O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) anunciou, nesta quarta-feira (16/9), aumento na taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 3,75% a 4% ao ano, em linha com a expectativa do mercado. A decisão dos 12 integrantes do Fomc, comitê de política monetária do Fed, foi unânime e o comunicado foi bastante curto, revelando a marca da nova gestão de Kevin Warsh, escolhido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para iniciar o ciclo de corte de juros que seu antecessor não conseguiu realizar.
Trata-se da primeira alta de juros pelo Fed desde julho de 2023. Naquele ano, a instituição ainda era comandada por Jerome Powell. E essa decisão é a primeira de mudança de taxa sob o comando Warsh.
O aumento de juros do Fomc ocorre em mais uma superquarta, quando a reunião coincide com a do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil, que, na contramão do Fed e do Banco Central Europeu (BCE), deve reduzir a taxa básica da economia (Selic), em 0,25 ponto percentual, hoje, para 13,75% ao ano.
O comunicado do Fed reforçou o duplo mandato duplo do Federal Reserve, consolidando maior preocupação com a inflação, uma vez que o índice PCE, principal referência inflacionária acompanhada pelo Fed, acumulou alta de 3,7% em 12 meses, permanecendo significativamente acima da meta de 2% perseguida pela instituição. O “Comitê mantém sua política de assegurar ampla liquidez de reservas no sistema bancário”, reforçou a nota.
“A atividade econômica vem se expandindo em ritmo sólido. Embora a incerteza permaneça elevada — em parte devido a desdobramentos geopolíticos —, os gastos domésticos têm demonstrado resiliência. O crescimento da produtividade é forte, e o investimento em capital, robusto. A geração de empregos tem acompanhado a evolução da força de trabalho, e a taxa de desemprego apresentou pouca variação”, destacou o comunicado.
Segundo o comunicado, a preocupação do Fed segue persistente com a inflação, que permanece elevada. “A medida de política monetária adotada hoje apoiará um retorno mais célere à meta de 2% estabelecida pelo Comitê. O Comitê assegurará a estabilidade de preços”, concluiu a nota.
Reperscussão
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sintra, destacou que a surpresa foi a sinalização dos materiais de projeções do Fed sinalizam mais uma alta de juros ainda neste ano. “Ontem, a previsão do mercado era de uma probabilidade de 48%, mas, agora, essa probabilidade de mais uma alta aumentou, podendo ocorrer em novembro ou em dezembro”, disse.
“Embora Kevin Warsh tenha deixado bem claro, desde o início do seu mandato, que ele não gosta de dar pistas sobre o que ele vai fazer à frente. Para o ano que vem, um banco central norte-americano deve continuar bem dividido. Tem gente falando em um corte em dois cortes, mas, de qualquer forma, podemos imaginar que, para 2027, eles estão imaginando reduções nas taxas de juros”, afirmou Cruz. Segundo ele, outras mudanças nas projeções ocorreram com as perspectivas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA, passando e 2% para 3%, neste ano, e de 3% para 4%, no ano que vem.
Na avaliação de Cruz, deverá haver pressão do mercado para que o Fed aumente os juros novamente na próxima reunião de novembro, “considerando que o barril do petróleo já esta US$105”.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, destacou o fato de a decisão de alta dos juros pelo Fomc ter sido unanime, reforçando a preocupação com o Fed com a inflação inflação, que permanece elevada. “No curto comunicado, o comitê reforçou que a atividade segue expandindo em velocidade sólida, mas que a incerteza permanece elevada. Ela também destacou que o material de projeções oficiais dos membros do comitê indicou que o Fed antevê mais uma elevação da taxa de juros em 2026, embora o comunicado oficial não tenha dado indicações ou forward guidances (indicações futuras).
“Para 2027, não há indício de expectativa de mais elevações no documento, com a projeção em 4,1% no final do ano. Isso é uma visão mais dovish (mais tolerante com a inflação) do que o precificado pelo mercado até então, com apostas majoritárias em mais duas altas no ano que vem”, destacou.
Rafael Pastorello, gerente de portfólio do Banco Sofisa, ressaltou que a decisão do Federal Reserve era amplamente esperada pelo mercado e reflete a persistência das pressões inflacionárias nos Estados Unidos. “Parte desse movimento está associado à recente alta dos preços do petróleo, impulsionada pelo agravamento das tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, seus aliados e o Irã. Paralelamente, cresce a atenção dos investidores em relação à trajetória fiscal norte-americana. O aumento acelerado da dívida pública federal tem ampliado os questionamentos sobre a sustentabilidade das contas públicas no longo prazo, contribuindo para a elevação dos prêmios de risco exigidos pelos investidores”, destacou.
O analista lembrou que a dívida bruta dos Estados Unidos já supera US$ 40 trilhões, “um patamar que ilustra a velocidade de deterioração fiscal observada nas últimas décadas”. Como comparação, o primeiro US$ 1 trilhão de dívida levou 192 anos para ser acumulado, enquanto o último trilhão foi adicionado em apenas cinco meses. “Esse tema tem ganhado relevância não apenas nos Estados Unidos, mas também em outras economias desenvolvidas. Em um contexto de deficits fiscais persistentes e necessidades crescentes de financiamento por parte dos governos, os investidores demandam remunerações mais elevadas para alocar recursos em títulos soberanos, especialmente nos vencimentos de longo prazo. Como consequência, as taxas das dívidas públicas de economias centrais permanecem entre os principais focos de atenção dos mercados neste segundo semestre”, acrescentou.
“A combinação entre inflação ainda pressionada, incertezas geopolíticas e preocupações fiscais tem mantido a curva de juros americana em patamares elevados. Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos, por exemplo, voltaram a superar o patamar de 5% ao ano recentemente, refletindo a percepção de maior risco fiscal e inflação para horizontes mais longos. Em outras palavras, o mercado passou a exigir um prêmio maior para financiar o governo americano, sinalizando uma piora na ancoragem das expectativas de longo prazo”, ressaltou Pastorello.
“Diante desse cenário, entendemos que a alta anunciada hoje dificilmente representará o último movimento de aperto monetário do Federal Reserve. Em nossa avaliação, permanece aberta a possibilidade de uma nova elevação de juros até o final de 2026, caso a inflação continue apresentando resistência à convergência para a meta e as expectativas de longo prazo permaneçam pressionadas. E as implicações desse ambiente se estendem para além da economia americana. Juros mais elevados nos Estados Unidos tendem a fortalecer o dólar globalmente, aumentar a atratividade dos títulos do Tesouro norte-americano e estimular a realocação de recursos de mercados emergentes para ativos considerados mais seguros”, adicionou.
Na avaliação de Pastorello, para países como o Brasil, esse movimento pode resultar em maior volatilidade cambial, condições financeiras mais apertadas e desafios adicionais para a condução da política monetária. “Além disso, uma curva de juros americana estruturalmente mais elevada tende a encarecer o custo do crédito global, reduzindo o apetite por risco e limitando o potencial de valorização dos mercados acionários ao redor do mundo”, concluiu.