A queda da taxa básica da economia (Selic) pela terceira reunião seguida do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, não representa um alívio para o setor produtivo, mas também gera apreensão sobre a questão fiscal, pois, segundo as entidades, o aumento dos gastos públicos ajudam a impedir uma redução maior nos juros. Elas também criticaram o atual patamar de juros do Brasil, que segue elevado e é um dos maiores do mundo, prejudicando os investimentos do setor produtivo.
Nesta quarta-feira (17/6), o Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, pela terceira reunião consecutiva, e, na avaliação da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), infelizmente, o nível dos juros brasileiros segue em patamar restritivo, penalizando a capacidade de investimentos e a competitividade do setor produtivo.
De acordo com a entidade, o fortalecimento da credibilidade fiscal é fundamental para garantir a continuidade do processo de flexibilização monetária de forma estruturada e crível. “Somente com harmonia entre a política fiscal e monetária será possível atrair investimentos e aumentar a produtividade e a competitividade do setor industrial”, destacou o economista-chefe da Firjan, Jonathas Goulart. Segundo ele, o contexto atual da indústria nacional é desafiador, pois, além da elevação dos custos de insumos e dos fretes, decorrentes da instabilidade geopolítica global, o custo de capital é fator fundamental que reduz a competitividade dos produtos brasileiros no mercado interno e externo.
Conforme os dados da entidade, esse cenário adverso é percebido principalmente pela indústria de transformação, que permanece 16% abaixo de seu máximo histórico, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora o atual cenário externo imponha desafios econômicos adicionais à economia, a construção de condições favoráveis ao crescimento sustentável depende, sobretudo, de fatores domésticos.
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) engrossou o coro sobre os riscos fiscais atrapalhando o ritmo de redução dos juros pelo Banco Central. Segundo a entidade, a redução da taxa Selic representa um avanço para a atividade econômica, mas os juros ainda seguem em nível restritivo e o aumento dos gastos públicos tende a dificultar o trabalho do Banco Central no controle da inflação.
“A expansão dos gastos públicos e a adoção de medidas de estímulo à demanda tendem a reduzir a eficácia dos juros como instrumento de controle inflacionário, dificultando um processo mais consistente de redução da Selic”, alertou a entidade. Para a Fiemg, a continuidade de um ciclo sustentável de queda dos juros depende do fortalecimento dos fundamentos macroeconômicos e do compromisso com a responsabilidade fiscal. “A entidade defende uma estratégia econômica capaz de conciliar controle da inflação, equilíbrio das contas públicas e estímulo à produção. Esse ambiente é fundamental para ampliar os investimentos, aumentar a produtividade e fortalecer a competitividade da indústria brasileira, criando condições para um crescimento econômico mais robusto e duradouro”, destacou o comunicado.
Prejuízos do setor produtivo
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por sua vez, avaliou que o corte de juros não reverte prejuízos do setor produtivo devido ao quadro de estagnação dos investimentos e da asfixia financeira das empresas e das famílias. Segundo a entidade, o novo nível da Selic está 3,1 pontos percentuais acima do patamar de equilíbrio, de 11,1% ao ano, que conseguiria balancear o pleno emprego e o controle da inflação.
“Enquanto os juros reais continuarem tão elevados, beneficiando diretamente o capital especulativo, o custo do crédito vai seguir inviabilizando os planos de produção e expansão da indústria. Da mesma forma, a medida se mostra ineficaz em aliviar o orçamento das famílias, das empresas e do próprio governo, que seguirão estrangulados pelo serviço da dívida, adiando a retomada do consumo e do investimento e a superação do fantasma da inadimplência”, disse o presidente da CNI, Ricardo Alban, em nota da entidade. Ele ainda defendeu que, diante da perspectiva de formalização do acordo entre os Estados Unidos e o Irã para o fim do conflito no Oriente Médio, haveria espaço para o Banco Central intensificar o ciclo de cortes da Selic na próxima reunião do Copom.
Na avaliação da CNI, considerando que os efeitos da política monetária sobre a atividade econômica e a inflação levam de seis a 18 meses para se concretizarem, respostas excessivamente agressivas a choques temporários de oferta funcionam como uma “superdosagem da medicação”. “Na prática, os juros elevados se refletem em custos econômicos desproporcionais sem benefícios adicionais significativos no controle da inflação, especialmente quando o choque se dissipa naturalmente antes que os efeitos plenos da taxa de juros se materializem”, informou a nota da entidade.
Para a instituição, os juros reais próximos de 10% ao ano mantêm o Brasil entre os detentores das maiores taxas de juros do mundo. “Com isso, o país enfrenta grave fragilidade macroeconômica, caracterizada pelo endividamento de empresas, famílias e governo, sufocando o capital para investimento e de giro corporativo, comprimindo a renda disponível e restringindo o consumo das famílias, além de encarecer a rolagem da dívida pública”, acrescentou o comunicado.
“Vale mencionar que, em ano eleitoral, o aumento de gastos do governo federal deve contribuir para o crescimento da economia, estimado em 2% pela CNI. A política fiscal, no entanto, atrapalha a eficácia da política monetária e aumenta o impacto na expansão da dívida pública bruta, que alcançou 80,4% do PIB, em abril. Segundo o Banco Central, uma redução de um ponto percentual na taxa Selic diminuiria a dívida bruta do governo geral em R$ 58,4 bilhões no horizonte de 12 meses”, complementou a nota.