As projeções de um episódio de super El Niño em 2026 acendem o alerta para um cenário de seca mais intensa e aumento da periculosidade de grandes incêndios na Amazônia e no Cerrado, em um contexto que pode ampliar tanto as emissões de gases de efeito estufa quanto os impactos sobre a saúde pública. Diante desse risco climático, especialistas destacam que políticas permanentes de manejo do fogo se tornam ainda mais urgentes para reduzir danos ambientais e sanitários.
É nesse cenário que o Instituto Ar apresenta o policy brief “Manejo Integrado do Fogo no Brasil: Como consolidar o MIF como política pública permanente?”, documento que sistematiza avanços e desafios da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), criada em 2024. O material, recebido com exclusividade pelo Correio, foi debatido no 1º Simpósio Nacional sobre Gestão do Fogo (Sinafogo), que se encerra nesta sexta-feira (26/6), em Brasília.
Segundo a consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e coordenadora do Projeto Marajó Sem Fumaça, Patrícia Ferrini, o contexto climático torna o tema ainda mais crítico. “Já há uma grande preocupação com a chegada do El Niño, que tende a aumentar a seca e a vulnerabilidade da floresta. Isso eleva a probabilidade de incêndios mais intensos não só na Amazônia, mas também no Cerrado”, afirma.
Ela explica que o fenômeno não atua apenas sobre a ocorrência do fogo, mas sobre a própria resiliência dos biomas. “Quando a floresta está mais seca, há mais material combustível e o fogo se espalha com maior facilidade”, diz.
O estudo destaca que a nova política representa uma mudança de paradigma ao substituir a lógica baseada exclusivamente no combate por uma abordagem de prevenção, planejamento e uso controlado do fogo. Ferrini reforça que o policy brief “se propõe justamente a analisar os pontos de desenvolvimento e os gargalos da política”, que ainda está em fase de consolidação.
Um dos principais eixos do documento é a relação direta entre queimadas, emissões atmosféricas e saúde pública. Segundo o material, incêndios de grande escala são responsáveis por volumes expressivos de gases de efeito estufa e pela piora da qualidade do ar.
Ferrini chama atenção para a dimensão global do problema. “A poluição do ar é uma das maiores ameaças ambientais à saúde humana, responsável por cerca de 7 a 8 milhões de mortes prematuras por ano no mundo, superando até o tabaco”, destaca.
Ela destaca ainda que a fumaça das queimadas é composta por material particulado capaz de penetrar profundamente nos pulmões, afetando especialmente populações vulneráveis. “Crianças e idosos são os mais atingidos, com aumento de casos de asma, pneumonia e bronquite no curto prazo, e doenças cardiovasculares e câncer no longo prazo”, explica.
De acordo com o Instituto Ar, a integração do manejo do fogo com políticas climáticas e instrumentos como REDD+ e Pagamento por Serviços Ambientais é apontada como estratégica para reduzir emissões e fortalecer ações de prevenção.
Projeto-piloto
Na prática, o estudo também apresenta experiências de campo como o projeto Marajó Sem Fumaça, no Pará, considerado um piloto com potencial de replicação. Ferrini explica que a iniciativa combina brigadas voluntárias comunitárias e tecnologia de monitoramento em tempo real. “Estamos testando um modelo que integra inteligência artificial para detecção precoce de fumaça e atuação imediata das brigadas, reduzindo o tempo de resposta e, consequentemente, as emissões e os impactos à saúde”, afirma.
Sem Corpo de Bombeiros em Ponta de Pedras (PA), município que registrou 47 focos de queimadas em 2025, o projeto formou a brigada voluntária “Guardiões da Chama”, composta por 15 moradores locais. Também foi instalado um sistema de câmeras com IA para monitoramento em tempo real de focos de fumaça, com alcance de até 20 quilômetros, o primeiro desse tipo a ser utilizado por uma brigada em território amazônico.
Segundo ela, o projeto busca justamente testar soluções replicáveis para outras regiões da Amazônia. “É um piloto, mas com potencial de expansão, especialmente em territórios vulneráveis onde o tempo de resposta faz toda a diferença”, diz.
Entre as políticas públicas prioritárias, o policy brief aponta o fortalecimento das brigadas voluntárias e a criação de mecanismos de financiamento contínuo, além de uma integração mais efetiva entre ministérios, especialmente com a área da saúde, considerada, segundo Ferrini, ainda incipiente.
“Hoje já existe articulação com o Ministério do Meio Ambiente e da Defesa, mas ainda falta uma integração estruturada com o Ministério da Saúde, o que é fundamental diante dos impactos diretos da poluição do ar”, observa.
O documento conclui que o fortalecimento da governança, o financiamento permanente e a integração entre políticas ambientais, climáticas e de saúde serão determinantes para que o Manejo Integrado do Fogo responda adequadamente ao cenário de aumento de eventos extremos.
Ferrini reforça que a agenda ganha urgência diante das projeções climáticas. “O El Niño coloca o manejo do fogo no centro da discussão. A pergunta agora é como garantir que brigadas, tecnologia e políticas públicas estejam preparadas antes que os incêndios aconteçam.”