A duração da nova guerra no Oriente Médio deflagradas pelos ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no fim de semana está deixando os mercados apreensivos e, apesar da queda generalizada, com a perspectiva de o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) interromper o ciclo de corte nos juros básicos norte-americanos, atualmente entre 3,50% e 3,75% ao ano, e, com isso, mudar as direções dos fluxos de capital que vinham sendo direcionados aos países emergentes impactando câmbio, bolsas e juros futuros.
“O tempo dessa guerra é que vai ditar os rumos do câmbio, dos juros futuros e das bolsas. Se o preço do petróleo continuar subindo, o Fed vai adiar os cortes dos juros e isso será péssimo para as bolsas, de forma geral, e principalmente para os países emergentes”, avaliou Eduardo Velho, economista-chefe da Equador Investimentos.
O economista lembrou que, antes dos ataques ao Irã, o barril do petróleo no mercado brasileiro estava sendo negociado com defasagem de 2% em relação ao mercado externo. E, se o barril do petróleo subir para US$ 80, essa defasagem pode chegar a superar 20%. E, se isso acontecer, o repasse no preço da gasolina no mercado interno será inevitável, o que impacta diretamente na inflação dado o peso relevante do combustível no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial do custo de vida. Para ele, apesar de a previsão do mercado para a Selic no fim deste ano no boletim Focus, do Banco Central, ter recuado para 12% ao ano, é possível que as revisões para cima comecem a aparecer a partir da próxima semana.
Pelas contas de Velho, um reajuste de 20% na gasolina poderá levar o IPCA para 4,51%, ou seja, acima do teto da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 4,50%. O cálculo considerou o IPCA antes dos ataques de 4,09%, dado próximo ao indicador acumulado em 12 meses até janeiro, de 4,10%. “A curva futura de juros deve voltar a subir com essa nova onda de valorização do dólar e do barril do petróleo. É natural que o mercado também reduza o ritmo de queda da Selic que deve começar em março, devendo diminuir o número de cortes e, com isso, em vez de os juros básicos terminarem em dezembro aos 12% anuais, é possível que a taxa fique maior”, explicou Velho. Ele não descarta que as novas previsões para a taxa Selic no fim do ano subam para mais de 13% anuais se o conflito no Irã for prolongado.
Na avaliação dele, o mercado deverá seguir volátil acompanhando os novos ataques dos EUA e de Israel em curso no Irã. “Com isso, as commodities metálicas devem seguir valorizadas”, destacou ele, em referência ao ouro e à prata, que costumam ter preços mais elevados sempre que aumentam as incertezas no cenário externo.
Apesar de abrir o dia em queda, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) acabou encerrando o pregão desta segunda-feira (02/3) com alta de 0,28%, aos 189.307 pontos, com destaque para as ações da Petrobras, que registraram altas superiores a 4,60%. No ano, a B3 acumula alta de 17,49%.
Enquanto isso, em Nova York, o Índice Dow Jones registrou queda 0,15%, em linha com as bolsas europeias que também registraram perdas, mas a Nasdaq, bolsa das empresas de tecnologia, na contramão, teve alta de 0,36%. Já a bolsa de Frankfurt, por exemplo, recuou 2,42%; Paris teve perdas de 2,17%; e Londres escorregou 1,20%.
A queda generalizada nas bolsas internacionais foi reflexo não apenas dos ataques como também das declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que sinalizou que o conflito não tem um prazo para terminar. Em entrevista ao jornal New York Post, o republicano afirmou que uma grande onda de ataques ao Irã ainda está por vir e que ele “não tem medo” de enviar soldados ao front iraniano.
Os preços do barril do petróleo chegaram a registrar valorização superior a 10% frente aos temores de uma guerra prolongada, mas recuaram na tarde de hoje.
O barril do petróleo tipo Brent, negociado em Londres e referência para os preços praticados pela Petrobras, chegou a superar os US$ 82 por barril, no maior nível desde janeiro de 2025, enquanto o barril do tipo WTI, negociado em Nova York, atingiu os US$ 75 – maior patamar desde junho de 2025. Contudo, os ganhos diminuíram durante a tarde, após a valorização do dólar e de ponderações sobre a guerra no Oriente Médio.
O barril do petróleo tipo WTI para abril fechou em alta de 6,28%, para US$ 71,23. Já o barril do tipo Brent para maio subiu 6,68%, para US$ 77,74.