A tentativa de construir a imagem de um Bolsonaro mais moderado tem encontrado um obstáculo difícil de contornar: o próprio comportamento de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Enquanto a oposição e parte da campanha do senador tenta vendê-lo como uma versão mais suave do pai, o pré-candidato à Presidência da República repete o script político que consagrou Jair Bolsonaro: lives semanais para se comunicar direto com o eleitorado, ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e um discurso de confronto institucional que soa cada vez menos como moderação e mais como herança familiar.
Mesmo manual de comunicação
Uma das marcas registradas do governo Jair Bolsonaro foram as transmissões de lives semanais nas redes sociais, geralmente às quintas-feiras, para driblar a imprensa tradicional, pautar a semana política e falar diretamente com a base. Flávio adotou exatamente a mesma estratégia: mantém encontros semanais transmitidos em suas redes, nos quais comenta notícias, defende suas pautas e ataca adversários sem medir palavras, replicando o formato que o pai consolidou como principal canal de comunicação institucional durante os quatro anos de mandato.
A escolha não é apenas estética, mas também reproduz a lógica bolsonarista de comunicação direta e permanente com o eleitorado, sem intermediação da imprensa, sem “filtros”.
Os ataques ao Supremo
O episódio mais recente do parlamentar reforça esse padrão. No sábado (18/7), durante evento de pré-campanha em Vitória, Flávio afirmou que não vai “abaixar a cabeça para tirano nenhum”, fala dirigida ao ministro Alexandre de Moraes. A declaração veio um dia depois de Moraes ampliar as restrições de visita a Jair Bolsonaro, mantendo a proibição de Flávio ver o pai por 90 dias, em decisão relacionada à divulgação de uma “carta aos brasileiros” atribuída ao ex-presidente. No mesmo discurso, o senador chegou a chamar o ministro de “sem alma” e comparou sua atuação à de um “demônio”.
O discurso é quase uma releitura do que o próprio Jair Bolsonaro disse em setembro de 2021, durante a manifestação de 7 de Setembro na Avenida Paulista. Na ocasião, o então presidente chamou Moraes de “canalha” e declarou publicamente que não cumpriria mais decisões do ministro, fala que levou o presidente do STF à época, Luiz Fux, a classificar publicamente o descumprimento de decisões judiciais como possível “crime de responsabilidade”. Em 2025, a mesma fala de Jair chegou a ser reproduzida no plenário da Primeira Turma do Supremo durante o julgamento do ex-presidente.
O episódio de 2021 não foi isolado. Em maio de 2022, já em campanha à reeleição, Jair Bolsonaro voltou a insinuar que poderia descumprir ordens da Corte, dizendo publicamente que só lhe restavam duas opções diante de decisões desfavoráveis: entregar o cargo ao Supremo ou recusar-se a cumpri-las.
A coincidência de linguagem entre pai e filho, a classificação do Judiciário como poder autoritário, o tom de desafio institucional, o confronto aberto com o Supremo em momentos de pressão, não é um gesto isolado de Flávio. É a repetição de um roteiro que Jair Bolsonaro usou diversas vezes ao longo do mandato.
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A percepção do eleitor
Como divulgado pelo Blog, os números da pesquisa Genial/Quaest mais recente, divulgada em 15 de julho, confirmam essa percepção crescente entre o eleitorado. Apenas 29% dos entrevistados consideram Flávio mais moderado que o restante da família Bolsonaro, o menor índice desde o início da série histórica, iniciada em março. Do lado oposto, 54% discordam dessa avaliação, o maior patamar já registrado, e 17% não souberam opinar.
A queda é acentuada: o indicador vinha de 39% em maio e já soma uma retração de 10 pontos percentuais em três meses. Segundo o cientista político Felipe Nunes, à frente do instituto, parte da explicação recente está ligada ao desgaste do senador após o conflito público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que teria afastado parte do eleitorado independente que Flávio tentava conquistar.
A mesma pesquisa, com 2.004 entrevistas presenciais entre 10 e 13 de julho, também mostra Lula à frente de Flávio no cenário estimulado de primeiro turno (40% a 28%) e vencendo em todos os cenários testados de segundo turno.
A combinação dos dois elementos, o formato de comunicação herdado do pai e a repetição do enfrentamento direto ao STF, ajuda a explicar por que a narrativa de “opção mais moderada” perde força. Os números da Quaest expõem que o eleitorado tem percebido esse movimento: quanto mais Flávio recorre ao legado do pai em momentos de crise, menor fica a fatia da população que o enxerga como algo diferente de um “bolsonarismo raíz”.