Estados travam resposta climática no Brasil

Anuário mostra avanço institucional desigual, falhas na adaptação e alto custo dos eventos extremos para governos estaduais

Centro de Porto Alegre inundado pelas águas do Guaíba, depois de grandes volumes de chuva no estado. Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini.

A política climática brasileira avançou na formulação, mas ainda não se traduz de forma homogênea em capacidade de resposta nos estados. A 2ª edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, do Centro Brasil no Clima (CBC) e do Instituto Clima e Sociedade (iCS), reúne dados de governança, emissões, financiamento e adaptação nas 27 unidades federativas e mostra que a ação nos estados é desigual e afeta diretamente a resposta nacional à crise.

Há progresso institucional, mas persistem lacunas que limitam a efetividade das políticas. A adaptação é o ponto mais frágil, com predominância de respostas reativas a desastres e pouco planejamento preventivo. Dezoito estados possuem planos de contingência da Defesa Civil e há avanços pontuais, como diretrizes para períodos chuvosos em Minas Gerais e ações costeiras no Ceará. Em 2025, estados e o Distrito Federal aderiram ao AdaptaCidades, voltado à estruturação de políticas municipais.

A implementação, porém, é desigual. A adesão varia de cerca de dez a 140 municípios por estado, refletindo diferenças na capacidade de resposta. O custo da falta de adaptação é elevado. As enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, causaram prejuízos de R$ 16,4 bilhões e evidenciam o impacto fiscal dos eventos extremos.

O cenário se agrava com a intensificação climática. Em 2024, o país enfrentou secas, enchentes, incêndios e ondas de calor de forma simultânea. Entre os episódios recentes estão as chuvas na Zona da Mata mineira, com 73 mortes, sendo 66 em Juiz de Fora, e as tempestades no Rio Grande do Sul, que deixaram cerca de 180 mortos e atingiram 90% dos municípios. No mesmo período, o Brasil registrou a maior seca de sua história, segundo o Cemaden.

Os eventos ampliam vulnerabilidades, geram perdas econômicas e pressionam orçamentos públicos, consolidando a agenda climática como tema central para a gestão econômica e social.

Perfil das emissões 

O perfil das emissões varia conforme a estrutura econômica dos estados. A região Norte lidera em emissões brutas, enquanto o Sudeste aparece como principal emissor líquido, evidenciando o peso diferenciado do uso da terra, da agropecuária e da energia.

Entre os destaques, o Amazonas se consolida como principal sumidouro de carbono do país, com remoção de aproximadamente 162 milhões de toneladas de CO₂ equivalente e emissões líquidas negativas de 65,8 milhões. Já o Pará se destaca como maior removedor bruto, com cerca de 166 milhões de toneladas capturadas, impulsionadas pela regeneração florestal e áreas protegidas.

Embora tenha havido redução do desmatamento entre 2023 e 2024, o anuário alerta que isso não implica necessariamente menor degradação ambiental. No mesmo período, biomas como Amazônia, Cerrado e Pantanal registraram aumento expressivo das queimadas, indicando persistência da pressão sobre os ecossistemas.

Agropecuária e uso da terra 

Os dados setoriais mostram que a agropecuária permanece como vetor relevante de emissões. As principais culturas — soja, milho e arroz — responderam por cerca de 33 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, sendo 40,3% associadas à produção de soja.

Ao mesmo tempo, o setor concentra potencial de mitigação. Dos 179 milhões de hectares de pastagens no país, aproximadamente 60% (107,6 milhões de hectares) apresentam baixo ou médio vigor, indicando espaço para recuperação. Cerca de 58,2 milhões de hectares têm potencial de conversão para sistemas produtivos sustentáveis.

Pastagens de alto vigor, por sua vez, removeram 122,6 milhões de toneladas de CO₂ equivalente da atmosfera em 2024, evidenciando o papel do setor na captura de carbono. Nesse contexto, programas de recuperação de pastagens são apontados como estratégicos para reduzir emissões e elevar produtividade.

O levantamento também evidencia gargalos na implementação de instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Estados com elevado número de registros apresentam baixa capacidade de análise de regularidade ambiental.

A Bahia, por exemplo, possui cerca de 1,2 milhão de cadastros sem análises concluídas. Pernambuco registra mais de 420 mil cadastros na mesma condição, enquanto o Rio Grande do Norte contabiliza apenas uma análise finalizada entre mais de 112 mil registros. Outros estados apresentam menos de 100 análises, apesar de possuírem dezenas de milhares de cadastros. 

O cenário indica dificuldades operacionais e de integração de dados, comprometendo a efetividade de uma das principais ferramentas de controle ambiental.

Desafio de execução

Ao consolidar dados inéditos, o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas reforça que o Brasil dispõe de base técnica e instrumentos para avançar na agenda climática. O principal desafio, no entanto, permanece na implementação.

A heterogeneidade entre estados, somada à baixa integração da agenda climática ao planejamento econômico e à persistência de gargalos operacionais, mantém a política ambiental em um estágio intermediário. A agenda evolui no plano institucional, mas ainda enfrenta limites para produzir respostas proporcionais à escala e à urgência da crise climática.