O Brasil corporativo avança de forma desigual na transição climática, sob pressão crescente por transparência com a chegada do IFRS S2, norma internacional que padroniza a divulgação de riscos e oportunidades ligados ao clima. Levantamento do Climate Finance Hub Brasil (CFH Brasil), divulgado nesta quinta-feira (9/4), indica que, apesar dos avanços em metas e governança, gargalos estruturais — sobretudo nas emissões indiretas — ainda limitam a prontidão das empresas.
O estudo avaliou a maturidade climática de 63 grandes companhias com operação no país, responsáveis por uma receita anual combinada de R$ 1,5 trilhão e 371 mil empregos diretos. Ao todo, essas empresas somam 801,2 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) em emissões agregadas.
Segundo o relatório, “as avaliações são fundamentadas em dados públicos divulgados pelas companhias” e utilizam a metodologia internacional ACT (Accelerate Climate Transition), que mede “o nível de ambição das estratégias e ações empresariais voltadas à transição climática”.
Apesar de mais da metade das empresas (57,4%) já reportarem metas climáticas, o alinhamento com padrões internacionais ainda é limitado. Apenas 19,7% possuem metas ativas ou compromissos formais validados pela Science Based Targets initiative (SBTi).
O principal entrave identificado está no tratamento das emissões indiretas, conhecidas como Escopo 3 — aquelas que ocorrem ao longo da cadeia de valor. Elas representam 82,5% do total de emissões das companhias analisadas, mas seguem subestimadas nas estratégias corporativas. Apenas 18% das empresas possuem metas específicas para reduzi-las, enquanto 13% sequer reportam ao menos uma categoria desse escopo.
O descompasso revela uma contradição central, embora as emissões mais relevantes estejam fora das operações diretas, ainda não são plenamente incorporadas à gestão climática. Na prática, isso pode comprometer a comparabilidade e a credibilidade dos dados no contexto das novas exigências internacionais de disclosure.
Por outro lado, o levantamento aponta sinais de avanço na governança. Quase metade das empresas (47,5%) já vincula metas climáticas à remuneração de executivos, indicando uma internalização crescente do tema na tomada de decisão.
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A análise setorial mostra ainda que segmentos intensivos em carbono, como energia, siderurgia e transporte, apresentam desempenho acima da média internacional em alguns casos. O setor elétrico, por exemplo, registra resultado 2,3 vezes superior ao benchmark global, impulsionado por uma matriz majoritariamente renovável.
Para o CFH Brasil, os resultados funcionam como um “benchmark para decisões de investimento e estratégias de transição”, além de subsidiarem políticas públicas e o financiamento climático.
No contexto da adoção do IFRS S2, que exige maior rigor na divulgação de riscos e oportunidades climáticas, o estudo sugere que o desafio das empresas brasileiras não está apenas em ampliar compromissos, mas em qualificar dados, integrar cadeias produtivas e transformar metas em planos efetivos de descarbonização.