O eleitor brasileiro deixou vários recados nas urnas além da virada histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o candidato derrotado Flávio Bolsonaro, de acordo com especialistas ouvidos pela coluna. Mostraram uma maioria da população com memórias ruins da ditadura que tenta preservar a nossa jovem democracia e as instituições da República, e que grande parte do eleitorado não quer dar carta branca para o gasto irresponsável de um Estado paquidérmico e custoso para os cofres públicos. Logo, Lula e seus aliados ainda precisam tomar um choque de realidade de que não venceram sozinhos e não podem insistir no “negacionismo fiscal” e nem cometer os mesmos erros de mandatos anteriores. “Para o bem do país, sem fiscal não tem social”, resumiu a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
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Na avaliação do economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e pesquisador do Policy Center for the New South, é muito importante que o governo abandone o negacionismo dos problemas fiscais logo e execute um verdadeiro plano de ajuste, “de forma mais eficaz como ocorreu no primeiro mandato de Lula, com o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci”. “Espero que evitem isso (o negacionismo fiscal), até porque não é preciso algo muito radical”, afirmou ele, citando cortes de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) recomendados pelo mercado para estabilizar a dívida pública. “Um ajuste desse tamanho não é realista. Não queremos uma Argentina por aqui, nem precisar”, afirmou à coluna, em referência ao forte risco de recessão no país governado por Javier Milei ainda neste ano. O Itaú Unibanco, por exemplo, acaba de reduzir de 2% para 0,8% a estimativa para o crescimento do PIB argentino neste ano — metade da nova previsão para o PIB brasileiro, de 1,6%.
Eleição dos rejeitados
Silvia Matos, do Ibre, reforçou o alerta de que as urnas mostraram que “o governo venceu perdendo”, diante do alto nível de rejeição do petista e de seu rival nas últimas pesquisas de opinião, que superavam 50%. “Logo, não há nada endossado, porque foi a eleição dos rejeitados”, resumiu ela, ressaltando a importância de uma agenda econômica preocupada com o equilíbrio fiscal. “Não há como controlar a inflação e os juros se o governo insistir na inconsistência do ponto de vista macroeconômico”, frisou.
Oposição e bolsonarismo acéfalos
O país segue dividido, com a direita e o bolsonarismo desnorteados e buscando novos nomes para encabeçar a liderança deles após a fuga cinematográfica de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, onde não terá apoio incondicional de Donald Trump, que pode sair derrotado das urnas na terça-feira. Além disso, é bom lembrar que, apesar da segunda derrota para Lula nas eleições presidenciais, o bolsonarismo não morreu.
Terceira via e consensos
O resultado das urnas também deixa espaço para uma articulação da terceira via, posicionada mais ao centro, sem extremismos e com boas ideias para o futuro do país, segundo os analistas. Eles lembram que Lula não tem sucessor ainda e, com o exílio dos dois filhos de Jair Bolsonaro, a família não terá outra chance. “Vai ser muito importante se o Brasil conseguir voltar para o centro e deixar os extremos”, defendeu a economista Monica de Bolle, pesquisadora senior do Peterson Institute for International Economics (PIIE). Ela reconheceu que não há razão para o alarmismo da Bolsa, “porque o país não está quebrando”. “O mercado precisa amadurecer”, disse. Contudo, ela admite a necessidade de ajustes e de alguém de peso no Ministério da Fazenda. “Lula precisa de um nome que injete confiança, e ele precisa buscar o centro e o consenso com aliados que o apoiaram na reeleição”, alertou.
“Queimou a largada”
Favorito original do mercado financeiro antes de Flávio Bolsonaro, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicano), já queimou a largada ao lançar-se para a corrida presidencial de 2030. “É muito precipitado. Antecipar a disputa pode transformá-lo em alvo da esquerda e, sobretudo, do fogo amigo bolsonarista. O risco é desgastar sua liderança antes mesmo de a corrida eleitoral começar”, alertou o sociólogo Arilton Freres, CEO da Indexa Pesquisas. “Sempre é bom lembrar que o último governador de São Paulo, que se movimentou nesse sentido, foi João Dória, que acabou nem sendo candidato”, acrescentou.
Um nome de equilíbrio na direita
Após a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos e o constrangimento dos integrantes e líderes do partido do candidato derrotado, o PL, a oposição, que será maioria no Congresso ficou sem um líder para chamar de seu. Nesse vácuo, um dos nomes cotados é o da senadora Teresa Cristina (PP-MS), que pediu serenidade e respeito ao resultado das urnas no meio da confusão da fuga de Flávio enquanto apoiadores questionavam o resultado. Ela ainda afirmou que a “direita precisa se unir aos esforços” e fiscalizar o atual e futuro governo. “A liderança da oposição ainda passará por rearranjos, e não será fácil consolidar um nome para esse papel”, avaliou Arilton Freres, da Indexa. Para ele, “de fato, o nome da senadora é mais equilibrado”.
“Sem rumo”
Apesar de ter um plano complexo traçado para fugir do Brasil para os EUA, o senador Flávio Bolsonaro bateu o martelo sobre sair do país nas horas seguintes ao perder a eleição de segundo turno. A decisão deixou a família Bolsonaro sem rumo, pois com o pai preso e o irmão, Eduardo Bolsonaro já em solo norte-americano, o núcleo familiar ficou desestruturado, o que afeta as pretensões políticas. Aliados do clã têm dito que os familiares já consideram a possibilidade de estarem fora da próxima eleição presidencial e de um enfraquecimento rigoroso do poder político da família, abrindo espaço para expoentes da direita moderada atraírem eleitores hoje considerados mais radicais.
Coluna publicada na edição deste domingo (01/11) do jornal Correio Braziliense com a colaboração de Renato Souza