Setor produtivo elogia redução dos juros para 13,75%, mas defende cortes maiores

Entidades da indústria consideram corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic como um "passo tímido" e alertam que juros reais (descontada a inflação) seguem em patamar restritivo para a atividade econômica

Crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press. Homem olha engrenagens com cifrão.

O Banco Central reduziu a taxa básica da economia (Selic) de 14% para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte de 0,25 ponto percentual consecutivo nos juros básicos desde março deste ano, mas o Comitê de Política Monetária (Copom), que decidiu o corte por unanimidade, não confirmou se dará continuidade no ciclo atual de afrouxamento monetário, iniciado em março deste ano.

A decisão foi elogiada pelo setor produtivo, que criticou a magnitude da redução, classificando o corte de “tímido” e defendeu a continuidade dos cortes na taxa Selic. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por exemplo, afirmou que a decisão do Copom de cortar apenas 0,25 ponto percentual na taxa básica é um “passo tímido” diante da gravidade do quadro socioeconômico do Brasil. A entidade destacou que, atualmente, cerca de 80 milhões de brasileiros e 9 milhões de empresas estão negativados e esses números “revelam o tamanho do endividamento acumulado sob o peso dos juros altos”.

Além disso, a Fiesp lembrou que como a economia está em desaceleração e o consumo das famílias estagnado desde 2024, a “capacidade de renda e a qualidade de vida das famílias continuam se deteriorando”. “Juros elevados por tempo prolongado, somados ao descontrole dos gastos públicos, sufocam famílias e empresas, travando os investimentos e a retomada do crescimento do Brasil”, afirmou Paulo Skaf, presidente da instituição, em nota.

A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), considerou o corte da Selic para 13,75% ao ano, “um passo necessário”, mas a taxa de juros no atual patamar ainda permanece em um “nível restritivo que encarece o crédito, adia investimentos e limita a capacidade de expansão da indústria do país.

A Fiemg ainda cobrou uma trajetória consistente de redução dos juros aliada ao equilíbrio fiscal, a fim de conseguir destravar investimentos, elevar a produtividade e fortalecer a competitividade da economia brasileira.“Mesmo com a redução, a Selic permanece em patamar elevado e continua encarecendo o crédito, restringindo investimentos e reduzindo a competitividade da indústria, ao aumentar o custo do capital, dificultar o financiamento de novos projetos e restringir recursos destinados à modernização e à ampliação da capacidade produtiva. A estabilidade de preços é indispensável ao crescimento econômico, mas deve ser acompanhada de condições que permitam ao setor produtivo investir, inovar e gerar empregos”, disse João Gabriel Pio, economista-chefe da Fiemg.

Desequilíbrio fiscal

A Federação também ressaltou que a redução sustentável dos juros não depende apenas da atuação do Banco Central. “O desequilíbrio das contas públicas e a adoção de estímulos fiscais e de créditos que pressionem a demanda reduzem a eficácia da política monetária e tornam o combate à inflação mais caro para empresas e trabalhadores”, destacou a nota, que defendeu maior coordenação entre as políticas fiscal e monetária. “Não é sustentável exigir que os juros carreguem praticamente sozinhos o peso do controle inflacionário, enquanto medidas expansionistas atuam na direção contrária”, ressaltou Pio.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), por sua vez, também fez um alerta sobre a questão fiscal e ressaltou que a decisão do Copom vai na direção correta, “contudo a queda ainda é insuficiente para a retomada do investimento produtivo no país”.

“O corte alivia apenas marginalmente o elevado grau de restrição imposto à economia, em um momento em que a atividade já dá sinais claros de perda de fôlego”, destacou a nota da entidade, lembrando que, no segundo trimestre de 2026, por exemplo, o Produto Interno Bruto (PIB) da indústria de transformação recuou 0,4%.

A instituição fluminense destacou também que a política monetária segue “significativamente restritiva, comprimindo a demanda e encarecendo o custo de capital”, porque, mesmo descontando a inflação projetada, o juro real permanece em torno de 8,5% ao ano, patamar cerca de três pontos percentuais acima da taxa neutra — nível que permitiria a economia crescer sem alimentar pressões inflacionárias.

“Nesse contexto, a Firjan considera fundamental a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário nas próximas reuniões. Para que essa trajetória seja sustentável, no entanto, é imprescindível avançar com firmeza no equilíbrio das contas públicas”, defendeu a nota. De acordo com a entidade, “apenas a consolidação fiscal será capaz de reduzir os prêmios de risco de longo prazo, destravar os investimentos privados e fortalecer a produtividade e a competitividade da indústria brasileira, viabilizando um crescimento duradouro, com inflação sob controle e juros baixos”.

Ao comentar a decisão de hoje do Copom, a Associação Paulista de Supermercados (Apas), avaliou que o BC deverá dar continuidade ao ciclo de redução da taxa básica de juros da economia, apesar de não haver essa sinalização na nota do Banco Central. Para Felipe Queiroz, economista-chefe da Apas, ainda há espaço para um corte ainda mais acentuado nos juros, considerando o comportamento recente da inflação. Segundo ele, os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram uma trajetória de desaceleração dos preços.

“Acreditávamos que havia espaço, inclusive, para um corte mais acentuado. Isso porque nós não temos um problema inflacionário. Os dados publicados pelo IBGE sobre o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), na semana passada, mostram que a inflação do País está controlada e numa tendência de desaceleração. Por outro lado, nós temos, atualmente, mesmo com a decisão recente do Copom, uma das maiores taxas reais de juros do mundo, que prejudicam o nível de atividade, prejudicam os investimentos e o consumo das famílias”, observou.

Excesso de cautela

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também classificou a decisão do Copom como “tímida”, além de “extremamente cautelosa”. A entidade defendeu que se mantenha o ciclo de flexibilização monetária devido ao fato de os juros continuarem em patamares restritivos para a atividade econômica.

“O excesso de prudência fica evidente diante do comportamento da inflação corrente. Há trajetória consistente de desaceleração, alcançando 4,22% no acumulado em 12 meses até agosto, e melhora das expectativas de mercado, indicando convergência gradual em direção à meta de 3% ao ano no horizonte relevante para a política monetária”, informou o comunicado da CNI.

“É essencial que o Banco Central dê continuidade ao ciclo de redução da Selic. Manter a taxa básica em patamar tão restritivo por período prolongado significa impor à economia um custo maior do que o necessário para assegurar a estabilidade de preços. Há espaço para avançar no ciclo de cortes sem comprometer a convergência da inflação para a meta”, disse Ricardo Alban, presidente da CNI, em nota divulgada pela entidade