Congresso eleito amplia resistência à agenda climática

Quase 7 em cada 10 parlamentares da próxima Legislatura têm baixa convergência com pautas ambientais, aponta levantamento do Observatório do Clima

Senado terá 64 dos 81 senadores em faixas de baixa ou muito baixa convergência com a agenda ambiental e climática. Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

O Congresso Nacional que tomará posse no ano que vem terá um perfil menos favorável à agenda ambiental e climática. Levantamento do Observatório do Clima, divulgado nesta terça-feira (6/10), aponta que 68,9% dos deputados e senadores eleitos para a 58ª Legislatura, de 2027 a 2031, estão nas faixas de baixa ou muito baixa convergência com pautas socioambientais. Na Legislatura atual, o cenário era menos desfavorável.

A mudança é mais acentuada no Senado. Dos 81 senadores que vão compor a próxima legislatura, 64 (79%) estão nas faixas de convergência baixa ou muito baixa. Entre 2023 e 2027, eram 58 parlamentares (71,6%) nessa situação. Apenas 17 senadores eleitos, ou 21%, ficaram nas categorias de boa ou muito boa convergência.

Para o Observatório do Clima, a composição da próxima Casa reflete, entre outros fatores, o avanço de partidos de extrema direita, que apresentam historicamente menor alinhamento com a agenda ambiental. O Partido Liberal (PL), por exemplo, passou de 15 para 28 cadeiras no Senado, o equivalente a 34,6% da Casa.

Na Câmara, 345 dos 513 deputados eleitos (67,3%) estão nas faixas de baixa ou muito baixa convergência. O percentual era de 63% na Legislatura anterior. Ao mesmo tempo, o grupo de parlamentares classificados nas faixas boa ou muito boa caiu de 181 para 168 deputados.

O PL também ampliou a bancada na Câmara, de 98 para 121 deputados, passando a representar 23,6% da Casa.

A coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, avalia que a nova composição pode aumentar a pressão sobre mecanismos de proteção ambiental e abrir espaço para mudanças que reduzam a capacidade de fiscalização e preservação.

“Este quadro evidencia quatro anos de muito esforço para aqueles que atuam em clima e meio ambiente, e muita preocupação tanto com graves retrocessos quanto com as terríveis consequências disso tudo para a crise climática. Somando com um governo negacionista de Flávio Bolsonaro, isso significará o caos ambiental”, afirma.

Riscos 

Entre os possíveis impactos citados pela organização estão o enfraquecimento da atuação dos órgãos ambientais, a redução ou extinção de áreas protegidas, a diminuição da proteção de florestas e biomas e medidas de anistia a grileiros. Na avaliação do Observatório, parte da resistência à agenda também poderá ser contraposta por deputados com histórico de atuação socioambiental e votação expressiva nas eleições.

O Índice de Convergência Ambiental considera o comportamento dos parlamentares em votações e outros posicionamentos relacionados a temas como licenciamento ambiental, mercado de emissões, terras indígenas, transição energética, proteção de biomas e vetos presidenciais a medidas ambientais. A análise também leva em conta a atuação anterior dos políticos em cargos públicos e políticas implementadas.

Os parlamentares são classificados em quatro faixas: muito baixa, para índices de 0% a 25%; baixa, de 26% a 50%; boa, de 51% a 69%; e muito boa, de 70% a 100%. O levantamento utilizou prioritariamente dados do Farol Verde, plataforma do Instituto Democracia e Sustentabilidade, além da média de convergência dos partidos e da análise individual do histórico dos eleitos.