A economia brasileira deve desacelerar ainda mais neste ano e no próximo, à medida que juros reais muito elevados continuam a pressionar a atividade econômica, e, para melhorar esse quadro, a política fiscal deverá passar por um aperto após a eleição presidencial, destacou a Fitch Ratings no relatório “A economia brasileira está perdendo fôlego”, divulgado nesta quarta-feira (21/10).
De acordo com o relatório da agência de classificação de risco, após um crescimento médio de 3% ao ano no período de 2022 a 2025, a taxa de expansão da economia brasileira passou para menos de 2% neste ano. Essa desaceleração, na avaliação da entidade, foi puxada pelo consumo privado e pelo investimento, enquanto as exportações e o consumo do governo apresentaram maior resiliência.
“Os juros reais muito elevados têm representado um entrave significativo ao consumo e ao investimento”, ressaltou o documento. O relatório apresenta projeções mais otimistas do que as do mercado coletadas pelo Banco Central no boletim Focus.
A agência destacou os dados do Indicador de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), conhecido como prévia do PIB, que avançou 1,5% no acumulado de janeiro a agosto deste ano. Além disso, ressaltou que um ajuste fiscal precisará ser feito independentemente de quem vencer as eleições, devido ao desequilíbrio cada vez mais forte nas contas públicas. Caso contrário, a política monetária seguirá mais contracionista, ou seja, os juros permanecerão elevados por mais tempo.
“Independentemente do vencedor da eleição presidencial, espera-se um endurecimento da política fiscal no próximo ano, dado que o deficit nominal supera 8% do PIB e a relação dívida pública/PIB ultrapassou 80%. Esse cenário exercerá pressão sobre a atividade econômica”, alertaram os autores do relatório, Franziska Palmas e Brian Coulton citando dois indicadores que têm gerado preocupação diante do aumento de despesas em ritmo mais acelerado do que a receita do governo.
A Fitch Ratings prevê que o crescimento do PIB sofrerá um novo arrefecimento nos próximos anos, atingindo 1,9%, em 2026, e 1,4%, em 2027. Enquanto isso, as estimativas do mercado estão mais pessimistas do que as da agência, pois a mediana das projeções coletadas pelo Banco Central no boletim Focus, preveem altas no PIB de 1,83%, neste ano, e de 1,42%, no próximo.
Conforme as estimativas da Fitch, a política monetária adotada pelo Banco Central também continuará freando o crescimento. A instituição estima que a taxa básica da economia (Selic), atualmente em 13,75% ao ano, chegará a 11,75% anuais, no fim de 2027. A mediana das estimativas do mercado, contudo, prevê a Selic encerrando o próximo ano com taxa anual de 12%, levemente acima do previsto pela agência.
“A taxa de juros poderá sofrer reduções mais expressivas caso se concretize um ajuste fiscal significativo; nesse cenário, os rendimentos de longo prazo poderiam recuar mais rapidamente”, destacou o relatório. Contudo, a entidade considera que é provável que o Banco Central mantenha a política monetária em patamar restritivo, uma vez que as autoridades estão preocupadas com o fato de as expectativas de inflação ainda superarem a meta de 3%. “Enquanto isso, a inflação no setor de serviços — mais sensível às pressões internas de preços e estagnada em 6% ao longo do último ano — também é motivo de preocupação para as autoridades”, acrescentou o relatório.