ProBioQAV: o desafio de transformar metas em mercado

Nova regulação da aviação será medida não apenas pelo cumprimento das metas ambientais, mas por sua capacidade de atrair investimentos

Produção de combustível sustentável de aviação (SAF) é um dos desafios para transformar as metas do ProBioQAV em novos investimentos no Brasil. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil.

Paulo Braga*

A proposta da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para regulamentar as metas de redução de emissões da aviação doméstica ganhou uma cifra capaz de produzir manchetes: multa de R$ 750 por tonelada de CO₂ que deixar de ser reduzida. A multa importa, mas é apenas o fim da linha. O verdadeiro teste do ProBioQAV começa antes de qualquer sanção.

A questão decisiva é saber se a obrigação ambiental criará demanda estável, sustentará contratos de longo prazo, atrairá capital e ampliará a produção brasileira de combustível sustentável de aviação, o SAF. Se isso acontecer, a regulação poderá ajudar a formar uma nova indústria. Se não, corremos o risco de construir um sistema eficiente para comprovar obrigações, mas insuficiente para ampliar a oferta. 

Uma regulação pode fiscalizar bem e, ainda assim, gerar pouco investimento. Metas, certificados e sanções são necessários, mas uma nova planta depende também de previsibilidade, contratos compatíveis com seu ciclo financeiro, divisão de riscos e acesso a financiamento.

O ProBioQAV traz instrumentos importantes para reduzir obstáculos. Um deles é o CS-SAF, certificado que separa o atributo ambiental do combustível de sua entrega física, no modelo book and claim. Na prática, uma companhia aérea pode comprovar a redução correspondente mesmo sem receber o SAF no aeroporto em que opera. O combustível pode ser fornecido onde houver infraestrutura, enquanto seu atributo ambiental é transferido por certificado. Para um país continental, no qual produção e consumo se distribuem de forma desigual, essa flexibilidade logística faz sentido.

O mecanismo alivia a logística, mas não elimina a restrição fundamental: os certificados só preservam valor ambiental se houver SAF produzido, certificado e comercializado para lhes dar lastro. Sem aumento da produção, a oferta de atributos ambientais não cresce indefinidamente. A escassez não desaparece; deixa de se manifestar apenas na falta de combustível em determinado aeroporto e passa a afetar também o preço, a liquidez e a disponibilidade dos certificados. O mercado pode distribuir melhor o que existe, mas não cria combustível por decreto.

O Decreto nº 13.094, de 2026, admite que parte da meta seja cumprida por instrumentos alternativos, com maior flexibilidade nos primeiros anos. Eles podem funcionar como amortecedor enquanto a oferta e a infraestrutura se desenvolvem. A calibragem, porém, será decisiva. Se esses instrumentos ocuparem espaço crescente no cumprimento das metas, parte da demanda destinada aos produtores poderá seguir outro caminho, enfraquecendo o sinal econômico para novos projetos. Limites muito apertados, por outro lado, podem elevar excessivamente o custo das companhias aéreas em um mercado ainda com oferta restrita. O desafio é dar flexibilidade sem esvaziar o estímulo à produção.

Há outro ponto menos visível, mas igualmente importante: preço do combustível, preço do certificado e custo da redução não são equivalentes. Um SAF mais barato por unidade física pode reduzir menos emissões ao longo do ciclo de vida e exigir maior volume para atingir a meta. Outro, mais caro e com menor intensidade de carbono, pode exigir menos combustível, sem necessariamente representar o menor custo total. Para empresas e investidores, a comparação relevante deve considerar a redução efetivamente reconhecida, as regras de comprovação, a liquidez do mercado e a previsibilidade das obrigações futuras.

A transparência regulatória pode ajudar. Dados sobre emissão, negociação, transferência e aposentadoria de certificados, acompanhados de volumes financeiros e preços, tendem a reduzir incertezas e a melhorar a formação de referências. Mas informação de mercado, por si só, não financia fábricas nem substitui investimento produtivo. O sucesso do ProBioQAV aparecerá em sinais concretos: mais SAF produzido no país, contratos de prazo mais longo entre produtores e compradores e novos projetos industriais saindo do papel. Liquidez e rastreabilidade mostrarão se a infraestrutura do mercado funciona; produção e investimento revelarão se o programa vai além do cumprimento formal das metas.

A consulta pública nº 12/2026 da Anac, aberta até 1º de outubro, ocorre justamente quando essas escolhas estão sendo definidas. É uma oportunidade para aperfeiçoar não apenas os mecanismos de controle, mas também os incentivos que ligarão a obrigação regulatória à expansão da oferta. O desenho final precisa permitir a adaptação no curto prazo sem perder de vista o objetivo maior: criar condições para que a produção cresça de forma consistente.

A aposentadoria dos certificados provará que a obrigação foi cumprida. O teste econômico será mais exigente: quanto SAF novo o ProBioQAV ajudou a colocar no mercado brasileiro e quanta redução efetiva de emissões esse combustível produziu? A resposta dirá se o programa criou apenas um mecanismo de conformidade ou se ajudou o Brasil a construir uma indústria de baixo carbono.

*Paulo Braga é engenheiro florestal, mestre em Florestas Tropicais pela Universidade de
Oxford e especialista em finanças ambientais, com 40 anos de atuação no Brasil e no
exterior. Sua trajetória reúne mercados de carbono, monetização de ativos ambientais,
energia renovável e soluções baseadas na natureza, em projetos para os setores público e
privado.