Tom da ata do Copom é mais duro e paralisação de cortes de juros não está descartada

Apesar de analistas considerarem mais um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, a depender dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, uma pausa está no radar e Selic poderá terminar ano em 14%

Banco Central do Brasil/Foto: Raphael Ribeiro/BCB

A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada, nesta terça-feira (05/5), pelo Banco Central, tem um tom mais conservador do que o do comunicado da reunião da semana passada, colocando por terra o otimismo que parte do mercado ainda tinha em relação ao ciclo de afrouxamento monetário. Com isso, apesar de alguns analistas manterem a previsão de corte de 0,25 ponto percentual para a próxima reunião do Copom, em junho, a manutenção da taxa básica da economia (Selic) no atual patamar não está totalmente descartada. Tudo vai depender dos desdobramentos da guerra no Oriente Médio e dos preços do barril do petróleo, que seguem em torno de US$ 100.

Na reunião passada, o Comitê decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual pela segunda reunião seguida, para 14,50% ao ano, e, como no comunicado, o Copom justificou a decisão afirmando que, no cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, “o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”. 

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, é taxativo ao comentar sobre a ata. Para ele, ela não confirma a leitura mais otimista que parte do mercado tinha após o corte da semana passada. “O recado é o oposto: o ciclo de queda da Selic vai durar menos do que se imaginava em janeiro, e a taxa terminal está sendo reprecificada para cima”, afirmou. Segundo ele, a palavra que mudou tudo no comunicado foi “extensão”. “Quando o Copom diz que vai calibrar não só o ritmo, mas também a extensão dos cortes, ele está abrindo a porta para parar o ciclo antes do que o Focus precificava e isso ficou explícito na ata. Ele lembrou que as casas que projetavam a taxa Selic terminal em 12,50% anuais, no fim de 2026, já estão revisando para 13%, 13,50%, e algumas para 14% anuais. “O ciclo, na prática, pode terminar com a Selic ainda restritiva. O motivo é direto: a inflação corrente piorou”, destacou ele, lembrando que a ata reforçou que as estimativas de inflação seguem desancoradas.

No último boletim Focus, divulgado ontem, a mediana das projeções do mercado para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o fim deste ano foi revisada para cima pela oitava semana seguida, passando para 4,89%, acima do teto da meta, de 4,50%.

“Por trás disso, o pano de fundo segue sendo a guerra no Oriente Médio. Mesmo com o cessar-fogo formal de abril, o bloqueio parcial do Estreito de Ormuz não foi resolvido, o Brent ainda opera acima de US$ 100, e os repasses para combustíveis e fretes continuam pressionando preços. Não é um choque pontual: é um regime novo”, ressaltou.

Na avaliação da equipe da Warren Investimentos, o tom da ata foi gradativamente mais duro, enquanto o comunicado foi mais neutro. “A implicação direta da ata é que o cenário de cortes sucessivos de 25 pontos-base, levando a Selic ao final do ano para próximo de 13%, fica para trás. O tom da ata é compatível com menos cortes e uma interrupção mais cedo do ciclo de calibragem”, destacou o relatório da instituição.

Com relação ao fiscal, a ata repetiu o mesmo parágrafo das últimas atas, no qual pontua o impacto da política fiscal no curto prazo, por meio de estímulos à demanda agregada, bem como sua dimensão estrutural, com efeitos sobre o prêmio a termo da curva de juros e a necessidade de uma política fiscal harmoniosa com a política monetária.

O economista José Francisco Lima Gonçalves, professor da Universidade de São Paulo (USP), destacou que a continuidade do ciclo de cortes na próxima reunião ainda vai depender dos desdobramentos da guerra no Oriente Médio. “Na próxima rodada, cabe pensar em nova queda, mas, principalmente, em parar para ver”, escreveu ele, lembrando que o Copom suprimiu da ata o trecho em que o comitê afirmava que a calibração da política monetária ainda estava no campo restritivo para manter a inflação convergindo para a meta.

Para Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, os termos “prosseguimento do ciclo” e “apropriado dar sequência” na ata são referências que apontam para novo corte de 25 pontos-base na próxima reunião e a a inclusão do termo “dessa reunião” busca ter mais grau de liberdade no futuro próximo.

“Dado o desconforto muito visível com a piora na evidente desancoragem com a referência a ‘sinais claros de efeitos dos conflitos geopolíticos’ mais o debate sobre ‘alterações mais amplas no balanço de risco’, eles estão colocando na mesa a possibilidade de um encerramento de ciclo no futuro próximo. Além disso, estão estão buscado mais flexibilidade para fazer um ciclo curto enquanto os efeitos da guerra continuarem batendo”, acrescentou Barros. Ele prevê que a taxa de juros terminal será de 14% anuais.

Influência do dólar

Na avaliação do economista André Perfeito, da Garantia Capital, como o dólar segue desvalorizado frente a maioria das moedas emergentes — na manhã de hoje, a divisa norte-americana estava cotado a R$ 4,92, com queda de 0,9% no intra diário –, e se seguir abaixo dos R$ 5, isso pode ajudar o Copom a ter espaço para continuar o ajuste cauteloso na taxa básica. Ele mantevem a perspectiva de corte de 0,25 ponto percentual na Selic em junho. Contudo, se o dólar encostar em R$ 4,70, o Banco Central pode até acelerar o processo de corte nos juros.

Para ele, a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta semana poderá ser undamental nesse sentido. “Se o presidente brasileiro e o norte-americano tiverem um bom encontro isso irá reforçar sobremaneira a leitura positiva para o Brasil e reforçar as tendências recentes de apreciação do real”, afirmou.