Em ata mais curta, Banco Central deixa porta aberta para corte de juros

Apesar de admitir que houve aumento das incertezas e desancoragem das expectativas, BC reforça cautela mas não deixa muito claro se vai reduzir a taxa Selic em setembro, segundo analistas

Crédito: Raphael Ribeiro/BC divulgação
Em ata do Copom, Banco Central faz novo alerta sobre a importância do cumprimento de metas para evitar

Na ata da 280ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada na semana passada, o Banco Central chefiado pelo economista Gabriel Galípolo manteve o discurso cauteloso do comunicado e reconheceu que as incertezas no cenário atual aumentaram consideravelmente, apesar da desaceleração da inflação oficial no curto prazo. No documento, deixou a porta aberta para novo corte de juros, mas, segundo analistas, não está muito claro se a autoridade monetária vai mesmo reduzir os juros ou deixá-los no atual patamar na próxima reunião do Comitê em setembro.

Na reunião da semana passada, o Copom decidiu reduzir a taxa básica da economia (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano — foi o quarto corte consecutivo no ano. Ao justificar a medida na ata, divulgada nesta terça-feira (11/8), reforçou que a decisão “é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante, sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”. Além disso, o colegiado destacou que “o cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária”.

Dessa forma, não deixou claro se cortará ou manterá os juros no atual patamar na próxima reunião do Copom, em setembro. “O Comitê seguirá incorporando novas informações e acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, acrescentou a ata.

De acordo com o documento de cinco páginas e 19 parágrafos – mais enxuto do que a ata anterior, que tinha seis páginas e 25 parágrafos –, o Copom avaliou que as evidências de transmissão da política monetária contracionista para a atividade econômica continuam se acumulando de forma gradual, mas “a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo”. Na avaliação dos diretores do BC, os choques de oferta “têm exercido influência relevante tanto sobre a trajetória recente da inflação quanto sobre sua trajetória prospectiva”.

Dessa forma, o texto indicou que o Comitê ainda avalia que não deve reagir aos efeitos primários de choques dessa natureza, “mas que é necessário monitorar com atenção eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem”. “No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, reforçou a ata.

Em relação à política fiscal, o Comitê repetiu o mesmo parágrafo da ata anterior reforçando a preocupação com o aumento dos gastos do governo e o impacto deles na inflação. “O Comitê mantém a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, destacou o texto.

Na última reunião do Copom, o Banco Central piorou as projeções para a inflação oficial de 2027 e para o primeiro trimestre de 2028 (novo horizonte relevante monitorado pelo BC) apesar de reduzir levemente a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 5,2% para 5,1% — acima do teto da meta, de 4,50%. Nesta terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o IPCA de julho, que teve alta de 0,07%, acima das estimativas do mercado, que esperava alguma deflação ou variação mais perto de zero.

Análise dos economistas

O economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, considerou que a ata do Copom reforçou a cautela, mas deixou a porta aberta para cortes na Selic. “O texto reforça a necessidade de manter uma postura de serenidade e cautela, diante da desancoragem das expectativas, mas não fecha a porta para novos cortes de juros. A ata reconheceu que a transmissão da política monetária contracionista para a desaceleração da atividade ‘tem se acumulado gradualmente’, embora avalie que ‘a inflação permanece pressionada pela demanda’”, explicou, em comunicado aos clientes.

Na avaliação de Salles, uma novidade foi a discussão sobre os choques de oferta relacionados à elevação dos preços de energia. Segundo ele, o Copom afirmou que “não deve reagir aos efeitos primários de choques dessa natureza”, mas deve monitorar eventuais efeitos de segunda ordem e “reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem”. “Na nossa avaliação, esse trecho sugere, por um lado, que o Comitê está atento a novas pressões sobre a inflação, mas ao mesmo tempo reconhece que uma alta da inflação apenas em função de uma elevação de combustíveis não seria preocupante.

Além disso, diferentemente da ata anterior, o texto retirou a referência explícita a ‘pausas e retomadas do ciclo de calibração’ e afirmou que “a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário”, acrescentou. Para o analista, a ata segue compatível com o cenário de que a Selic pode continuar estável em 14% ao ano até dezembro, apesar de o Copom ter deixado a porta aberta para o corte de juros. “A desancoragem das expectativas, a assimetria altista do balanço de riscos e a inflação ainda pressionada recomendam cautela. Ainda assim, não descartamos novos cortes de juros, já que a comunicação deixou em aberto os passos futuros de política monetária”, afirmou.

Ao considerar que a ata do Copom foi mais curta, objetiva e, em geral, neutra, Alberto Ramos, diretor de Pesquisa para a América Latina do banco norte-americano Goldman Sachs, o “Copom demonstrou preocupação com as expectativas de inflação desancoradas”. “O Copom está monitorando atentamente o desancoramento adicional observado nas expectativas de inflação de longo prazo e tem discutido as possíveis causas desse movimento nas expectativas. Esperamos que a reunião de meados de setembro seja crucial para um novo corte na taxa Selic, mas, neste momento, vemos pouco espaço para acomodar medidas adicionais significativas no curto prazo”, explicou.

Na avaliação de Ramos, uma deterioração adicional das expectativas para 2027 e 2028 ou a ausência de melhorias nas projeções de inflação condicional no horizonte relevante para a política monetária aumentariam a probabilidade de uma manutenção da taxa de juros na próxima reunião do Copom. “Nesta fase, avaliamos que as probabilidades de uma manutenção conservadora/prudente da taxa de juros em setembro são ligeiramente superiores a 50%, mas sinais de uma moderação mais consistente da atividade econômica, ceteris paribus, provavelmente levariam a política monetária a um afrouxamento adicional no curto prazo”, afirmou Ramos, em comunicado aos clientes.

Gustavo Cruz, estrategista da Sincra Investimentos, lembrou que o comunicado do Copom foi mais bem recebido do que o da reunião anterior, e, por conta disso, o Banco Central não mudaria a linguagem na ata. Na avaliação dele, a decisão também mostra que o BC pode continuar a cortar, mas que poderiam pausar se as condições econômicas piorarem.

“O discurso deles de não reagir ao primeiro efeito do choque nos preços, da guerra, mostra uma lógica parecida ao dos bancos centrais pelo mundo, porque eles esperam o fim do conflito no Oriente Médio ainda neste ano. Isso pode incentivar alguns economistas a revisarem um pouco mais para baixo a taxa Selic para o fim do ano”, explicou Cruz.

Monica Araújo, economista-chefe da Invest Smart XP, também ressaltou que a ata mais curta foi mais direta e manteve o tom de cautela do comunicado da semana passada, mas ela ainda não se arrisca em apostar no próximo movimento do Copom. “Entre os destaques está o balanço de riscos, que continua assimétrico, considerando incerteza geopolítica e suas consequências para a política monetária nos países desenvolvidos e os desafios de expectativa de inflação futura fora da meta, fiscal preocupante e ainda um mercado de trabalho aquecido”, destacou.

Segundo Araújo, o Copom ressaltou que a política monetária contracionista tem transmitido algum efeito para a atividade econômica, ainda que em uma velocidade gradual, mas sem impactar de forma relevante a inflação prospectiva no horizonte relevante. “Com isso, a política monetária se mantém a nível restritivo, reiterando que a calibração da magnitude do ciclo de calibração dependerá da evolução do cenário descrito. Por isso, não acreditamos ainda em um quadro claro sobre o próximo movimento do Copom, apesar do reconhecimento de que a atividade econômica mostra claros sinais de desaceleração. Os próximos dados de preço e do ritmo da economia serão determinantes para consolidar ou não um novo corte da Selic”, explicou a economista.

Em relatório da Warren Investimentos, os analistas Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró também concordaram que a mensagem principal da ata foi deixar a porta aberta para cortes nos juros para a próxima reunião do Copom em setembro, apesar do cenário de incertezas pela frente. “A ata ajusta a comunicação, expõe os desafios para a política monetária e transmite mensagem de firmeza e serenidade. A Selic permanecerá em patamar restritivo para garantir que a inflação convirja para a meta, mas não é possível descartar que o BC siga calibrando a taxa com novos cortes de 25 pontos-base”, afirmaram.

Na avaliação dos analistas, quanto aos próximos passos, a principal indicação é que o Banco Central segue vendo um cenário de aumento na incerteza, desancoragem das expectativas, riscos elevados em torno do cenário e necessidade de manutenção da Selic em patamar restritivo. “É com esse pano de fundo que trabalhará para preservar a restrição adequada para trazer a inflação à meta. Porém, dado o nível atual de restrição, não é possível descartar novos cortes no processo de calibragem. É uma ata com tom mais duro, que reforça a mensagem de que a Selic ainda deverá permanecer em patamar restritivo e que os riscos estão elevados”, acrescentou o texto. “O BC reconhece os efeitos do processo de desinflação até o momento e entende que o ciclo de calibração pode continuar, mas com bastante cautela. É um BC disposto a manter o ritmo lento na calibração, mas sem dar indicação explícita disso”, concluiu o documento.