenho de Cappelli na campanha, o candidato foi enfático. “É, sem dúvida, um quadro extremamente preparado. Eu tenho certeza que todo mundo que vê o debate entende que o Cappelli é um cara com plenas condições de governar o Distrito Federal”, disse. Sebba criticou as duas principais colocações nas pesquisas eleitorais. “A gente tem, por um lado, um ex-governador que foi pego colocando dinheiro na meia e, por outro lado, a Celina, que na minha opinião é parte do pior governo da história do Distrito Federal. A saúde está em colapso e é um dos maiores orçamentos do país. A gente não sabe para onde esse dinheiro tá indo”, afirmou.
Internação compulsória e população em situação de rua
Diante do aumento da população em situação de rua e de propostas de internação compulsória defendidas por outros candidatos, Sebba criticou o que considera uma banalização do instrumento. “Eu costumo dizer que defender internação compulsória é a mesma coisa que defender uma cirurgia no rim. Ninguém defende isso como uma questão médica objetiva, como se não fosse um instrumento já previsto na política nacional de saúde mental”, afirmou. “O que não existe é adotar esse instrumento como uma política generalizada de tirar pessoas da rua, como se isso fosse a causa primeira da vulnerabilidade social”, completou.
Ele responsabilizou a atual gestão pelo agravamento do problema. “Sandro Avelar era secretário de Segurança aqui no Distrito Federal, Celina Leão é a governadora. Se hoje a gente tem um quadro de problema na segurança pública, é justamente por conta das escolhas e do projeto político dessas figuras”, disse.
Para o candidato, a resposta ao tema precisa ser estrutural, com acompanhamento individualizado de famílias em vulnerabilidade e das pessoas em situação de rua. “Ninguém planeja tá na rua. Nenhuma criança pensa: ‘Quando eu crescer eu quero estar em situação de rua’. São vários fatores que levam uma pessoa a chegar a essa situação, e a gente precisa acompanhar essas famílias para prevenir”, afirmou. Ele defende assistência social permanente também depois da saída da rua. “Eu acho que quem sai da situação de rua tem que ter assistente social todo dia fazendo visita, acompanhamento psicológico permanente, orientação profissional, técnica, de saúde, de todos os aspectos da sua vida”, disse.
O caso da Serrinha do Paranoá
Por fim, Sebba comentou a tentativa do governo do DF de destinar uma área da Serrinha do Paranoá para cobrir déficits financeiros do Banco Regional de Brasília (BRB). Segundo ele, o episódio expôs a falta de um mandato voltado à pauta ambiental na CLDF. “O argumento contra a entrega da área não foi que essa área é essencial para a recarga de aquíferos do DF, que essa área não pode ser urbanizada nunca, que é uma área essencial de Cerrado que cumpre uma função ecológica para o Distrito Federal”, avaliou.
O candidato afirma ter atuado diretamente para reverter a decisão, inclusive por via judicial. “Entrei com ação até no STF, uma provocação que resultou numa notificação à governadora Celina Leão questionando pela via ambiental a entrega da Serrinha para a urbanização. O resultado foi que a Celina recuou, mas a ameaça continua aí”, disse.
Para Sebba, a criação de um parque na área é a única garantia definitiva de proteção. “A gente precisa criar definitivamente o parque da Serrinha, na Gleba A de verdade, no que é de fato a Serrinha. Eu quero ser deputado para que, seja qual for a ameaça, a gente esteja na linha de frente da defesa e garanta que o governo não vai poder passar por cima do nosso bioma, da nossa gente, da nossa água, do interesse coletivo em nome de interesses privados”, concluiu.
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