Declarações conflitantes de Flávio geram desconfianças sobre plano econômico

Com aumento promessas de impacto fiscal, Flávio Bolsonaro deixa dúvidas sobre a viabilidade de ajuste prometido que atraiu o mercado financeiro. Economista ainda alerta sobre os riscos de uma extrema-direita nos Poderes Executivo e Legislativo

Crédito: MAURO PIMENTEL / AFP - Attila Kisbenedek/AFP

A poucos dias do segundo turno das eleições, as recentes declarações do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) têm apresentado medidas contraditórias que geram desconfianças sobre o plano econômico, de acordo com a economista Monica de Bolle, economista sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), think-tank baseado em Washington. Ela também faz um alerta sobre os riscos de um governo de extrema-direita no país.

Na avaliação dela, o senador está adotando uma estratégia de “gerar o caos”. Além de anunciar programas impacto fiscal na contramão da agenda liberal que foi comprada pelo mercado financeiro, como volta do Perse — programa subsídios criado na pandemia da covid-19 e encerrado pelo governo atual — o senador anunciou, ontem, o “Vira Pix, programa que pretende devolver aos brasileiros parte do dinheiro gasto com contas, prestações e taxas em parceira com a Caixa Econômica Federal.

“A forma como Flávio anunciou esse plano para reduzir o endividamento das famílias quebraria a Caixa e geraria um enorme impulsionamento da dívida pública”, alertou a escritora e economista. Monica de Bolle já acompanhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) negociações de dívidas de países com o organismo multilateral.  Além dela, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que vem sendo criticado por não coordenar um programa que também não para em pé, criticou, ontem, as novas propostas de Flávio e disse que é impossível de se cumprir.

Ao analisar o plano da campanha de Flávio enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Monica de Bolle apontou problemas problemas e propostas conflitantes. “No plano de Flávio, o Bolsa Família não pára em pé, criando uma situação de extrema vulnerabilidade para o país que não será bom para ninguém”, frisou. Além disso, ela disse que na proposta de reduzir o rombo fiscal, é “repleta de contradições”. 

A economista descreveu no livro “Como matar a borboleta azul”, de 2016, a sucessão de erros da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff que levou a economia brasileira à uma recessão na qual o país mergulhou entre 2015 e 2016, e, agora, tem mostrado bastante preocupação com as propostas econômicas de Flávio. Segundo ela, são muito pouco explicadas nessa reta final para as eleições do segundo turno de domingo e não param em pé.

Em vídeo publicado nas redes sociais, a economista do PIIE ainda afirmou que a equipe econômica liderada por Daniella Marques — que não é economista, e sim administradora — “é sofrível”.  “A equipe econômica é fraca e sem muita bagagem. Há muita mentira, como em relação ao fim da escala 6×1”, afirmou, em referência à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, aprovada na quarta-feira passada (14/10) no Senado Federal por 75 votos a favor e apenas um 1%.

Vale lembrar que Daniella Marques, coordenadora do programa econômico bolsonarista presidiu a Caixa, após o antecessor dela, Pedro Guimarães, ser demitido devido ao escândalo de denúncias de assédio sexual. Mas, para Monica de Bolle, comandar “por alguns meses” o banco público não foi suficiente para desenhar um bom plano econômico para o programa que pretende “vencer o atraso”.

O plano de governo de Flávio, lembrou a economista, também prevê uma proposta alternativa à PEC do fim da 6×1, para incluir as negociações por hora entre trabalhador e empregado. “Essa proposta de 76 páginas tem o pior desenho possível para o trabalhador ao prever”, disse ela, citando o capítulo que prevê o negociado prevalecer sobre o legislado no programa da campanha do senador. “O Flávio não está nem aí para o trabalhador, porque ele não sabe o que é trabalhar”, lamentou, lembrando que o candidato do PL não teve a experiência de trabalhar com carteira assinada.

Apesar de ter sido questionada várias vezes, a assessoria de Flávio não comentou sobre as críticas às propostas do plano econômico, e não explicou o fato de as contas não fecharem após os recuos nas propostas de corte de gastos junto com a promessa do “tesouraço”, que prevê redução de impostos, ou seja, de arrecadação. Até o discurso de Flávio sobre o Bolsa Família, reajustado pelo presidente Lula em 15% desde ontem, já mudou e, agora, ele tem dito que não vai mexer no programa e ainda vai manter o aumento real do salário mínimo, que é uma das principais promessas de Lula.

Risco Flávio

E, apesar de toda a empolgação do mercado financeiro com Flávio por achar que ele conseguiria fazer um ajuste fiscal, a economista do PIIE, fez um alerta sobre o risco de um governo e um Congresso de extrema-direita a partir de 2027. Ela, inclusive, apontou semelhanças com a trajetória de Viktor Órban, ex-ditador da Hungria, considerado “irmão” pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Quando chegou ao poder, Órban acabou com as instituições, calou a imprensa e só foi derrubado nas eleições de abril deste ano após 16 anos.

Co-autora do livro “The New Economic Nationalism”, Monica de Bolle destacou no livro o movimento do ex-líder húngaro, cujas promessas liberais na economia permitiram uma recuperação econômica do país europeu entre 2014 e 2019, mas com custos elevados para a sociedade e a democracia. “Órban implementou uma combinação de medidas econômicas que uniam nacionalismo econômico, intervenção estatal e políticas pró-negócios, frequentemente chamada de Orbanomics. Embora a recuperação econômica só tenha começado em 2014, as previsões alarmantes de que suas políticas levariam a um desastre financeiro não se concretizaram”, destacou o texto do livro. “A recuperação econômica, combinada com a implementação de um amplo programa de obras públicas, impulsionou esse crescimento”, acrescentou.

Mas os autores destacaram que, além de exercer controle sobre a mídia, “Orbán tomou medidas para corroer a independência do sistema judiciário húngaro”. “Ele implementou mudanças que facilitaram à maioria governista no parlamento a nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional sem consultar a oposição. O número de juízes do Tribunal Constitucional foi ampliado de 11 para 15, permitindo que o partido governista indicasse novos membros. Como resultado, o Tribunal Constitucional tornou-se cada vez mais dominado por apoiadores do governo”, destacou o texto.

De acordo com a pesquisadora do PIIE, o crescimento da extrema-direita representada por Flávio Bolsonaro é resultado da complacência após a eleição de Lula em 2022. “Boa parte das pessoas achou que havia afastado o fantasma da extrema-direita e, para a grande surpresa, isso não ocorreu. E, na verdade, a extrema-direita fez um movimento orgânico de manifestação nas plataformas digitais. E isso ocorreu debaixo do nariz de todo mundo e ninguém do governo atual se preparou o suficiente para enfrentar esse cenário. Agora é correr atrás do prejuízo, em um curto espaço de tempo”, disse. E, mesmo se Lula vencer, vai ser chumbo grosso pela frente, porque o Congresso Nacional está tomado pela extrema-direita. “O mundo virou e, agora, tudo vai ser difícil em qualquer cenário”, lamentou.

*Fotos de Flávio e de Viktor Órban