A confirmação da formação do El Niño no segundo semestre de 2026 recoloca a gestão da água no centro das preocupações do setor produtivo brasileiro em um momento de aumento da instabilidade climática e de pressão sobre a segurança hídrica.
Segundo a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA), havia uma probabilidade de 82% de desenvolvimento entre o fim de maio e julho. Confirmada a ocorrência, a atenção se volta à sua intensidade. Estudos indicam uma chance de 63% de que o evento seja muito forte entre novembro e janeiro, ampliando as incertezas sobre seus impactos no Brasil.
Os impactos, como já observado em episódios anteriores, tendem a variar de forma significativa entre as regiões do país. No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o aumento das chuvas durante a primavera eleva o risco de enchentes e pressiona atividades agrícolas.
Já o inverno mais quente no Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste pode atrasar a próxima estação chuvosa, agravando a situação de reservatórios que já operam em níveis preocupantes em parte do Sudeste. No Norte e Nordeste, o padrão tende a ser de redução das chuvas, temperaturas mais elevadas e aumento do risco de secas e queimadas.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul afetaram mais de 2,4 milhões de pessoas, provocaram centenas de mortes e deixaram milhares de famílias desabrigadas, além de comprometer o abastecimento de água.
O impacto econômico foi estimado em quase R$ 90 bilhões por instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a CEPAL e o Banco Mundial. No extremo oposto do país, a crise de seca na Amazônia, no mesmo ano, levou praticamente todos os municípios da região a algum grau de estiagem no pico do fenômeno.
Novo padrão
Para especialistas, o ponto central é que esses eventos deixam de ser exceções climáticas e passam a compor um novo padrão de risco. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) aponta que, independentemente da atuação do El Niño, a frequência de eventos extremos vem aumentando nas regiões tropicais.
Esse cenário se agrava diante de uma fragilidade estrutural persistente: o desperdício de água tratada no Brasil. De acordo com o Ranking do Saneamento 2025, cerca de 45% da água tratada é perdida antes de chegar ao consumidor final — índice muito acima do patamar tecnicamente aceitável, estimado em 25%. Em algumas regiões do Norte e Nordeste, as perdas ultrapassam 60%.
Setor produtivo
A vulnerabilidade também se reflete no setor produtivo. Levantamento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), com empresas de sua Câmara Temática de Água — que reúne companhias como Vale, Petrobras, Braskem e Unilever — mostra que 80% já enfrentaram problemas de disponibilidade hídrica em suas operações diretas.
Além disso, 75% possuem processos com alta ou altíssima dependência de água, e para 55% delas a escassez já é o principal desafio na gestão do recurso. “O risco não é futuro, ele já é uma realidade”, resume o estudo.
Nesse contexto, o El Niño não é visto como causa do problema, mas como fator de amplificação de riscos já existentes. Para especialistas em eficiência hídrica, o maior desafio não está apenas na escassez em si, mas na falta de preparação das empresas para lidar com ela.
“A água deveria ter o mesmo nível de monitoramento aplicado à energia e a outros insumos críticos. Empresas que acompanham seus indicadores hídricos conseguem agir preventivamente, antes que isso afete a operação. Quem espera a estiagem chegar para agir perde a janela mais importante, a da preparação”, afirma Felipe Mendes, sócio da T&D Sustentável, greentech brasileira especializada em eficiência hídrica.
A preocupação se estende para além da indústria pesada. Setores como academias, hospitais, supermercados, restaurantes e escritórios também dependem diretamente do abastecimento de água para manter suas atividades.
Nessas operações, qualquer interrupção ou aumento de custo impacta não apenas a operação, mas também a experiência do consumidor. Empresas menores, segundo especialistas, tendem a ser ainda mais vulneráveis por terem menos capacidade financeira de absorver choques desse tipo.
Monitoramento
Estudos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) indicam que grande parte do desperdício hídrico industrial está associada à ausência de monitoramento adequado, especialmente em processos auxiliares como higienização de equipamentos. Isso reforça a avaliação de que a crise hídrica não é apenas um problema ambiental, mas também um fator de risco operacional e econômico.
Com o segundo semestre de 2026 se aproximando e a perspectiva de eventos climáticos mais intensos e frequentes, a eficiência hídrica deixa de ocupar um espaço exclusivamente ambiental e passa a ser tratada como elemento central de estratégia e sobrevivência empresarial.