Fazenda reduz projeção para o PIB deste ano de 2,3% para 2%

Ministério da Fazenda reduz projeção para o crescimento do PIB deste ano, para 2%, e também revisa para baixo estimativa do IPCA, para 4,9%

ministro da Fazenda Dario Durigan/ credito: Washington Costa

Após manter otimismo nas últimas projeções macroeconômicas, inclusive, no Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa), o Ministério da Fazenda divulgou, nesta terça-feira (22/9), a revisão na estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, de 2,3% para 2%, no Boletim MacroFiscal, elaborado pela Secretaria de Política Econômica (SPE) da pasta. Para o próximo ano, a pasta reduziu a estimativa de expansão do PIB de 2,5%, no boletim anterior (de julho), para 2,3%, no boletim atual.

As novas estimativas da pasta comandada pelo ministro Dario Durigan, contudo, seguem acima das estimativas do mercado. Conforme dados do boletim semanal Focus, do Banco Central, divulgado ontem, a mediana das previsões para o PIB deste ano segue sendo corrigida para baixo e, nesta semana, recuou de 1,89% para 1,88%. E, para 2027, passou de 1,45% para 1,43%. Mas analistas sinalizam que o PIB do próximo ano poderá ainda ter um desempenho inferior às atuais projeções e mais perto de 1%.

A SPE também reduziu a projeção para a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 5,1%, no boletim de julho, para 4,9%, neste mês. Para 2027, a secretaria elevou a estimativa para o indicador, de 3,6% para 3,8% e sinalizou uma expectativa de aceleração da carestia em geral, especialmente dos alimentos, em grande parte, devido ao impacto do fenômeno climático El Niño no próximo ano, principalmente.

“O cenário de choque externo ficou mais persistente, com aumento do prêmio de risco global e que pressiona as taxas de juros mais longas”, destacou a titular da SPE, Débora Freire. Ela lembrou que o aumento do preço do petróleo tipo Brent, referência no mercado internacional, fez a equipe da secretaria elevar a projeção para o barril de US$ 79,20 para US$ 87,7, dado ainda abaixo do valor atualmente negociado, acima de US$ 100. “Nos últimos dias, tivemos uma nova rodada de preços do petróleo tipo Brent, depois do fechamento da grade”, afirmou Freire, durante a apresentação aos jornalistas.

A secretária ainda disse que a pasta acompanha a previsão de aumento dos juros norte-americanos, devido às pressões inflacionárias nos Estados Unidos e no mundo, o que acaba elevando a projeção de juros longos para o Brasil também. “Os preços de importação de produtos nos EUA tem aumentado consideravelmente e esse cenário de juros longos mais elevados tem contribuído para elevar os juros no mercado doméstico também devido à competição por poupança global que afeta os emergentes, elevando o custo do capital”, afirmou.

Ao comentar sobre a revisão para baixo da previsão do PIB deste ano, a secretária reconheceu que o processo de desaceleração do PIB do segundo trimestre contribuiu para essa mudança nas projeções. Ela também disse que o trimestre atual deverá apresentar perda de força na atividade, de forma geral, e impulso do custo do crédito tem contribuído para a queda da demanda agregada devido à “taxa de juros da economia (Selic) continuar no patamar restritivo”.

“A gente espera desaceleração do PIB no terceiro trimestre também”, disse a secretária. A nova projeção da SPE para o PIB do terceiro trimestre na margem (em relação ao trimestre anterior) passou 0,4% para 0,2%, confirmando, assim, uma perda de força maior em relação aos três meses encerrados em junho, quando o PIB cresceu 0,5% na mesma base de comparação.

Em relação ao mercado de trabalho, a secretária comentou que os dados mostram recentes que há uma acomodação, mas sem deterioração, apesar de o desemprego seguir baixo em relação aos números de anos anteriores. “Esse é o colchão de sustentação da demanda doméstica”, observou. Freire reconheceu que há uma preocupação com a pressão da inflação de serviços, que tem apresentado queda e ajudando na revisão para baixo da estimativa do IPCA deste ano, apesar de a bandeira amarela de energia estar em vigor, mas admitiu que o Bônus de Itaipu contribuiu para a desaceleração do ritmo de alta da inflação.

“O cenário externo ainda incerto e com pressão sobre as taxas de juros longas e parte do comportamento da nossa taxa de juros longa depende desse cenário e um cenário doméstico, do ponto de vista de atividade e de desaceleração, o cenário ainda está benigno, com uma inflação bem comportada, implicando na revisão para baixo nas nossas estimativas de inflação”, resumiu a secretária.

Na área fiscal, os técnicos da SPE informaram que há uma expectativa de maior receita em 2027 para a entrega de um resultado positivo nas contas públicas no Ploa do próximo ano. A Receita Federal divulgou hoje também uma nova arrecadação recorde de tributos em agosto, mas as contas públicas continuam fechando no vermelho e a meta fiscal só é cumprida graças aos abatimentos.

“No quadro fiscal, a estratégia de consolidação fiscal e consistente vem dando resultado e vamos conseguir entregar um Ploa superavitário”, disse o subsecretário de Política Fiscal, Rodrigo Toneto, com relação ao Ploa de 2027, que tem estimativas superestimadas, de acordo com analistas o mercado.

Toneto afirmou que as expectativas do mercado para o resultado primário das contas do governo federal, neste ano, estão convergindo para as projeções da Fazenda. “Estou bem convencido em entregarmos superavit no ano que vem”, afirmou, em tom otimista, sem citar o aumento de gastos das medidas recentemente anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como o reajuste de 15,04% no Bolsa Família, que terá um impacto de R$ 22,7 bilhões, acima da estimativa de superavit de R$ 18,6 bilhões previsto no Ploa de 2027, após os abatimentos de mais de R$ 64 bilhões nas despesas, como precatórios (dívidas judiciais sem recurso da União) para o cumprimento da meta fiscal.

A projeção para o deficit primário deste ano passou de R$ 53,88 bilhões, no boletim anterior, para R$ 45,35% bilhões, no boletim atual, enquanto a estimativa para a dívida pública bruta deste ano passou de 86,5% do PIB para 87% do PIB, revisão que foi minimizada pela secretária Débora Freire como um “ajuste pontual”.

No fim da entrevista, a secretária Débora Freire admitiu que haverá impacto do reajuste do Bolsa Família e disse que a grade atual ainda não considera o reajuste nas projeções atuais. “Pode haver alguma mitigação ou transferência neste ano, mas o prazo é curto. E no próximo ano, esperamos impactos mais relevantes (do reajuste do Bolsa Família) por conta de o prazo ser maior, mas não há conflito com a política monetária que está em processo de desaceleração”, afirmou.

A secretária evitou comentar se há uma possibilidade de reversão do superavit previsto no Ploa para o próximo ano. “A decisão do reajuste foi tomada após a abertura de espaço fiscal dado e precisamos lembrar que há uma modificação da base para o próximo ano, porque traz uma perspectiva de acomodação de aumento de despesas. Hoje, o cenário que a gente trabalha para a mensagem modificativa do Ploa de 2027, a perspectiva é de realocação de despesas para o Bolsa Família. O cenário vai ficar mais claro com a divulgação do relatório bimestral e consequentemente essa discussão vai ter um melhor locus no bimestral”, afirmou ela, em referência à atualização do Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas, que será apresentada pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento, na próxima quinta-feira (24/9), e, consequentemente, a mensagem modificativa do Executivo para o Congresso para alteração do Ploa de 2027, que foi enviado ao Legislativo no fim de agosto.