Ata do Fed indica “vários” dirigentes favoráveis para alta de juros

Apesar de a ata do Fed indicar que vários dirigentes concordaram em aumentar os juros, se for necessário, analistas acreditam desaceleração recente pode ajudar a manter juros dos EUA estáveis

Apesar de três dos 11 dirigentes do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) ter votado pelo aumento de juros, na semana passada, na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), a ata do Fed, divulgada nesta quarta-feira (19/8), revelou que “vários” dirigentes demonstraram-se favoráveis em aumentar os juros para controlar a inflação, caso ela fique cada vez mais persistente na próxima reunião do Comitê. Contudo, analistas do mercado apostam que, apesar dessa divergência interna, juros norte-americanos podem ficar estáveis ao longo do ano devido aos indicadores recentes.

“Os participantes avaliaram que os indicadores de expectativas de inflação de médio e longo prazo — tanto os baseados no mercado quanto os provenientes de pesquisas — permaneceram em níveis compatíveis com a meta de 2% do Comitê. Vários participantes observaram que as medidas de expectativas de inflação de curto prazo, obtidas por meio de pesquisas, estavam mais elevadas do que antes do conflito no Oriente Médio”, destacou a ata.

“A maioria dos participantes previu que a inflação diminuiria ao longo do restante do ano, à medida que os efeitos das tarifas e dos aumentos anteriores nos preços de energia perdessem força; contudo, muitos participantes apontaram a possibilidade de que a inflação permanecesse elevada de forma mais persistente”, acrescentou o documento.

Na reunião do Fomc realizada na semana passada, a maioria dos integrantes decidiu pela manutenção da taxa básica de juros no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. O placar foi de nove votos favoráveis, liderados pelo novo presidente do Fed, Kevin Warsh, contra três votos que defenderam aumento de 0,25 ponto percentual.

Votaram a favor da manutenção dos juros atuais: Kevin Warsh, John C. Williams, Michael S. Barr, Michelle W. Bowman, Lisa D. Cook, Philip N. Jefferson, Anna Paulson, Jerome H. Powell e Christopher J. Waller. Enquanto isso, Beth M. Hammack, Neel Kashkari e Lorie K. Logan prefeririam elevar a faixa-alvo da taxa básica para 3,75% a 4% ao ano.

Na ata, a instituição reforçou a preocupação com a inflação acima da meta de 2% refletindo, em parte, choques de oferta que geraram aumentos de preços em certos setores, incluindo o de energia. O índice de preços ao consumidor norte-americano (PCE) recuou, no acumulado em 12 meses, de 4,1%, em maio, para 3,7%, em junho. “A atividade econômica está se expandindo em ritmo sólido, apesar da elevada incerteza decorrente, em parte, do conflito no Oriente Médio. O crescimento da produtividade e o investimento em capital são fortes. A geração de empregos tem acompanhado o ritmo da força de trabalho, e a taxa de desemprego apresentou pouca variação”, destacou o documento que ainda apontou preocupação com as pressões inflacionárias provocadas pela inteligência artificial (IA).

Analistas chamaram a atenção para esse trecho da ata, mas lembraram que, como houve mudanças nos indicadores após a reunião, o mercado está ponderando as apostas para setembro e até mesmo até o fim do ano. Jason Vieira, economista-chefe da Lev Intelligence, por exemplo, ressaltou que a divergência na decisão do Fed ultrapassou os três votos formais e o fato de que “vários” participantes apoiaram uma alta na própria reunião, e “muitos” avaliaram que um aperto adicional provavelmente seria necessário “caso a inflação não cedesse e alguns consideraram que as condições financeiras ainda não eram suficientemente restritivas para conduzir a inflação à meta de 2%”.

Mudança na fotografia

O economista lembrou que alguns membros também tinham a percepção de que as condições financeiras talvez não fossem suficientemente restritivas, assim como demonstraram preocupação com a inflação disseminada entre bens e serviços. Ele ainda destacou a possibilidade de o presidente do Fed revisar a frequência das reuniões do Fomc no calendário de 2026. Contudo, ressaltou que a fotografia utilizada na reunião ficou parcialmente defasada pelos dados posteriores.

“O Fomc considerava o mercado de trabalho estável, a atividade sólida e o consumo resiliente”, disse Vieira, citando dados como o payroll de julho mostrou perda de 23 mil vagas formais (abaixo das expectativas do mercado) e os dados de inflação também foram menos adversos, pois o índice de preços ao consumidor avançou 0,1%, com alta no núcleo de 0,2% , enquanto o índice de preços ao produtor ficou estável, e o núcleo subiu 0,2%. “Essas divulgações reduziram a urgência de aperto adicional, embora a composição dos preços ao produtor ainda mostre pressão nos serviços subjacentes”, explicou.

“A mensagem central é que o Fomc não encerrou a discussão sobre aumento de juros. A manutenção representou uma decisão de aguardar mais informações, e não uma declaração de que o ciclo de aperto foi definitivamente concluído”, disse Vieira. Para ele, a assimetria da ata é importante. “O risco central para a política monetária continuava sendo a inflação, mas o staff reconheceu simultaneamente riscos baixistas para atividade e emprego. O Fomc estava, portanto, diante de um cenário próximo de um choque adverso de oferta: inflação mais alta acompanhada de maior risco para o crescimento. O ponto mais hawkish (duro com a inflação) foi a amplitude do apoio potencial a novos aumentos”, emendou. Ele reconheceu que houve mudança nas apostas do mercado após a reunião e, agora, o cenário base do mercado é de 67% para a manutenção dos juros e de 33% para alta de 0,25 ponto percentual.

Gustavo Cruz, estrategista da Sincra Investimentos, por sua vez, ressaltou a divergência interna no Fomc,. “A ata mostra que alguns dirigentes já acham necessário subir juros, o Warsh realmente contra, preferindo aguardar. Tudo indica que teremos menos reuniões do Fed adiante”, disse.

Apesar das divergências internas no Fed, o economista-chefe do Banco Daycoval, Rafael Cardoso, também espera manutenção das taxas de juros norte-americanos, na próxima reunião de setembro, mas em decisão não unânime. “Nos EUA, os dados recentes revelaram quadro econômico estável e manutenção das incertezas em patamar elevado, sobretudo quanto à atuação futura do Fed, sob um novo framework caracterizado pela ausência de sinalização de política monetária futura (forward guidence)”, destacou.

“O posicionamento do Comitê reflete a postura prudente adotada pelo Federal Reserve, que pondera a resiliência do consumo doméstico e as incertezas tarifárias e geopolíticas. Divergindo do tom mais rígido de parte dos membros do comitê, reiteramos nossa visão de que a combinação entre uma desaceleração gradual da economia e um mercado de trabalho estável justifica a manutenção da taxa de juros no nível atual até o encerramento do ano. Contudo, o viés é na direção de alta de juros”, acrescentou.

Cardoso contou ainda que manteve a expectativa de manutenção de juros para este ano e aposta na redução dos juros norte-americanos a partir de 2027, para o intervalo de 3% a 3,25% anuais. “Reiteramos a projeção de dois cortes de 0,25 ponto percentual ao longo do próximo ano. A consolidação da trajetória de convergência lenta da inflação e a acomodação da absorção doméstica em resposta ao período prolongado de juros restritivos devem chancelar o início da flexibilização monetária ao longo de 2027”, explicou.

Efeitos da IA

Nancy Vanden Houten, economista-chefe para os Estados Unidos da Oxford Economics, destacou que que houve opiniões divergentes entre os membros do Fomc sobre o impacto da expansão da IA ​​na inflação: alguns o consideravam limitado a poucas categorias, enquanto outros afirmavam que ele “já estava gerando efeitos mais amplos nos preços ao impulsionar a demanda agregada, ou avaliavam que provavelmente o faria em breve”. “Algumas autoridades esperam que a adoção da IA ​​acabe exercendo pressão de baixa sobre os preços, mas não houve consenso sobre quanto tempo isso levaria para se concretizar”, destacou.

De acordo com Houten, ao discutirem a estabilidade financeira, alguns membros do Fomc concentraram-se nos riscos associados ao financiamento da rápida expansão da IA, observando que as altas avaliações de mercado das empresas expostas à IA refletiam uma avaliação otimista de lucros futuros e que qualquer decepção nesse aspecto poderia levar a uma “reprecificação generalizada” de ativos, apertando as condições financeiras. “Alguns membros também destacaram a medida em que os investimentos em IA estavam sendo financiados por meio de endividamento, criando exposição para investidores não bancários e bancos regionais”, destacou.

Em relação à redução no número de reuniões do Fed, Houten disse que o tema não foi surpresa, após relatos recentes, de que o presidente do Fed levantasse a questão de saber se o Fomc poderia se beneficiar de realizar seis reuniões por ano em vez de oito. Segundo ela, o argumento dele é que o Comitê teria mais informações para avaliar em cada reunião. Kevin Warsh pediu a opinião de outros membros sobre a ideia, mas afirmou que nada mudaria antes do fim de 2026.