A piora do cenário externo, devido ao aumento das incertezas em relação o término do conflito no Oriente Médio, e da perspectiva de maior impacto da política monetária restritiva na atividade econômica estão fazendo as instituições financeiras e consultorias reduzirem a perspectiva de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. Com isso, crescem as projeções para alta de apenas 1% no próximo ano, algo que, considerando o carrego estatístico do PIB deste para o do ano que vem, de 0,3 ponto percentual pelas estimativas da Tendências Consultoria, significa um crescimento efetivo no PIB do próximo ano ainda mais fraco, de 0,7%.
Na sexta-feira (18/9), o Banco Bradesco divulgou as novas projeções macroeconômicas e revelou a redução de 1,3% para 1% na previsão de crescimento do indicador de formação de riqueza do país em 2027. O dado segue ainda mais abaixo da mediana das estimativas do mercado coletadas pelo Banco Central no boletim Focus, divulgado ontem, de 1,43%, abaixo dos 1,45% da semana anterior, revelando o aumento do pessimismo em relação à atividade econômica no ano que vem.
De acordo com Fernando Honorato, o piora do cenário para 2027 pressupõe um ajuste fiscal mais forte, independente de quem seja o vencedor da corrida presidencial deste ano. “Os juros altos contratam o quadro de PIB revisado, e tem a perspectiva de um resultado do agronegócio mais fraco também”, explicou. “A divulgação do PIB do segundo trimestre confirmou o que os dados mensais já sugerem: uma desaceleração mais intensa da economia, mesmo em um período em que diversos estímulos fiscais estão em vigor. Os dados do início do terceiro trimestre indicam que essa tendência de moderação continua e são poucos os vetores de crescimento para o próximo ano”, destacou o relatório do Bradesco divulgado aos clientes.
Com a nova projeção de 1% para alta do PIB de 2027, o Bradesco entra no grupo das previsões mais conservadoras para a atividade econômica no próximo ano, como MB Associados, Tendências Consultoria e XP Investimentos. Analistas reconhecem que, além da desaceleração de 1,1% para 0,5% no PIB do primeiro trimestre para o segundo, a prévia do PIB do Banco Central, o IBC-Br, apresentar recuo de 0,2% em julho, as previsões para o crescimento do PIB deste ano seguem sofrendo revisões constantes para baixo atualmente e estão abaixo de 2%.
O Bradesco, por exemplo, revisou a estimativa de alta do PIB deste ano de 1,9% para 1,7%. No boletim Focus semanal, a mediana das estimativas do mercado para o PIB deste ano passou de 1,93% para 1,89%, na semana passada, e, nesta semana, para 1,89%. Enquanto isso, as projeções do governo no Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2027 enviado ao Congresso Nacional no fim de agosto seguem otimistas, em torno de 2,5%, mesmo percentual previsto para este ano, mas, a equipe econômica deverá atualizar, amanhã, essa previsão para 2,3% após a revisão do Boletim MacroFiscal, anunciada, ontem, pela Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda.
Contudo, essa nova projeção para o PIB da SPE para 2027 ainda segue acima das estimativas do mercado. Contudo, um PIB mais inflado deve ajudar o governo a fechar as contas por conta de um PIB maior implicar também em uma receita mais inflada para abarcar o aumento de R$ 22,7 bilhões nos gastos do ano que vem com o reajuste de 15,04% no Bolsa Família. Esse valor é superior à previsão de superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) de R$ 18,6 bilhões previstos no Ploa de 2027, antes do abatimento das despesas da meta fiscal.
A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, contou que acaba de revisar a previsão do PIB de 2027, de 1,2% para 1%, e que reduziu de 1,9% para 1,8% a perspectiva de alta do PIB deste ano. Segundo ela, essas mudanças nas projeções também consideram que o efeito juro alto, apesar de a massa de renda continuar crescendo justamente por conta do Bolsa Família.
Ribeiro também não descartou a necessidade de um ajuste fiscal mais duro no ano que vem, porque ele será inevitável devido à piora do quadro fiscal, que apresenta forte crescimento da dívida pública bruta, atualmente em 82,5% do PIB. “Quem vencer as eleições será forçado a conter as despesas, e isso vai bater no PIB, além dos juros altos. E o cenário internacional também não contribuirá para um crescimento mais forte na atividade”, resumiu.
Piora do quadro fiscal
As previsões dos analistas indicam um cenário mais crítico para a atividade econômica e para as contas públicas em 2027, independente de quem vencer as eleições. E isso vinha sendo previsto antes mesmo de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciar medidas que vão elevar as despesas, como o reajuste do Bolsa Família e a inclusão das canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com fontes do governo, Lula não abrirá mão de continuar concedendo aumento real no salário mínimo, se vencer as eleições, porque essa é uma das principais medidas da campanha e que ajuda a reduzir a desigualdade social, que segue elevada no país.
Mas o aumento de gasto público deve também dificultar o trabalho do Banco Central para entregar a inflação no centro da meta, de 3%, até o primeiro trimestre de 2028. As projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) podem estar diminuindo neste ano, mas, para 2027, não param de aumentar para os anos seguintes. Até a SPE elevou, ontem, de 3,6% para 3,8% a previsão para o IPCA do ano que vem, em grande parte, devido à expectativa de pressões inflacionárias geradas pelo fenômeno climático El Niño.
Enquanto isso, as projeções do mercado para a inflação de 2027 também estavam sendo revisadas para cima antes desse reajuste no Bolsa Família, e, em alguns casos, podem superar o teto da meta, de 4,50%, o que poderá comprometer o ciclo de cortes da taxa básica da economia (Selic), que passou de 14% para 13,75% ao ano, na semana passada, e, nesta semana, conforme dados do boletim Focus, a mediana das projeções do mercado para a taxa Selic no fim deste ano passou a incorporar mais um corte após as eleições, para 13,50%. Já o Bradesco prevê ainda mais cortes na taxa Selic até o fim do ano, encerrando dezembro em 13,25% anuais.
Por outro lado, Alexandre Andrade, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI) destacou ainda que as projeções do governo no Ploa estão bastante otimistas e as recentes medidas anunciadas pelo governo que demandam mais gastos do governo neste ano e no próximo, como o reajuste do Bolsa Família e a inclusão das canetas emagrecedoras no SUS ainda vão pressionar os limites de despesa do arcabouço e a meta de resultado primário, exigindo remanejamentos de outras despesas, além de um superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) maior para estabilizar a dívida pública.
“No caso da meta de primário, dá para compensar com alguma fonte de arrecadação. Sobre o tamanho do ajuste, nós projetamos um resultado primário estrutural deficitário em 1,4% do PIB, em junho de 2026, e temos uma conta de que o superavit primário necessário para estabilizar a dívida bruta é de 2,1% do PIB. Então, esse ajuste necessário seria da ordem de 3,5 pontos percentuais do PIB. Difícil acreditar que isso seja alcançado em apenas um ano”, alertou.
Em relação ao reajuste do Bolsa Família, Andrade ainda destacou que o governo tem dito que economias com medidas administrativas em despesas previdenciárias vão permitir acomodar essa despesa contratada. Mas, é bom lembrar que o Bolsa Família é uma despesa obrigatória de caráter continuado. As economias de curto prazo podem financiar o aumento do gasto com programa a curto prazo, mas a médio e a longo prazos é difícil acreditar que a fonte de custeio venha daí”, explicou.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, classificou o reajuste de 15,04% no Bolsa Família como medida “claramente eleitoreira” e lembrou que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) fez o mesmo na campanha eleitoral de 2022, na tentativa de reeleição. “Não funcionou com Bolsonaro em 2022, e pode ser que não funcione, agora, com o Lula devido às questões políticas conturbadas e da crise no Supremo Tribunal Federal (STF). Fica, agora, um ponto importante de que o atual presidente ainda tem uma dificuldade na campanha, mesmo com todo o gasto que tem feito desde o ano passado”, avaliou.
As projeções da MB para o PIB de 2027 já estavam em 1% há mais tempo do que as demais instituições e, segundo Vale, essa estimativa considera uma “desaceleração natural” por conta dos juros elevados e da inadimplência das famílias, além do cenário internacional mais adverso. Na avaliação dele, se Lula escolher um ministério mais heterodoxo como vem sinalizado, no caso de ser reeleito, o cenário econômico poderá ainda ser mais crítico do que a previsão atual. Vale, inclusive, não descarta o risco de recessão.
“O próximo governo, seja quem for, terá mais dificuldades na área fiscal e uma recessão mais explícita pode acontecer se o governo continuar achando que superavit primário é bobagem. Com o reajuste do Bolsa Família agora, se Lula ganhar as eleições, vai ter uma conta bastante complexa para pagar no ano que vem, especialmente, se o ajuste fiscal não for feito”, alertou Vale. Na avaliação dele, “as contas públicas também não param em pé” com as propostas prometidas pelo candidato Flávio Bolsonaro (PL).
O economista Ecio Costa, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por sua vez, também criticou o reajuste no Bolsa Família em plena reta final da campanha eleitoral, uma vez que ele não estava previsto no Ploa de 2027 enviado ao Congresso em agosto. “Essa irresponsabilidade fiscal está sendo comprovada mais uma vez em ano eleitoral. Governos populistas sempre fazem a mesma coisa e gastam irresponsavelmente”, lamentou ele, lembrando que esse aumento de gastos vai implicar uma taxa Selic mais alta por mais tempo, apesar da desaceleração em curso.
“Todos vão arcar com esse aumento de gastos, por meio dos juros mais altos”, pontuou. Costa lembrou ainda que os juros reais (descontada a inflação) são os mais altos do mundo. Nas perspectivas do Focus, a taxa Selic segue em dois dígitos até 2029, pelo menos.