Oxfam: Riqueza de bilionários cresce 16%, em 2025, e soma US$ 18,3 trilhões

Relatório da Oxfam revela que riqueza de bilionários cresce três vezes mais do que a média dos últimos cinco anos, enquanto pobreza está nos patamares de 2019, antes da pandemia. Brasil é o país com mais bilionários na América Latina

Enquanto a pobreza no mundo está praticamente estagnada, a riqueza dos bilionários aumentou 16%, em 2025, ritmo três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos, alcançando o montante de US$ 18,3 trilhões – nível mais alto da história, conforme dados divulgados, na noite deste domingo (18/1), pela  Oxfam, em paralelo ao encontro anual do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), que ocorre nesta semana, em Davos, na Suíça.

O Fórum no resort suíço reúne cerca de 400 líderes políticos, incluindo 65 chefes de Estado e de governo, e quase 850 presidentes das maiores organizações globais.

De acordo com a entidade, desde 2020, a riqueza dos bilionários aumentou 81%, enquanto uma em cada quatro pessoas do planeta não possuem o suficiente para comer e quase metade da população mundial vive na pobreza. 

O relatório Resistindo ao Domínio dos Ricos: Protegendo a Liberdade do Poder dos Bilionários, da Oxfam, e ao qual o Blog teve acesso, revelou que o número de bilionários superou 3 mil, no ano passado, pela primeira vez na história. Além disso, apenas o aumento de US$ 2,5 trilhões na riqueza desse grupo privilegiado equivale à riqueza total detida pela metade mais pobre da humanidade – 4,1 bilhões de pessoas.

O estudo analisa como os super-ricos estão garantindo poder político para moldar as regras de nossas economias e sociedades em benefício próprio e em detrimento dos direitos e liberdades das pessoas em todo o mundo. Além disso, detecta que esse aumento da riqueza desse seleto grupo coincide com a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, perseguindo uma agenda pró-bilionários. 

No Brasil, segundo a Oxfam, a concentração de riqueza atinge níveis extremos: o país reúne o maior número de bilionários da América Latina e do Caribe, com 66 pessoas que acumulam juntas cerca de US$ 253 bilhões, a maior fortuna total da região. “Esse cenário convive com um sistema tributário historicamente regressivo, no qual a maior parte da carga recai sobre o consumo e os trabalhadores, penalizando de forma desproporcional pessoas negras, mulheres e famílias de menor renda, enquanto as rendas mais altas e do capital seguem insuficientemente tributadas”, destacou a nota da Oxfam.

De acordo com a organização não governamental, apesar de a recente reforma do Imposto de Renda representar um avanço ao ampliar a isenção para rendas mais baixas e estabelecer uma tributação mínima efetiva maior sobre os mais ricos, “o país ainda precisa avançar na taxação de dividendos, grandes fortunas e heranças para enfrentar estruturalmente a desigualdade”.  

“O Brasil é um exemplo claro de como a desigualdade não é uma fatalidade, mas o resultado de escolhas políticas. Quando poucos concentram tanta riqueza e pagam proporcionalmente menos impostos, toda a sociedade perde. Avançar em uma reforma tributária verdadeiramente progressiva é essencial para reduzir desigualdades históricas, fortalecer a democracia e garantir direitos para quem mais precisa”, disse Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, em nota.

Na avaliação do diretor executivo da Oxfam Internacional, Amitabh Behar, a crescente lacuna entre os ricos e o resto “está criando, ao mesmo tempo, um deficit político altamente perigoso e insustentável”.

Pelas estimativas da Oxfam, os bilionários têm 4.000 vezes mais probabilidade de ocuparem cargos políticos do que os cidadãos comuns. A entidade destacou que uma pesquisa mundial de valores em 66 países constatou que quase metade de todas as pessoas entrevistadas acreditam que os ricos frequentemente compram eleições em seu país. “Os governos estão fazendo escolhas erradas para agradar à elite e defender a riqueza, enquanto reprimem os direitos das pessoas e a indignação com o fato de que tantas vidas estão se tornando inacessíveis e insuportáveis”, afirmou Behar.

Conforme dados da entidade, a taxa de redução da pobreza estagnou, com níveis anteriores aos da pandemia de covid-19, retornando aos patamares de 2019. “A pobreza extrema está aumentando novamente na África. Decisões políticas tomadas por governos em todo o mundo no ano passado para reduzir orçamentos de ajuda afetaram diretamente as pessoas que vivem na pobreza e podem levar a mais de 14 milhões de mortes adicionais até 2030”, informou a organização. 

E não é só o combate à pobreza que tem regredido nos últimos anos. Em 2024, liberdades civis e direitos políticos estão sendo revogados e suprimidos declinaram pelo 19º nono ano consecutivo de declínio, com um quarto de todos os países restringindo as liberdades de expressão, destacou a instituição.

“No ano passado, houve mais de 142 protestos significativos contra o governo em 68 países, que as autoridades geralmente enfrentaram com violência. As chances de retrocesso democrático através, por exemplo, da erosão do Estado de Direito ou do enfraquecimento de eleições são sete vezes maiores em países altamente desiguais”, alertou a Oxfam.  “Os governos estão permitindo que os super-ricos dominem empresas de mídia e redes sociais. Bilionários possuem mais da metade das maiores empresas de mídia do mundo e todas as principais empresas de redes sociais”, acrescentou.

O relatório cita a compra do Washington Post por Jeff Bezos, Elon Musk com o Twitter/X, Patrick Soon-Shiong com o Los Angeles Times e um consórcio de bilionários comprando grandes participações na The Economist. Na França, o bilionário de extrema-direita Vincent Bolloré, agora, controla a CNews, reformulando-a como o equivalente francês da Fox News. No Reino Unido, três quartos da circulação de jornais são controlados por quatro famílias super-ricas.

O estudo da Oxfam também cita evidências de que apenas 27% dos principais editores globalmente são mulheres e apenas 23% pertencem a grupos racializados, respectivamente. Além disso, minorias como imigrantes e pessoas de cor são frequentemente estigmatizadas e usadas como bodes expiatórios, e críticos são silenciados. Autoridades no Quênia usaram o X para rastrear, punir e até sequestrar e torturar críticos do governo. Um estudo da Universidade da Califórnia, entretanto, descobriu que nos meses seguintes à aquisição do X por Elon Musk, as taxas de discurso de ódio aumentaram cerca de 50%.

Veja algumas orientações que Oxfam faz para os governos priorizar:

• Planos nacionais realistas e com prazos definidos para a redução da desigualdade, com marcos bem estabelecidos e monitorização regular do progresso.

• Tributação eficaz dos super-ricos para reduzir o seu poder, incluindo impostos de base ampla sobre o rendimento e a riqueza a taxas suficientemente elevadas para reduzir os níveis massivos de desigualdade.

• Barreiras mais fortes entre riqueza e política, incluindo regulamentações mais rígidas contra o lobby e o financiamento de campanhas pelos ricos, garantindo mais independência da mídia e proibindo o discurso de ódio.

• Garantia de participação social, incluindo maior proteção às liberdades de associação, reunião e expressão das pessoas e às organizações da sociedade civil e sindicatos.