Após as eleições de domingo, com a vitória do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as perspectivas para economia começaram a piorar drasticamente com a perspectiva de mais incertezas no cenário doméstico. No fim da tarde desta sexta-feira (30/10), o Itaú Unibanco atualizou os cenários macroeconômicos, revelando uma perspectiva de uma desaceleração mais forte na atividade econômica em meio a pressões inflacionárias e dólar mais elevado.
Além de reduzir a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), deste ano, de 1,7% para 1,6%, a equipe de analistas liderados pelo ex-diretor do Banco Central Diogo Guillen cortou de 1,2% para 0,6% a estimativa de alta do PIB do próximo ano. O relatório ainda sinalizou que que o BC não terá mais espaço para reduzir a taxa básica da economia (Selic), atualmente em 13,75% ao ano, patamar que deverá continuar até o fim de 2027.
As previsões para a inflação também foram revisadas para 5,2%, neste ano, e para 6,1%, no próximo. Antes, as estimativas do banco estavam em 5,1% e 4,6%, respectivamente. A taxa de câmbio média para o dólar subiu de R$ 5,30 para R$ 5,40, em 2026, e de R$ 5,5 para R$ 5,6, em 2027.
“A revisão reflete o aumento do prêmio de risco doméstico em meio a maiores incertezas sobre a trajetória das contas públicas e sobre a perspectiva de ajuste fiscal nos próximos anos”, destacou o documento assinado pelo novo economista-chefe do Itaú. Guillen e sua equipe reforçaram a necessidade de um ajuste fiscal de 4% do PIB, o equivalente a R$ 520 bilhões, para estabilizar a trajetória de crescimento da dívida pública bruta, atualmente em 82,9% do PIB, totalizando R$ 11,1 trilhões.
O banco informou que prevê rombos fiscais neste ano e no próximo, de 0,5% do PIB e de 0,6% do PIB, respectivamente, na contramão das estimativas otimistas da equipe econômica nos projetos de Lei Orçamentária Anual (Ploa) e de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) do próximo ano, por exemplo, que tem uma meta fiscal de superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) de 0,5% do PIB.
Além de estimar crescimento real (acima da inflação) para 5,4% no gasto público deste ano, levemente estável em relação a projeção anterior, o banco elevou de 0,4% para 2,7% a perspectiva para 2027, indicando que o governo dificilmente conseguirá reduzir despesas, elevando a dívida pública bruta para 87,9% do PIB até o fim do próximo ano.
“A trajetória recente da dívida pública reforça a necessidade de um ajuste fiscal, centrado no controle de despesas, com credibilidade. O desafio estrutural permanece elevado: estimamos que, mantidas as regras atuais e sem correções de curso, o esforço fiscal necessário para estabilizar a dívida pública, hoje, em torno de 4% do PIB, continuará aumentando e poderá atingir magnitudes ainda mais expressivas”, reforçou o documento.
De acordo com a instituição, uma estratégia de ajuste robusto, centrada no controle das despesas obrigatórias e complementada pela redução de benefícios tributários, “pode trazer maior credibilidade para a âncora fiscal, condição fundamental para a plena transmissão da política monetária e para uma redução estrutural dos juros reais”. O documento ainda destacou que a revisão para 6,1% na estimativa de inflação em 2027 reflete, principalmente, “as medidas sobre combustíveis, um câmbio médio com o real mais depreciado e os efeitos estimados da reforma tributária e das mudanças na jornada de trabalho”.
Assim como o Itaú Unibanco, várias instituições estão piorando as projeções para a atividade econômica, diante da falta de sinalização do presidente reeleito ainda não dar sinais claros de que pretende fazer um ajuste fiscal, algo prometido pelo candidato derrotado, Flávio Bolsonaro (PL), que ainda fugiu para os Estados Unidos, onde estava o irmão e ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Derretimento da Bolsa
Desde a confirmação da vitória de Lula sobre Flávio no domingo, com uma diferença de 4,4 milhões de votos, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) acumula perdas de 18,12% na semana — a maior queda desde março de 2020, e as empresas listadas no mercado acionário já perderam quase R$ 1 trilhão.
Conforme levantamento feito pela consultoria Elos Ayta, a perda acumulada na semana das empresas listadas na B3 somou R$ 963 bilhões, em relação ao valor de 23 de outubro, uma retração de 16,94%. “Para dimensionar a magnitude dessa perda, o montante equivale a 1,31 vez o valor de mercado da Petrobras, atualmente estimado em R$ 734 bilhões”, destacou Einar Rivero, sócio fundador da Elos Ayta.