Fitch reafirma rating do Brasil e mantém perspectiva estável

Segundo a entidade, a incerteza fiscal permanece um risco macroeconômico mais amplo, e as perspectivas para reformas estruturais que abordem os desequilíbrios subjacentes provavelmente ficarão mais claras somente após as eleições

moeda 1 real e notas. crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A agência norte-americana de classificação de risco Fitch Rating reafirmou a nota do Brasil em BB, no patamar especulativo, e manteve a perspectiva estável, mas fez vários alertas em relação à polarização da corrida eleitoral deste ano. “O rating ‘BB’ do Brasil reflete sua economia grande e diversificada, finanças externas sólidas e um câmbio flexível, que proporcionam resiliência a choques. Mercados locais profundos sustentam a flexibilidade do financiamento soberano e uma baixa participação da dívida em moeda estrangeira”, destacou a nota da agência divulgada na tarde desta terça-feira (16/6).

Segundo a instituição o rating é limitado pela elevada e crescente relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) e a rigidez orçamentária, além dos baixos índices de governança e potencial de crescimento relativamente baixo. “A incerteza fiscal permanece um risco macroeconômico mais amplo, e as perspectivas para reformas estruturais que abordem os desequilíbrios subjacentes provavelmente ficarão mais claras somente após as eleições de outubro”, destacou o documento.

Em relação às eleições presidenciais deste ano, Fitch informou que prevê uma disputa “acirrada entre os dois principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e O o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em um cenário político polarizado. “As políticas econômica e fiscal, incluindo a escala e a qualidade do ajuste fiscal, provavelmente serão diferentes dependendo do vencedor”, destacou a nota.

Para a Fitch, um cenário com Lula provavelmente implicaria continuidade das políticas, com gastos sociais, tributação progressiva e possivelmente pouco interesse em reformas de gastos. Enquanto, um governo de Flávio Bolsonaro, provavelmente, se concentraria em uma plataforma mais favorável ao mercado, “centrada em cortes de impostos, eficiência nos gastos e privatizações, embora a implementação permaneça altamente incerta”.

Rombo maior

A Fitch ainda prevê que o deficit nominal do governo geral permanecerá elevado e aumentará para 8,6% do PIB em 2026, ante 8,1% em 2025, em comparação com 3,5% para a mediana de ratings ‘BB’, principalmente devido a uma maior carga de juros. A Fitch espera que o deficit diminua para 8% em 2027, à medida que o deficit primário reduza e os custos com juros caiam com os cortes esperados nas taxas de juros.

“Rombos fiscais persistentemente elevados deixam o Brasil vulnerável a choques e mudanças no sentimento dos investidores”, alertou a agência que projeta o deficit primário do governo federal em 0,4% do PIB neste ano, menor do que o saldo negativo de 0,5% em 2025, mas “em linha com o limite superior da regra fiscal”. Contudo, a Fitch, ressaltou que a a incerteza em torno do programa fiscal e dos ajustes de política do próximo governo “permanece alta”.

Pelas projeções da Fitch a dívida pública bruta deverá ultrapassar 80% do PIB em 2026, uma vez que passou de 76,3% do PIB, em 2024, para 78,6% do PIB em 2025. “A Fitch espera que o elevado deficit fiscal aumente a relação dívida/PIB em quase três pontos percentuais em 2026 e 2027, destacando a importância de ajustes fiscais críveis pelo próximo governo. No entanto, a baixa participação da dívida em moeda estrangeira, a participação de não residentes nos mercados domésticos, as robustas reservas de caixa do Tesouro Nacional e a gestão eficaz do passivo reduzem o risco decorrente do elevado e crescente endividamento público”, destacou o documento.

Pelas perspectivas da Fitch, apesar das condições monetárias restritivas, o crescimento do PIB em 2026 será resiliente e chegará a 2,1%, em 2026, levemente abaixo dos 2,3% registrados em 2025. “O crescimento é impulsionado pelo consumo robusto, mercado de trabalho forte, desemprego historicamente baixo, altos ganhos salariais reais e a reforma do imposto de renda de 2025”, informou a nota, citando as medidas de redução de impostos para famílias de baixa renda, que têm maior propensão a consumir, elevaram os impostos para famílias de alta renda, e a introdução de um regime de tributação mínima e a tributação da renda de dividendos.

A Fitch informou ainda espera que o crescimento do PIB, em 2027, desacelere para 1,7% devido ao efeito defasado da política monetária restritiva contínua e possivelmente a um menor estímulo fiscal. A instituição ainda lembrou que o aumento de 4,4% para 4,7% a inflação acumulada em 12 meses de abril para maio tende a reduzir o ritmo de afrouxamento da política monetária. Nesse sentido, a agência prevê que a inflação suba para 5% até o final de 2026, ultrapassando o limite superior da margem de tolerância de 1,5 ponto percentual em torno da meta de inflação de 3%, antes de recuar para 4% até o fim de 2027.

“Persistem riscos de alta, refletindo o El Niño e a inflação elevada contínua no setor de serviços em meio à forte demanda”, destacou a nota da Fitch, que está mais otimista do que o mercado, porque prevê os juros básicos encerrando 2026 em 13% ao ano, enquanto isso, a mediana das estimativas do coletadas pelo Banco Central no boletim Focus divulgado ontem para a taxa Selic no fim deste ano passou de 13,50% para 13,75% anuais.