Sem surpresas, Fed mantém juros básicos entre 3,50% e 3,75% ao ano

Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, mantém os juros básicos em 3,50% a 3,75% anuais, como esperado pelo mercado, e eleva previsão de inflação do ano para 2,7%, com a guerra no Oriente Médio no radar

Como esperado pelo mercado, o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), decidiu, nesta quarta-feira (18/3), manter a taxa de juros básicos norte-americanos no intervalo de 3,50% a 3,75%, mas a decisão não foi unânime, com um voto contrário entre os demais integrantes do comitê de política monetária, o Fomc.

A guerra no Oriente Médio, que está na terceira semana após os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, entrou no radar do colegiado, que elevou as projeções de inflação nos EUA para este ano, de 2,4% para 2,7%, acima da meta de 2%.

Votaram a favor da ação de política monetária, o presidente do Fed, Jerome H. Powell, o vice-presidente John C. Williams, Michael S. Barr; Michelle W. Bowman; Lisa D. Cook; Beth M. Hammack; Philip N. Jefferson; Neel Kashkari; Lorie K. Logan; Anna Paulson; e Christopher J. Waller. Na contramão, Stephen I. Miran, votou por um corte de 0,25 ponto percentual.

“Ao considerar a extensão e o momento de ajustes adicionais na meta para a taxa de juros dos fundos federais, o Comitê avaliará cuidadosamente os dados recebidos, a evolução das perspectivas e o equilíbrio de riscos. O Comitê está fortemente comprometido em apoiar o máximo emprego e retornar a inflação à sua meta de 2%”, destacou o Fed, no comunicado.

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, destacou a sinalização do Fed de manter a janela aberta para um eventual corte nos juros ainda neste ano. “Essa decisão pela manutenção dos juros básicos pelo Fed era esperada. A dúvida era se eles iriam ser muito conservadores e modificar também a projeção do ano para nenhum corte. Isso não ocorreu. Eles deixaram ainda, na média, um corte de juros esse ano, assim como estavam nas projeções de dezembro de 2025”, afirmou.

Cruz destacou que o Fed demonstrou preocupação com os efeitos do conflito no Oriente Médio, e lembrou que o indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Stephen Mirren continua votando pelo corte enquanto os demais preferiram manter os juros estáveis apesar em meio à piora nas projeções para a inflação. “A grande mudança está na expectativa de inflação, que subiu de 2,4% para 2,7%, neste ano, lembrando que a meta deles é 2%, e, para o ano que vem, passou de 2,1% para 2,2%”, ressaltou.

Pelas projeções do Fed, a taxa de desemprego continua em 4,4% e a taxa de variação do Produto Interno Bruto (PIB) avançou de 2,3% para 2,4%, mas a taxa final mediana, de 3,4%, ainda está elevada para o padrão histórico dos EUA, destacou Cruz. Na avaliação dele, o Fed ainda deverá registrar algum tipo de divergência entre os integrantes do Fed mesmo após a saída de Jerome Powell, que ocorrerá em maio, especialmente, se os preços do petróleo continuarem subindo e essa guerra se estender por um período mais prolongado.

O economista lembrou que, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o galão da gasolina chegou a US$ 6 e, hoje, está perto de US$ 5. “Entendo que, para o mercado brasileiro, o banco central norte-americano preferiu aguardar antes de trazer um posicionamento muito claro nessa decisão sobre política monetária”, afirmou.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, considerou as projeções do colegiado “dovish”, que é considerado mais tolerante com a inflação, uma vez que a projeção da mediana para o PIB do trimestre atual passou de 3,6% para 3,4%. Na avaliação dele, o Fed deverá realizar dois cortes de 0,25 ponto percentual até o fim deste ano, quando, antes, projetava apenas uma redução de juros, sinalizando que a preocupação maior é com a atividade econômica do que com a carestia.

“Apesar da guerra no Irã e do petróleo perto de US$ 100, o Fed está sinalizando que a desaceleração da economia norte-americana pesa mais na balança do que o risco inflacionário de curto prazo. Isso é positivo para os ativos de risco no geral e, para o Brasil, a implicação é direta, porque deixa o Banco Central brasileiro para, ainda hoje, iniciar o ciclo de queda da Selic (taxa básica da economia) com menos pressão cambial”, afirmou.

A maioria das apostas no mercado prevê um corte de 0,25 ponto percentual, mas a manutenção da taxa Selic em 15% ao ano não está descartada, principalmente devido ao aumento das pressões no preço do petróleo no mercado internacional.