A crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF) está respingando no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e, consequentemente, refletindo nas pesquisas de opinião mais recentes, para a alegria dos operadores do mercado financeiro, que ficaram mais otimistas com a perspectiva de mudança no comando do país. Como reflexo, depois de acumular queda de 0,33% em agosto, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) voltou a operar no azul com alta acima de 1,50%, na tarde desta terça-feira (8/9), após chegar a 189 mil pontos pela manhã, em meio à queda do dólar e nova disparada no barril de petróleo.
Depois de a pesquisa da Quaest apontar empate numérico no segundo turno entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de 41%, ontem, a pesquisa da BTG/Nexus, divulgada hoje, indicou o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) à frente de Lula pela primeira vez em um eventual segundo turno, com o placar de 46% a 45%. Na enquete anterior, divulgada em 31 de agosto, o resultado era oposto: Lula tinha 46% das intenções de voto, enquanto Flavio, 45%.
O levantamento – encomendado pelo BTG Pactual e realizado pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, da FSB Holding – mostrou que o escritor Augusto Cury (Avante) também ficou à frente de Lula em um eventual segundo turno, com o placar de 45% a 43%, uma vantagem maior do que a de Flávio.
Foi a primeira vez que a BTG/Nexus incluiu o Cury, que tenta ser uma alternativa antibolsonarista e antipetista, nas simulações de segundo turno. A Nexus ouviu 2.002 eleitores entre os dias 4 a 7 de setembro, e, portanto, já reflete a crise do Judiciário que tem espirrado no governo Lula. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com um nível de confiança de 95%.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, avaliou que esse movimento positivo da Bolsa foi resultado da volta de investidores domésticos e estrangeiros, que haviam se retirado da B3 no mês passado. “Agora todos estão se perguntando se estavam dando um favoritismo exagerado ao Lula nas pesquisas”, destacou o analista, em entrevista ao Blog. Ele lembrou que, nas eleições de 2018, quando o Jair Bolsonaro foi eleito, boa parte do ganho em câmbio, dos juros e das ações ocorreu durante o processo eleitoral. “Se realmente houver mudança de poder, a tendência é positiva para os ativos brasileiros, porque o mercado só pensa na parte econômica”, acrescentou Cruz, reconhecendo que os candidatos têm sinalizado pouco o que pretendem fazer na economia.
“Assim como nas últimas eleições, não vamos ver uma disputa com as propostas dos candidatos sendo debatidas. Aliás, nem existe debate. Todos evitam participar agora”, lamentou. De acordo com o analista, o mercado financeiro só aposta nessa mudança, porque entende que um quarto mandato de Lula não seria diferente do que temos agora, “que é uma resistência a enfrentar o problema fiscal”. “A leitura dos ministros do Lula é de que o problema é o Banco Central”, afirmou Cruz, citando declarações recentes do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
O economista e consultor Julio Hegedus, da JHN Consulting, destacou que essa alta da Bolsa pode ser justificada pelo desgaste de Lula e do PT após a crise do Supremo. “O STF enfiou-se numa crise institucional sem precedentes. Sem dúvida, que o ministro Alexandre de Moraes perdeu o eixo, extrapolou. E isso é positivo para o mercado financeiro, que é mais alinhado com Flávio”, afirmou. Para ele, essa tendência de virada da oposição pode se confirmar nas próximas pesquisas. “Acredito que esse movimento comprador (da Bolsa) se explica pelas manifestações de ontem e pelas pesquisas mostrando Flávio reagindo”, acrescentou em entrevista ao Blog.
De acordo com a pesquisa BTG/Nexus, em um eventual embate no segundo turno entre Lula e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), o cenário é de empate sendo 46% para Lula e 43% para Caiado. Na pesquisa anterior, o petista liderava com o placar de 45% a 44%. Na disputa contra Romeu Zema (Novo) no segundo turno, Lula venceria o ex-governador de Minas Gerais por 47% a 40%. Na pesquisa anterior, o placar favorável ao petista era de 46% contra 41%. Já contra o candidato Renan Santos (Missão), Lula seria reeleito por um placar elástico, de 47% a 39%, se a eleição fosse realizada hoje.
A crise no Judiciário teve mais um capítulo hoje com a aprovação do afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em meio à confusão em torno do escândalo do Banco Master e a escalada dos atritos entre os ministros Alexandre de Morais e André Mendonça. O presidente do Supremo, Edson Fachin, inclusive, cogita assumir a relatoria dos casos do Master e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Bolsas internacionais e petróleo
Enquanto isso, na contramão da Bolsa brasileira, o clima estava mais tenso no mercado externo. As bolsas europeias e dos Estados Unidos estavam operando no vermelho diante da perspectiva de aumento das tensões no Oriente Médio.
O barril do petróleo tipo Brent chegou a ser negociado a US$ 100 pela manhã, em meio aos ataques da milícia Houthi às instalações de energia da Arábia Saudita, mas teve um leve recuo à tarde, passando a ser negociado a US$ 98. O dólar estava desvalorizando frente à maioria das moedas internacionais, e, no Brasil, também operava com queda em relação ao real. Por volta das 16h40, era negociado a R$ 5,08 para a venda, recuo de 0,74%.