O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) decidiu manter a taxa de juros básicas no patamar de 3,50% a 3,75% ao ano, conforme esperado pelo mercado, mas reconhecendo preocupação com o aumento das pressões inflacionárias por conta do conflito no Oriente Médio. A decisão, contudo, não foi unânime na reunião do Fed, que pode ser a última presidida por Jerome Powell.
Votaram a favor da ação de política monetária além de Powell, o vice-presidente John C. Williams, Michael S. Barr; Michelle W. Bowman; Lisa D. Cook; Philip N. Jefferson; Anna Paulson; e Christopher J. Waller. Votaram contra: Stephen I. Miran, que preferiu reduzir a meta para a taxa de juros dos fundos federais em 0,25 ponto percentual nesta reunião; e Beth M. Hammack, Neel Kashkari e Lorie K. Logan, que apoiaram a manutenção da meta para a taxa de juros dos fundos federais, mas não deram apoio para a inclusão de uma postura de flexibilização monetária na declaração da reunião de hoje.
De acordo com o comunicado do Fed, os indicadores recentes sugerem que a atividade econômica tem se expandido a um ritmo sólido e a inflação está elevada, em parte refletindo o recente aumento dos preços globais da energia. “O Comitê busca alcançar o máximo emprego e uma inflação de 2% no longo prazo. Os acontecimentos no Oriente Médio contribuem para um alto nível de incerteza sobre as perspectivas econômicas”, destacou a nota.
Ao justificar a decisão, o Comitê reforçou que continua atento aos riscos para ambos os lados de seu duplo mandato. “Ao considerar a extensão e o momento de ajustes adicionais à meta para a taxa básica de juros, o Comitê avaliará cuidadosamente os dados recebidos, a evolução das perspectivas e o equilíbrio de riscos. O Comitê está fortemente comprometido em apoiar o máximo emprego e retornar a inflação à sua meta de 2%”, informou o comunicado.
A nota ainda reforçou que, ao avaliar a postura apropriada da política monetária, o Comitê continuará monitorando as implicações das informações recebidas para as perspectivas econômicas e ainda ressaltou que seguirá atento para tomar as decisões apropriadas
“O Comitê estará preparado para ajustar a política monetária conforme apropriado, caso surjam riscos que possam impedir o alcance de seus objetivos. As avaliações do Comitê levarão em consideração uma ampla gama de informações, incluindo dados sobre as condições do mercado de trabalho, pressões inflacionárias e expectativas de inflação, bem como desenvolvimentos financeiros e internacionais”, informou a nota.
Leonel Olivera Mattos, analista de inteligência de mercados da Stonex, destacou que, apesar de não haver surpresas na decisão do Fed, a decisão chamou atenção pelo número mais elevado de votos divergentes — o maior desde 1992. “Oito membros votaram pela manutenção das taxas com um viés mais baixista, ou seja, sinalizando que o próximo movimento poderia ser de cortes. Por outro lado, três integrantes defenderam a manutenção dos juros sem esse viés, adotando uma postura mais equilibrada em relação aos riscos da economia norte-americana”, destacou.
Na avaliação dele, essa divergência evidencia uma diversidade relevante de opiniões dentro do banco central norte-americano. “Vale destacar que esta deve ser a última decisão de juros sob a presidência de Jerome Powell”, destacou ele, lembrando que o indicado pela Casa Branca, Kevin Warsh, foi aprovado, hoje, pelo Comitê de Assuntos Bancários do Senado americano, e sua nomeação deve seguir para votação em plenário no próximo mês. “Há, portanto, a possibilidade de que ele assuma a presidência do Fed antes de 15 de maio, data de término do mandato de Powell”, acrescentou.
Neste momento, os investidores aguardam a entrevista coletiva de Powell, em busca de mais detalhes sobre a avaliação dos riscos inflacionários dentro do comitê. O comunicado destacou que as incertezas elevadas, especialmente relacionadas a tensões geopolíticas no Oriente Médio, seguem pressionando o cenário de inflação. O aumento dos preços de energia, em particular, tende a dificultar o trabalho do Fed e reduzir o espaço para cortes de juros enquanto esse ambiente persistir.
No Chile, juros estáveis também
No Chile, o Banco Central também manteve os juros inalterados em 4,50% ao ano, preservando a abordagem da decisão da reunião anterior, além de elevar as projeções de inflação e reconhecer que os preços do petróleo estão acima das projeções.
Na avaliação de analistas do banco Bradesco, o Banco Central chileno “foi cauteloso, como esperado. e o viés do comitê parece priorizar uma inflação mais alta em detrimento de uma atividade econômica mais fraca”. Na avaliação dos analistas, uma alta de juros em junho, provavelmente dependerá desse desancoramento das expectativas, mesmo em um cenário em que a guerra não tenha terminado. “Em suma, mantemos nossa projeção de uma taxa de política monetária de 4,50% ao longo do horizonte de previsão, condicionada ao término do conflito no Irã sem grandes disrupções e à manutenção das expectativas de inflação ancoradas”, informou o comunicado do Bradesco.