Países discutem saída dos fósseis em Santa Marta

Conferência com mais de 60 países tenta destravar impasse histórico nas negociações climáticas

Queima de gás na extração de petróleo. Foto: Getty Images.

A 1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, aberta nesta sexta-feira (24/4), em Santa Marta, marca uma tentativa de avançar em um dos temas mais sensíveis da agenda climática global, a redução da produção e do consumo de petróleo, gás e carvão.

Segundo o Observatório do Clima, o encontro sinaliza que um grupo relevante de países decidiu enfrentar um debate que, ao longo de três décadas de negociações internacionais, permaneceu sem consenso. Esses combustíveis respondem por cerca de 68% das emissões globais de gases de efeito estufa e por quase 90% das emissões de dióxido de carbono.

Historicamente, as Conferências do Clima da ONU evitaram avanços concretos sobre o tema. Com exceção da COP28, não houve consenso sobre a eliminação dos combustíveis fósseis. O impasse se repetiu na COP30, realizada em Belém, que terminou sem menção ao fim desses combustíveis no documento final.

Para o Observatório do Clima, esse cenário indica a necessidade de um novo nível de governança, baseado em iniciativas lideradas por países dispostos a avançar, mesmo sem consenso global. Brasil e Colômbia são apontados como protagonistas desse movimento. Enquanto o governo brasileiro trabalha na construção de um “mapa do caminho” global para a transição, a Colômbia sedia o encontro como espaço de articulação internacional.

Mais de 60 países confirmaram participação, incluindo grandes produtores de combustíveis fósseis, como Brasil, Canadá, México e Noruega, além da Austrália. A conferência também deve reunir mais de 3 mil representantes da sociedade civil, incluindo cientistas, parlamentares, setor privado e comunidades tradicionais.

Tensões geopolíticas

Em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas e enfraquecimento do multilateralismo, o próprio encontro já é visto como um avanço. “O simples fato da conferência existir já é um sucesso”, afirma Claudio Angelo. Segundo ele, conflitos recentes reforçam o custo econômico e geopolítico da dependência de petróleo e gás.

Embora não faça parte formal das negociações da ONU, dois resultados são esperados. O primeiro é a elaboração de um relatório que dimensione o problema e aponte caminhos para a transição entre países dispostos a avançar. O segundo é a mobilização da opinião pública e da sociedade civil, com potencial de ampliar a coalizão internacional favorável ao fim dos combustíveis fósseis.

Para Stela Herschmann, o encontro pode influenciar diretamente a construção do plano global liderado pela presidência da COP30. “Santa Marta pode, e deve, influenciar esse processo, tanto pelas sinergias quanto pelos desdobramentos nas negociações formais”, afirma.

A conferência ocorre até 29 de abril, com os dois últimos dias dedicados a reuniões de alto nível. A expectativa é que o encontro funcione como ponto de partida para uma articulação internacional mais estruturada em torno da redução dos combustíveis fósseis, tema considerado central para o enfrentamento da crise climática.