Banco Central reforça cautela diante de aumento “considerável” das incertezas

Após reduzir a taxa Selic para 14,75% ao ano, primeiro corte em quase dois anos, Banco Central ressalta, na ata do Copom, a preocupação com cenário externo devido à nova guerra no Oriente Médio e piora projeções para a inflação

Crédito: Raphael Ribeiro/BC divulgação
Em ata do Copom, Banco Central faz novo alerta sobre a importância do cumprimento de metas para evitar

Apesar de reduzir a taxa básica da economia (Selic) para 14,75% ao ano, na semana passada, o Banco Central apresentou-se mais cauteloso na condução da política monetária e reforçou a preocupação com os impactos da nova guerra no Oriente Médio, em especial, na inflação, devido ao aumento “considerável” das incertezas, na ata divulgada nesta terça-feira (24/3). Além disso, o BC não deu a sinalização futura (forward guidance) sobre a decisão da próxima reunião do colegiado, no fim de abril, e nas seguintes, como na reunião anterior, de janeiro.

“A incerteza com relação ao cenário externo se elevou consideravelmente. Além do agravamento das tensões geopolíticas, novas incertezas com relação à política econômica dos Estados Unidos colaboraram para tornar esse cenário ainda mais incerto”, destaca o documento, que retirou o trecho em que deixava a sinalização para a reunião seguinte, diante da indefinição sobre o fim do conflito no Oriente Médio. 

Na semana passada, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. Foi a primeira redução nos juros básicos desde maio de 2024, mas a autoridade monetária piorou as projeções para a inflação deste ano, que seguem acima do centro da meta, de 3%, com teto de 4,50%, neste ano e no próximo. Antes dos ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em 28 de fevereiro, a expectativa do mercado convergia para um corte maior, de 0,50 ponto percentual.

No documento, o Copom aumentou para duas vezes o uso da palavra “cautela” e o uso da palavra “incerteza”, de cinco para seis vezes, na comparação com a ata da reunião de janeiro. Além disso, citou a palavra “risco” sete vezes, o mesmo número da ata da reunião anterior, de janeiro. 

O economista-chefe da Lev Intelligence, Jason Vieira, avaliou que o comunicado do BC foi bastante cauteloso. “A ata do Copom reforçou uma comunicação claramente cautelosa, destacando que o início do processo de redução da Selic representa uma calibração da política monetária ainda em terreno contracionista”, afirmou. Ele lembrou que o Comitê enfatizou o aumento da incerteza global, “especialmente após a escalada do conflito no Oriente Médio, e reforçou que o processo de flexibilização dependerá da evolução das expectativas de inflação e da atividade econômica”. 

Marcus Novais, sócio-fundador da Private Investimentos, também ressaltou a cautela do Banco Central no comunicado, diante da ausência de uma sinalização para as próximas reuniões. “O principal fator por trás dessa cautela é o cenário externo. O conflito no Oriente Médio escalou, o Estreito de Ormuz está bloqueado e o petróleo opera perto de US$ 100 , tudo isso eleva a incerteza sobre inflação, câmbio e commodities”, destacou . Ele ainda avaliou que a ata sinalizou que o ciclo de queda começou, “mas será mais gradual do que se esperava”. “Quem ainda não aproveitou as taxas atuais tem uma janela que pode se fechar mais rápido do que o mercado precificava”, acrescentou.

A economista-chefe do UBS, Solange Srour, destacou que, na ata, chama atenção, ainda, o fato de que a comunicação do Comitê não parece contemplar, neste momento, a possibilidade de uma pausa no ciclo, nem mesmo como alternativa condicional. “A forma como a decisão e a sinalização foram
estruturadas sugere que o Banco Central não trabalha hoje com esse cenário, tampouco deixou espaço explícito para esse tipo de dúvida”, destacaou, em relatório a clientes.

“De forma geral, a ata preserva um tom de serenidade e continuidade, o que é compreensível do ponto de vista de uma tentativa de manter a comunicação compatível com um cenário incerto. Ainda assim, nossa leitura sugere que o ambiente atual exige um grau ainda maior de prudência analítica”, acrescentou ela, lembrando que riscos inflacionários associados a commodities e geopolítica ainda parecem “subestimados”, enquanto a confiança na desaceleração da atividade, em um contexto de mercado de trabalho resiliente, parece superestimada. “Em um cenário tão incerto, seria mais prudente adiar o início do ciclo ou, caso a decisão fosse cortar, fazê-lo preservando explicitamente a possibilidade de interrupção do ciclo e de mudança no balanço de riscos”, acrescentou.

Na avaliação de Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, avaliou que a ata do Copom ainda indica que as autoridades seguem confiantes na sua capacidade de calibrar o grau de restrição monetária, apesar da contínua turbulência global. “O texto explica de forma útil a abordagem utilizada para incorporar o choque do petróleo — baseada na curva futura — e enfatiza que suas implicações serão cuidadosamente monitoradas. Embora destaque que o processo de desinflação perdeu tração nas leituras mais recentes”, ressaltou ele, lembrando que o Copom também afirmou que uma possível (provável) reaceleração da atividade econômica no primeiro trimestre deste ano não implicará em uma grande mudança em seu cenário atual.

Considerando tudo, ele ainda avaliou que o documento é consistente com um corte maior na reunião de abril, o que levaria a taxa básica para 14,25% ao ano. Aguardaremos a publicação do Relatório de Política Monetária e a coletiva de imprensa, na quinta-feira (26/3), antes de decidir se será necessário calibrar a calibração. Por ora, Mesquita manteve em 12,25% ao ano a projeção para a Selic no fim deste ano.

Novas projeções e preocupação com política fiscal

As novas projeções do cenário de referência do BC indicam o indicador da inflação oficial medida pelo ìndice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 3,9% no acumulado de 2026, acima da registrada na região anterior, de 3,4%. E, para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, a perspectiva subiu de 3,2% para 3,3%. 

“Após debater alterações no balanço de riscos, o Comitê julgou apropriado seguir com serenidade e reunir mais informações ao longo do tempo, em função da incerteza elevada em relação à evolução de seus elementos”, destacou a ata ao justificar a decisão.

O Banco Central também manteve a preocupação com o impacto da polítca fiscal, “majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros”. Além disso, reforçou a preocupação com o equilíbrio entre a polítca fiscal e a monetária, a fim de colaborar para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta. 

“O Comitê manteve a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, destacou o texto.