Taxa adicional de 37,5% deve atingir 27,7% das exportações para os EUA, prevê MB

Pelas estimativas da MB Associados, empilhamento das novas tarifas adicionais dos EUA de 12,5% e de 25% atinge 27,7% dos embarques brasileiros, o equivalente a US$ 12,4 bilhões, mas valor pode chegar a US$ 14,3 bilhões

A tarifa adicional de importação dos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros de 12,5%, que entrou em vigor nesta sexta-feira (24/4), somada a taxa adicional anterior, de 25%, gera uma sobretaxa de 37,5% para um volume significativo de exportações brasileiras para os EUA, de 27,7%, o equivalente a US$ 12,4 bilhões, de acordo com o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. 

Esse cálculo considera o regime duplo das duas investigações do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que anunciou, ontem, a nova taxação adicional de 10% a 12,5% para 60 países, incluindo o Brasil sob a justificativa de punição para os parceiros comerciais que não adotaram medidas de combate ao trabalho forçado.  Sergio Vale ainda prevê que a base tarifada total, incluindo as bases que são tarifadas somente por uma das duas novas taxas, chega a 32% do volume exportado para os EUA, ou seja, US$ 14,3 bilhões.

Os valores utilizados para as estimativas da MB são os montantes das exportações brasileiras de 2024, antes do início do tarifaço dos EUA, em 2025. Por outro lado, US$ 19,3 bilhões de produtos embarcados para o território norte-americano estão isentos dessas duas novas tarifas adicionais.

Os cálculos de Vale ainda fazem um cruzamento com a lista de exceções da taxação anterior, de 25%, que havia sido amplificada de 1.655 para 2.120 itens. Segundo ele, o empilhamento das duas tarifas que somam 37,5% têm incidência nos setores de máquinas e equipamentos, açúcar fora da quota e etanol e borracha, que respondem, respectivamente, por 7,1%, 3,2%, 2,1% e 1,1% da pauta exportada para os EUA. 

De acordo com Vale, a principal vitória brasileira nas negociações com o governo Trump foi o ferro gusa. US$ 1,6 bilhão que estava exposto a 12,5% migrou para a isenção plena nas duas ações, mesmo desfecho da sucata e, parcialmente, das pelotas e, em contrapartida, o  açúcar fora de quota (US$ 0,7 bilhão) permanece em 37,5%. Ele lembrou que o Brasil ficou fora da lista de 17 economias que tiveram a faixa reduzida de 10%, como a Argentina, e a nova taxa ainda está somada à anterior de 25%, que entrou em vigor em 22 deste mês. 

Na avaliação de Vale, há uma dominância do empilhamento das tarifas, dois terços do custo tarifário total estão concentrados em pouco mais de um quarto da pauta exportadora, o que mede a assimetria do regime. Ele ainda destacou que o papel das isenções parciais é outro fator de incerteza, porque a distância entre os dois cenários será resolvida não por norma, mas pela prática aduaneira, como comprovar destinação de partes e peças de aeronave civil nos termos legislação assim como os itens farmacêuticos, “ambas com ônus probatório sobre o importador norte-americano”. “Para a cadeia da Embraer, essencialmente civil, por exemplo, a expectativa é de convergência ao piso; para os químicos de dupla aplicação, a posição intermediária é mais provável”, alertou.

Reciprocidade

Logo após a confirmação da segunda tarifa adicional contra o Brasil, o governo brasileiro sinalizou que pretende adotar medidas de retaliação, conforme a nota do Palácio do Planalto, que rechaçou a medida e informou que será iniciado o processo para acionar a Lei da Reciprocidade. Contudo, a medida ainda gera divergências entre especialistas. Para Sergio Vale, o melhor caminho a ser trilhado pelo governo é a busca por novos mercados. “A retaliação, em geral, não é o caminho. Acho que o melhor caminho é, de fato, gradativamente buscar novos mercados. Esse deveria ser o objetivo central do governo”, aconselhou. Na avaliação dele, o pacote de medidas de financiamento de R$ 18,5 bilhões, anunciado, nesta semana, para o setor exportador com o objetivo de minimizar o impacto deste novo tarifaço, ainda é insuficiente.

O economista da MB ainda alertou que o governo Trump deve continuar elevando tarifas ao longo dos próximos anos. “Certamente ele tem um fetiche tarifário muito claro, muito evidente, especialmente com máquinas, equipamentos industriais, com indústria tradicional. Ele acha que os Estados Unidos podem produzir isso tudo lá. Ele sempre pensou em tarifa dessa forma, então tudo que tem sido usado como argumento de Pix, trabalho forçado, tudo isso é subterfúgio para uma decisão que a priori já estava sendo tomada desde o ano passado”, explicou.

De acordo com Vale, não deverá haver uma mudança de pensamento para diminuir as tarifas. Pelo contrário. “Essas novas tarifas vieram para ficar e, quanto mais tempo ficar, de fato, a percepção dessas tarifas de que elas não vão mudar, mais vai haver queda de exportação para os Estados Unidos, especialmente de volume, porque essa nova tarifa, de 37,5% é extremamente elevada, então, o choque a longo prazo vai ser de perda de mercado dos EUA”, alertou.