Setor produtivo elogia corte da Selic, mas critica patamar elevado dos juros

Para entidades do setor produtivo, decisão do Banco Central foi acertada, mas corte foi inferior ao necessário para estimular a atividade econômica

Crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press. Homem olha engrenagens com cifrão.

Entidades do setor produtivo elogiaram a decisão do Banco Central de anunciar, nesta quarta-feira (05/08), o quarto corte consecutivo na taxa básica da economia (Selic), que passará para 14% ao ano a partir de amanhã. Para elas, a medida foi acertada mas na magnitude inferior ao necessário.

De acordo com as entidades, os juros ainda seguem elevados e em patamares restritivos para impulsionar a indústria, especialmente via crédito. Além disso, as instituições reconheceram que o desequilíbrio fiscal também tem contribuído para manter a taxa Selic em patamares elevados, porque acaba anulando os efeitos da política monetária e, com isso, o BC é obrigado a manter os juros elevados por mais tempo.

O corte de 0,25 ponto percentual na Selic era esperado pelo mercado, especialmente após a inflação dar sinais de desaceleração nos indicadores recentes. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, por exemplo, apresentou alta de 0,06% após avançar 0,41%, em junho. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, pela nova redução dos juros foi unânime, mas o colegiado não deixou claro se haverá um novo corte na próxima reunião, em setembro, apesar de a mediana das projeções mais recentes do mercado indicar um último corte de 0,25 ponto percentual até o fim do ano.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) a decisão do Copom foi “acertada”, contudo, a magnitude do corte de juros “é insuficiente para aliviar os desafios impostos ao setor produtivo e às famílias”. “Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto. A decisão do Banco Central piora a perspectiva para a indústria, já tão prejudicada pelas incertezas no cenário externo. Além disso, o crédito caro compromete gravemente a renda das famílias, que já apresentam níveis recordes de endividamento e inadimplência”, disse Ricardo Alban, presidente da CNI, em nota da entidade.

A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) também informou, por meio de nota, que a manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado continua restringindo o acesso ao crédito, desestimulando novos investimentos e comprometendo a competitividade da indústria brasileira.
“A estabilidade de preços é indispensável para o crescimento sustentável da economia. O processo precisa ocorrer com menor custo para a produção, os investimentos e o emprego, o que exige maior coordenação entre as políticas monetária e fiscal”, disse o economista-chefe da Fiemg, João Gabriel Pio.

De acordo com a entidade mineira, a decisão do Copom reflete um cenário em que ainda persistem pressões inflacionárias, sobretudo no setor de serviços, além de um mercado de trabalho aquecido e incertezas em relação ao quadro fiscal. A instituição reconheceu que “o caráter expansionista da política fiscal e a ampliação de programas de crédito subsidiado, quando não acompanhados de um compromisso com o equilíbrio das contas públicas, reduzem a eficácia da política monetária e tornam o processo de controle da inflação mais custoso para a economia”. “Um ciclo mais consistente de queda dos juros depende de um ambiente macroeconômico mais equilibrado, com responsabilidade fiscal, previsibilidade e maior efetividade da política monetária. Esse conjunto de fatores amplia a confiança, favorece o investimento produtivo e fortalece a competitividade da indústria”, alertou o economista da Fiemg.

“Sinal positivo”


A Federação do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) reforçou que a redução da taxa Selic é “um sinal positivo para a atividade econômica”, contudo, “o nível ainda elevado da taxa mantém o crédito caro e restringe os investimentos e a expansão do setor industrial”.

Para a Firjan, a redução gradual da taxa básica é necessária, porém ainda insuficiente para alterar de forma consistente o quadro de restrição enfrentado pela indústria. “O elevado custo de capital posterga investimentos, dificulta a modernização produtiva e limita a capacidade das empresas brasileiras de ganhar produtividade e competir nos mercados interno e externo. Esse quadro se reflete no desempenho da indústria de transformação, que cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre do ano”, destacou a nota da entidade, citando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além das restrições domésticas, a Firjan destacou também que o ambiente externo continua desafiador, com tensões geopolíticas, volatilidade de commodities e incertezas no comércio internacional pressionando cadeias produtivas e custos de insumos. “Diante desse cenário, a Firjan reforça que a redução da Selic precisa ser acompanhada por avanços que permitam uma queda mais consistente dos juros e dos custos de produção no país. E que, para isso, é indispensável o fortalecimento da credibilidade fiscal, a redução dos prêmios de risco e a continuidade da agenda de redução do Custo Brasil”, defendeu a nota. “A combinação entre equilíbrio das contas públicas, maior previsibilidade econômica e melhoria do ambiente de negócios é essencial para que a flexibilização monetária se traduza em mais investimentos, produtividade e competitividade para a indústria”, acrescentou.

Patamar restritivo

De acordo com a CNI, os juros básicos estão em patamar restritivo há 55 meses. A Selic está 3,6 pontos percentuais acima da taxa calculada com base na Regra de Taylor — estimada em 10,4%. “Esta regra permite calcular uma taxa de juros que proporcione o controle da inflação sem desestimular o crescimento da economia. A taxa de juros real (descontada a inflação), aproximadamente de 10%, supera com folga a taxa de equilíbrio estimada pelo próprio Banco Central, de 5%, indicando que há espaço para cortes mais expressivos na Selic, sem prejuízos no combate à inflação”, destacou a instituição.

Conforme dados da entidade, o elevado nível de juros no crédito livre também encarece o refinanciamento das dívidas familiares. “O resultado é o endividamento em patamar crítico e o comprometimento da renda, reduzindo recursos para consumo essencial e ampliando o risco de superendividamento”, acrescentou a nota que criticou o novo programa para refinanciamento de dívidas do governo, o Desenrola 2.0, que não conseguiu reduzir o endividamento das famílias e foi prorrogado até o fim deste mês pelo governo. Segundo a entidade, o Desenrola 2.0 trata, “sobretudo, o sintoma, sem atacar causas estruturais, como a baixa educação financeira e o elevado nível das taxas de juros”.