Copom sob pressão de todos os lados

Em meio à deterioração das previsões e da descancoragem das expectativas, Banco Central decide, hoje, se corta ou mantém a taxa Selic em 13,75% ao ano. Maioria das apostas do mercado é pela manutenção

Enquanto o Senado Federal apreciava a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, aprovada em dois turnos, ontem, um pouco mais longe da Esplanada dos Ministérios, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, deu início à penúltima reunião do ano, primeira após os resultados das eleições de 25 de outubro, ontem, sob clima tenso. Apesar de o ministro da Fazenda, Dario Durigan, insistir na defesa de um ajuste fiscal “gradual”, ele segue não convencendo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém o suspense sobre o nome para comandar a Fazenda, e governistas pregam corte de juros sem uma proposta crível de ajuste fiscal para contornar o mau humor do mercado — que piorou drasticamente as estimativas macroeconômicas. As projeções para inflação e juros futuros estão desancoradas e, agora, não há perspectiva de o governo conseguir zerar o rombo fiscal em 2028, conforme o boletim Focus, do próprio BC, divulgado ontem, prevendo deficits sucessivos nas contas públicas, pelo menos, até 2029. “As projeções no modelo do BC devem piorar bastante”, disse Luis Leal, economista-chefe da G5 Partners. Ele prevê manutenção da Selic em 13,75% ao ano.

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E, em paralelo à reunião do Copom, o debate em torno do artigo do economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, continuou repercutindo nas redes sociais, acendendo o alerta sobre o problema da desindexação da dívida pública proposto por ele para permitir uma redução dos juros. Segundo a economista Monica de Bolle, pesquisadora senior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), a proposta de Lara Resende “é um bom começo para o diagnóstico do problema”, tanto da indexação quanto da inércia inflacionária na economia e na dívida pública. “A proposta do André é um bom caminho, mas é preciso tratar o diagnóstico e construir soluções que não precisam ser as citadas por ele, porque há exemplos de vários países que permitem uma reestruturação da dívida pública sem que haja calote, apenas mudando a composição”, explicou a economista à coluna. Ela participou de renegociações de dívidas de países latino-americanos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Piora de cenário

As projeções macroeconômicas do mercado coletadas pelo Banco Central e divulgadas, ontem, no boletim semanal Focus indicam inflação para 2027 acima do teto da meta, de 4,50%, e desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,76%, neste ano para 1,20%, em 2027. A mediana das expectativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu de 4,34% para 4,76%. E a mediana das expectativas para a taxa Selic subiram em todos os anos. Para 2026, aumentou de 13,25% para 13,50% anuais; para 2027, de 11,75% para 12%; para 2028, de 10% para 11%; e para 2029, de 10% para 10,25%. Enquanto isso, o número de inadimplência diante dos juros altos bate novo recorde, de 84,2 milhões de pessoas, segundo a Serasa Experian. Já a mediana para o resultado primário piorou também em todos os anos das projeções do Focus. Para 2026, passou de -0,48% do Produto Interno Bruto (PIB) para -0,49% do PIB, e, para 2027, passou de -0,30% do PIB para -0,40% do PIB.

MP aciona TCU e cita esta coluna

Diante do forte aumento de gastos do governo às vésperas da eleição, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) acionou a Corte de Contas para adotar medidas de avaliação e acompanhamento da política fiscal brasileira a fim de garantir o equilíbrio fiscal previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). “Considerando que o crescimento do gasto e do endividamento público ocorrido nos últimos anos não for devidamente tratado no próximo governo, prevê-se a perpetuação/majoração de efeitos econômicos nefastos à população e a manutenção da política de juros elevados pelo Banco Central”, pontuou o procurador-geral Lucas Furtado, na representação protocolada, ontem, citando esta coluna publicada no último dia 30 no Correio. “É preciso ‘olhar com lupa os dados das contas públicas e agir rápido na escolha do futuro ministro da Fazenda'”, escreveu Furtado. Ele também defendeu “a necessidade de ajuste fiscal relevante para estabilizar o endividamento público”.

A pedra no sapato de Davi e Marinho

O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP) tenta pavimentar o caminho para a reeleição em fevereiro de 2027, quando o Congresso Nacional terá maioria dos assentos ocupados por partidos da oposição. E nesse caminho, surgiu uma pedra grande no sapato, a senadora e líder do PP, Tereza Cristina (MS), que reafirmou a intenção de disputar a presidência do Senado, e já vem dialogando com Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, que também tem intenção de entrar na disputa. Na avaliação do cientista político Arilton Freres, CEO da Indexa, ainda há muito tempo para negociações até a eleição da presidência do Senado e do Congresso, mas o governo vai tentar agir para salvar a candidatura de Davi. “Mas não será fácil”, alertou, em entrevista à coluna. Para ele, o maior prejudicado com o lançamento da candidatura da ex-ministra da Agricultura será Rogério Marinho. “Ela sinaliza para uma ampliação. Sai de dentro da mesma federação partidária que o Davi Alcolumbre e é muito competitiva. Marinho já vinha de um desgaste grande desde a fuga do Flávio e deve ver sua candidatura sepultada muito em breve”, avaliou Freres.

Paim, o otimista

Após comemorar o resultado das eleições, o senador Paulo Paim (PT-RS) fez um apelo interessante aos colegas da política durante pronunciamento, ontem, na sessão plenária do Senado Federal, com a apreciação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública na pauta, defendendo o diálogo e a democracia. “Aprendi uma coisa: a política não se faz com ódio nem com radicalismo, sectarismo; A política se faz com diálogo, respeito e capacidade de ouvir, inclusive quem pensa diferente”, destacou. “Eu sei que fazer oposição é legítimo, como é também quem está na situação, e é necessário, porque assim se escreve a democracia. A democracia precisa de oposição, precisa de fiscalização, precisa de críticas e de cobranças, mas tem que ter também uma base sólida de quem elegeu o Presidente da República.”

Coluna Brasília-DF publicada nesta quarta-feira no Correio Braziliense