Apesar de a economia global ter apresentado resiliência em 2025, o cenário fiscal piorou, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), e, pelas projeções do órgão, tende a ficar mais tenso especialmente para o Brasil, refletindo o forte aumento dos gastos públicos e também o da conta de juros em função do aperto monetário ao longo do ano passado.
Pelas novas projeções do Monitor Fiscal divulgado pelo FMI, nesta quarta-feira (15/4), a trajetória da dívida pública bruta brasileira pode chegar a 100% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027 – um cenário que não estava previsto para o país, pelo menos, até 2030, no relatório anterior, de outubro passado. O Fundo prevê que, neste ano, a dívida pública bruta do Brasil chegará a 96,5% do PIB – patamar acima dos 96% do PIB registrado em 2020, no meio da pandemia global de covid-19.
No ano passado, a dívida pública bruta do país chegou a 93,3% do PIB, acima da média dos países emergentes, de 73,9% do PIB, da média das economias da América Latina, de 74,2%. E, pelas projeções do Fundo, nos próximos anos, a dívida pública bruta brasileira continuará crescendo até se estabilizar em 106,5% do PIB, entre 2030 e 2031.
As projeções do Fundo para a dívida pública bruta do Brasil no relatório anterior atingiam o pico de 98,2% do PIB, em 2029, iniciando uma leve queda em 2030, para 98,1% do PIB. Vale lembrar que o cálculo da dívida pública bruta do FMI é diferente do Banco Central, pois inclui os títulos do Tesouro Nacional na carteira da autoridade monetária. Pelos cálculos do BC, a dívida pública bruta terminou 2025 em 78,6% do PIB.
De acordo com os dados do relatório do FMI, o forte aumento da da dívida pública bruta brasileira teve contribuição do crescimento acentuado das despesas com juros devido ao aperto da política monetária, mas também por conta da deterioração do resultado primário das contas públicas. Para o Fundo, esses dois fatores “contribuíram igualmente” para o avanço do endividamento brasileiro acima da média dos países emergentes, que estão experimentando um momento diferente no mercado de crédito em meio ao conflito no Oriente Médio, que ampliou a volatilidade no mercado desde fevereiro de 2026.
Aumento da tensão após conflito no Oriente Médio
O novo Monitor Fiscal do FMI ressaltou que a dinâmica da dívida pública global não apresentou melhorias significativas em 2025, e o início da guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro, “adicionou uma nova fonte de pressão fiscal a um cenário global já tenso”.
Conforme os dados do Fundo, em 2025, a dívida pública bruta global avançou de 92% do PIB, em 2024, para 94% do PIB, em 2025, e, seguindo a trajetória atual, chegará a 100% do PIB, em 2029, um nível anteriormente alcançado apenas após a Segunda Guerra Mundial.
“Uma preocupação central não é apenas o elevado nível da dívida global, mas também a trajetória implícita pelas atuais configurações fiscais. Taxas de juros mais altas e maior sensibilidade do mercado às notícias fiscais sugerem que o espaço para acomodar essa trajetória está diminuindo”, destacou o relatório. O elevado endividamento, o aumento dos custos de juros, a menor flexibilidade dos mercados e as projeções de dívida em risco próximas a 120% do PIB reduziram a margem de manobra fiscal em todo o mundo, de acordo com o documento.
“As tensões geoeconômicas e políticas tornaram-se uma característica persistente do cenário fiscal, e as vulnerabilidades estruturais e as mudanças nos mercados de títulos soberanos estão ampliando a exposição dos países às mudanças no sentimento dos investidores”, informou o relatório.
O conflito, conforme dados do Fundo, tem alcance global significativo, interrompendo o fornecimento de energia, restringindo as condições financeiras e forçando os governos a escolher entre proteger suas populações de aumentos de preços e preservar o espaço fiscal.
Além disso, os pagamentos de juros aumentaram acentuadamente em apenas quatro anos, de 2% para quase 3% do PIB global, à medida que os governos refinanciam dívidas com vencimento às taxas mais altas de hoje. Com a expectativa de que os custos de empréstimo permaneçam elevados, a combinação de posições primárias frágeis e crescentes encargos com o serviço da dívida não deixa espaço para a complacência.
“O elevado endividamento, o aumento dos custos de juros, a menor flexibilidade dos mercados e as projeções de dívida em risco próximas a 120% do PIB reduziram a margem de manobra fiscal em todo o mundo. As tensões geoeconômicas e políticas tornaram-se uma característica persistente do cenário fiscal, e as vulnerabilidades estruturais e as mudanças nos mercados de títulos soberanos estão ampliando a exposição dos países às mudanças no sentimento dos investidores”, destacou o documento. “Nesse contexto, a política fiscal precisa urgentemente se tornar mais voltada para o futuro, com planos de ajuste bem elaborados para preservar a estabilidade e reduzir o risco de pressões disruptivas do mercado”, acrescentou.