Por Elias Tavares — A divulgação da distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para as eleições de 2026 trouxe novamente ao centro do debate um tema que costuma dividir opiniões: o financiamento público das campanhas eleitorais. Ao todo, serão destinados quase R$ 5 bilhões aos partidos políticos brasileiros. O número, por si só, impressiona. Mas o mais interessante não está apenas no montante. Está no que ele revela sobre a estrutura de poder existente no país.
A primeira reação de grande parte da população costuma ser de espanto. Em um país que ainda convive com enormes desafios na saúde, educação, segurança pública e infraestrutura, é natural que a destinação de bilhões de reais para campanhas eleitorais provoque questionamentos. No entanto, antes de transformar a discussão em um simples embate entre ser favorável ou contrário ao fundo, é importante compreender sua lógica e suas consequências políticas.
O Fundo Eleitoral não é distribuído igualmente entre os partidos. Apenas uma pequena parcela é repartida de forma uniforme. A maior parte dos recursos leva em consideração critérios como o desempenho eleitoral anterior, o tamanho das bancadas na Câmara dos Deputados e a representação no Senado Federal. Em outras palavras, o sistema premia quem já possui força política consolidada.
Por isso, não surpreende que os maiores beneficiários sejam justamente os partidos que dominam o cenário nacional. O PL receberá a maior fatia dos recursos, seguido pelo PT e pelo União Brasil. Juntos, esses partidos concentrarão bilhões de reais em capacidade de financiamento eleitoral. Mais do que isso, terão condições muito superiores para estruturar campanhas, ampliar presença digital, contratar equipes especializadas e fortalecer candidaturas nos estados.
Mas talvez o aspecto mais relevante dessa distribuição esteja longe da disputa presidencial. Enquanto o debate público costuma se concentrar na polarização entre direita e esquerda, os números mostram a força silenciosa dos partidos de centro. União Brasil, PSD, MDB, PP, Republicanos e Podemos, somados, controlarão uma parcela gigantesca dos recursos disponíveis. Isso ajuda a explicar por que essas legendas seguem exercendo papel decisivo na formação de governos, na construção de maiorias parlamentares e na definição dos rumos da política nacional.
Existe ainda outro ponto pouco discutido. O dinheiro não chega diretamente aos candidatos. Os recursos são entregues às direções nacionais dos partidos, que definem posteriormente quem receberá mais ou menos verba. Na prática, isso transforma os presidentes partidários e as executivas nacionais em personagens centrais do processo eleitoral. Muitas vezes, o poder de decidir a distribuição dos recursos pode ser tão relevante quanto o exercício de um mandato parlamentar.
Esse mecanismo produz um efeito importante: fortalece as estruturas partidárias e aumenta a influência das cúpulas nacionais. Candidatos competitivos tendem a receber mais recursos. Candidatos considerados menos viáveis recebem menos apoio. É uma lógica que busca eficiência eleitoral, mas que também concentra poder e reduz o espaço para a renovação política.
Por outro lado, é preciso reconhecer que o financiamento público surgiu como resposta a um problema real. Após a proibição das doações empresariais pelo Supremo Tribunal Federal, o país precisou encontrar uma alternativa para financiar campanhas eleitorais. O objetivo era reduzir a influência direta do poder econômico privado sobre o processo democrático. O Fundo Eleitoral nasceu justamente desse contexto.
A questão central, portanto, não é discutir apenas a existência do fundo, mas avaliar seus resultados. O modelo atual fortalece os partidos? Sim. Reduz a dependência de grandes grupos econômicos? Também. Mas a pergunta que permanece é se o retorno oferecido ao cidadão brasileiro é proporcional ao investimento realizado.
Quase R$ 5 bilhões serão destinados à política em 2026. Trata-se de uma decisão legal, aprovada pelo Congresso Nacional e respaldada pela legislação eleitoral. Ainda assim, em uma democracia madura, a legalidade não elimina a necessidade do debate público.
Afinal, quando falamos de recursos públicos, a pergunta mais importante continua sendo a mesma: o dinheiro está sendo bem empregado? Essa reflexão não é apenas sobre eleições. É sobre a qualidade da nossa democracia e sobre o modelo político que queremos construir para o futuro do Brasil.
Elias Tavares é cientista político e estrategista eleitoral
Este texto não reflete necessariamente a opinião do blog Em alta na política e do Correio Braziliense